Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

A viagem do ‘cocalero’ Evo

Com a renegociação da exploração do gás natural emcima da mesa, Evo Morales visitou nove países em quinze dias. O objectivo foi dar a conhecer quem é o novo Presidente do país mais pobre da América do Sul.

Em cima da mesa apresentou a renegociação da exploração do gás natural (a Bolívia tem as segundas maiores reservas do subcontinente), mesmo depois de ter anunciado a nacionalização do negócio: «Precisamos de sócios e não de patrões. Nacionalizar não é expulsar ou expropriar».

Mas a agenda teve também um cariz político. Em Caracas, ao lado do seu aliado Hugo Chávez, o antigo líder dos «cocaleros» (produtores de folha de coca) afirmou que a Bolívia, a Venezuela e Cuba (onde a 30 de Dezembro iniciara a jornada) formavam o «eixo do bem», contra o «neo-liberalismo e o imperialismo norte-americano».

Na capital venezuelana recebeu uma doação de 30 milhões de dólares e a promessa de fornecimento de 150 mil barris de combustível por mês. A boa vontade não ficou por aqui. Chávez emprestou um avião «Falcon» para Morales viajar até Madrid.

Na capital espanhola, Morales enfrentou o frio com uma simples e colorida camisola de lã. Pouco à vontade com o protocolo, ao avistar o Presidente do Governo espanhol, à entrada do Palácio da Moncloa, estendeu-lhe a mão e perguntou-lhe: «És mesmo tu o verdadeiro Zapatero?».

Quebrado o gelo, passou-se a assuntos sérios, nomeadamente à garantia de que a empresa espanhola Repsol poderá continuar a explorar gás natural na Bolívia (território onde já investiu 913 mil milhões de euros) e de que parte da dívida de La Paz será perdoada.

A paragem seguinte foi Bruxelas. No dia seguinte, o Alto Representante para a Política Externa da União Europeia, Javier Solana, pediu-lhe garantias para a segurança jurídica dos investimentos estrangeiros. À saída da reunião, quando questionado sobre a produção de coca, Evo explicou que apenas falaria do novo Governo.

 

Simbolismo e negócios

Na rota europeia seguiram-se Holanda e França, sempre com a questão do gás em pano de fundo. O mesmo aconteceu na África do Sul, China e Brasil, os destinos finais da viagem inaugural de Morales. Regressado a casa, ainda houve tempo para uma curta visita à Argentina, a fim de não ferir susceptibilidades.

Não por acaso, ao resumir o périplo do novo Presidente da Bolívia, o analista político boliviano Caytano Llobet considerou haver «duas visitas simbólicas: uma a Fidel Castro, que representa a ideia da revolução; outra a Nelson Mandela, que representa a questão popular, isto é, a chegada de uma maioria ao poder depois da opressão». O resto não será casual. «Espanha quer dizer Repsol, França Total, Brasil significará Petrobrás e China investimento». A 22 de Janeiro, Evo Morales tomou posse como o primeiro Presidente índio nos 180 anos de história da Bolívia.