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A última conversa com José Megre

Em Setembro de 2008, um jornalista do Expresso manteve uma longa conversa com Megre, no contexto da preparação de uma futura entrevista. O aventureiro partiu antes do trabalho ficar completo. Aqui fica o essencial desse diálogo.

 

Foi ao fim de uma tarde tranquila de Setembro que José Megre nos recebeu na casa da família em Águas, a sul de Penamacor. A azáfama era grande, porque decorria a montagem da Feira do Coleccionismo e do Veículo Automóvel que iria realizar-se no dia seguinte.

O aspecto físico de Megre era bom, logo traído por um indisfarçável cansaço: para nos mostrar o recinto deslocava-se de carro e falava ainda mais pausadamente que o habitual. Mas os olhos brilhavam-lhe com o fulgor antigo quando mostrava os seus modelos favoritos: o UMM com que foi ao primeiro 'Dakar', em 1983, os dois Nissan Patrol com que disputou o Paris-Cabo e o Paris-Pequim e, sobretudo, a station Willys em que ia para a escola em miúdo. Demorou décadas a localizar o carro, mas acabou por comprá-lo.

José Megre e o UMM com que participiou no primeiro «Dakar», em 1983

José Megre e o UMM com que participiou no primeiro «Dakar», em 1983

Alberto Frias

Se em matéria de carros José Megre tinha conseguido os seus objectivos, no que respeita a viagens faltava-lhe mais um país significativo a juntar à sua lista de quase 200 viagens pelo mundo inteiro: o Iraque, nem mais nem menos. "Já sei por onde é que se entra. Só me falta ter alguém de confiança lá". Mas o destino não quis que essa última expedição se pudesse realizar (veja os pormenores da respectiva preparação no texto relacionado de Alexandre Correia).

Em todos os sítios onde foi, Megre teve sempre bons apoios locais. Por exemplo, no Afeganistão, o seu guia e guarda-costas era um antigo mujahedin. "Era ele quem me dizia discretamente para evitar tal grupo ou tal esquina. Fui alferes dos Comandos e aprendi que um soldado deve tanto saber combater como saber evitar o perigo", relatou então.

Uma das suas últimas viagens foi aos lagos salgados de Dallol, entre a Eritreia e a Somália. Um lugar de uma beleza extraordinária, "onde só se chega a pé, nas caravanas de camelos que ali vão buscar o sal... ou num Toyota dos duros, guiado por quem saiba". Semanas depois, um grupo de turistas ingleses era raptado naquele preciso local. Saber ou sorte? A resposta vem pronta, com um sorriso rasgado: "A sorte protege os audazes, mas nem todos..."

O aventureiro exibindo um dos muitos carros de madeira que compunham a sua colecção

O aventureiro exibindo um dos muitos carros de madeira que compunham a sua colecção

Alberto Frias

Dos seus tempos de soldado e de piloto ficou-lhe uma calma invejável nas situações de tensão. Em 1996, durante uma expedição em Marrocos, presenciou um acidente grave nas dunas do Erg Chebbi. Havia uma Nissan Terrano em mísero estado, dois feridos graves e um ligeiro.

Sem nunca levantar a voz, nem aparentar uma ponta de nervosismo, Megre mandou um colaborador à cidade de Erfoud descobrir um bom consultório médico, telefonou para Lisboa, organizou as coisas no local e a expedição prosseguiu.

No dia seguinte de manhã, os feridos, devidamente tratados, já estavam a bordo de um avião especial para Portugal. Parecia que nada se tinha passado.

Apesar das suas imensas qualidades, José Megre tinha, pelo menos, um ponto fraco: uma surpreendente insegurança perante as críticas. "Você acha mesmo que eles têm razão? Não acha que os jornais me estão sempre a atacar?", queixava-se amiúde. Rara era a conversa que não começasse ou acabasse assim.

José Megre o o chapéu de aba larga que se tornou a sua imagem de marca

José Megre o o chapéu de aba larga que se tornou a sua imagem de marca

Francisco Romeiras

E, no entanto, que currículo! Das idas ao 'Dakar' à organização de provas desportivas em Portugal e expedições aos quatro cantos do mundo. Sempre com o chapéu de aba larga que se tornou na sua imagem de marca e que mãos amigas colocariam, com carinho, em cima do caixão, durante as cerimónias fúnebres de há uma semana.

Sentados nas escadas de pedra da quinta da família Megre, desfiámos episódios e recordações durante horas, enquanto lá dentro o Alberto Frias fotografava os dinky toys coleccionados desde miúdo e os carrinhos de madeira, lata e arame trazidos das viagens aos quatro cantos do mundo.

Já com o sol a pôr-se, o entrevistado pediu-me para desligar o gravador. Perguntei-lhe: "Está cansado, Zé? Quer deixar o resto da conversa para amanhã?". A resposta deixou-me petrificado: "Nada disso. Arranja-me lume?", disse ele, puxando por um cigarro.

Sabedor dos problemas de saúde que o afectavam, murmurei: "Vai mesmo fumar?". Mostrando o maço, respondeu: "Já viu? São cigarros de senhora. Que mal é que isto faz?". De facto, não era caso para chamar a ASAE...