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A vez de Ceres, Caronte e Xena

Conferência da União Astronómica Internacional vota hoje, em Praga, o aumento de nove para 12 dos planetas da família solar. Críticos afirmam que está aberto o caminho para a banalização do conceito de planeta.

O que é um planeta? Esta é a questão que tem dominado o debate dos cerca de 2500 astrónomos reunidos desde a semana passada em Praga, na República Checa, para a conferência da União Astronómica Internacional (UAI). Da resposta a esta pergunta depende o esclarecimento de outra dúvida: quantos são, afinal, os planetas do sistema solar? Para já nove, mas se a proposta do comité de especialistas da organização for aprovada amanhã, há que contar três novos inquilinos: o asteróide Ceres, Caronte, a lua maior de Plutão, e o 2003 UB313, conhecido por Xena.

O debate foi despoletado pela descoberta de Xena em 2003. A conclusão que este tinha um diâmetro ligeiramente superior ao de Plutão (2398 contra 2228 quilómetros) ressuscitou o velho debate em torno do estatuto do último: se Plutão é um planeta, como os astrónomos definiram desde 1930, deveriam ser considerados, pelo menos, 10 planetas no sistema solar. Se Xena não é, então devem ser apenas oito.

Os peritos da UAI optaram pela primeira hipótese, mas com uma «nuance»: a família de planetas teria não 10 mas 12 elementos. Para já, porque o conceito abre a porta à incorporação de dezenas de outros no futuro.

Segundo a resolução, são duas as condições a que um objecto tem que obedecer para poder ser designado um planeta: estar em órbita em redor de uma estrela, sem ser ele próprio uma estrela; e ter massa suficiente para que a sua própria gravidade o deixe com uma forma quase esférica. O comité executivo da UAI propõe ainda a divisão do sistema solar em duas categorias de planetas: os oito planetas clássicos – Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno; e os planetas plutões, uma referência aos corpos semelhante a Plutão que habitam a Cintura de Kuiper, uma zona misteriosa em forma de disco, situada para lá de Neptuno, onde vagueiam milhares de cometas e objectos planetários. O próprio Plutão seria a referência desta nova categoria que incluiria nesta fase Caronte e Xena. Numa espécie de «limbo» ficaria, para já, o asteróide Ceres, que chegou a ser um planeta no século XIX antes de ser despromovido.

Banalizar o sistema solar

O conceito tem, pelo menos, um mérito: «É a primeira tentativa de definir cientificamente o que é um planeta. Sempre houve uma grande difusão de opiniões, mas assim estaremos todos a falar do mesmo», afirma Teresa Lago, coordenadora do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto. Mas os méritos, defendem os detractores, acabam aí. O conceito é demasiado abrangente, abrindo a porta à incorporação massiva de novos planetas e banalizando a noção de sistema solar. A UAI divulgou já uma lista de 12 outros corpos que parecem reunir as características requeridas, mas alguns astrónomos acreditam que na Cintura de Kuiper podem existir cerca de uma centena de corpos celestes nas mesmas condições.

«Quando eu era uma criança, os planetas eram algo especial. Esta definição tira a magia ao sistema solar», afirmou à Associated Press Mike Brown, o astrónomo que desencadeou o processo ao descobrir Xena e que é o rosto mais mediático da oposição à proposta da UAI. «Temo que esta decisão apenas evite responder às grandes questões», explicou ao EXPRESSO. «Uma escolha científica racional», acrescenta, seria admitir a existência de apenas oito planetas, excluindo Plutão e ignorando os três novos candidatos. Mesmo que isso tenha, para ele, um custo pessoal. «As escolhas científicas devem ser feitas com base na ciência, não no sentimento. Ficaria triste por perder a oportunidade de descobrir o décimo planeta, mas ultrapassaria isso», escreveu no seu «site».

Estarão os astrónomos loucos?

Conhecido no meio pela sua frontalidade e considerado pela revista «Time» uma das 100 personalidades mais influentes do ano, Brown sublinha que os principais prejudicados pela decisão serão as pessoas. «Quando se aperceberem que o número de planetas vai ser muito maior, abanarão as cabeças e dirão: Os astrónomos estão malucos». Mais do que apenas obrigar à revisão de manuais escolares e enciclopédias, a definição corre o risco de semear a confusão. «Esse é, de facto, o ponto mais complexo deste processo», admite Teresa Lago. «O impacto ao nível do ensino e da percepção pública pode ser complicado. Desse ponto de vista, não vejo vantagens em introduzir esta complexidade».

Uma possível solução para o imbróglio seria afastar o debate da ciência e admitir que a palavra «planeta» é um termo cultural que não precisa de definição científica. «A verdade é que para os astrónomos uma definição científica não traz nada de novo. É pura semântica», sustenta Brown. Lago concorda. «Não é uma questão fundamental para a Astronomia. Trata-se apenas de uma clarificação e não vai alterar nada. E em pouco tempo voltará certamente a ser alterada, porque estão sempre a descobrir-se coisas novas».

A aceitar-se a definição cultural proposta por Brown – a de que Plutão é  o nono planeta e que apenas os corpos celestes maiores que este devem ser integrados na categoria – o sistema solar ficaria com dez planetas (Xena seria o décimo) e o caminho tornar-se-ia mais complicado para novas incorporações. Mas o astrónomo, que não estará presente em Praga para a votação porque não pertence à UAI, tem pouca fé que este seja o caminho escolhido pelos seus colegas. «Suspeito que aprovarão a resolução, porque estão tão fartos de falar sobre isto que votarão qualquer coisa!»