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A travessia do deserto (Manoel de Oliveira, parte II)

À míngua de financiamentos, nos anos 40/50, Manoel de Oliveira quase se extingue como cineasta.

O mau acolhimento, maugrado os encómios repetidos de António Ferro, pôs Manoel de Oliveira no limbo. Nos anos 40 e 50, sucessivos projectos do realizador vão-se gorando por falta de financiamento. No início da década de 50, Oliveira chega mesmo a considerar que a sua actividade como cineasta chegara ao fim. É o tempo em que se dedica à agricultura com grande empenho. Mas, em 1952, acontece-lhe algo que lhe renova o interesse pelo cinema: ao fotografar uma amiga morta, um erro de exposição faz com que a fotografia pareça que de um corpo se evola uma imagem viva - e Oliveira mete-se a escrever uma longa-metragem, Angélica. O filme não se fez (não era tema para o SNI, manifestamente), mas o bichinho do cinema estava outra vez a remoer-lhe o espírito. Em 1955 viaja para a Alemanha e estagia em Leverkussen, nos Laboratórios Agfa, onde estuda a cor no cinema, técnica fotográfica e adquire maquinaria. De regresso a Portugal enceta uma nova curta-metragem sobre a obra plástica do pintor António Cruz na sua relação com o Porto: O Pintor e a Cidade (1956). O filme será apresentado nos festivais de Veneza e de Cork (na Irlanda). De Cork trará Oliveira o primeiro prémio internacional da sua carreira: a Harpa de Prata. Outro documentário, desta feita patrocinado pela Federação Nacional dos Industriais de Moagem - O Pão (1959) - fecha a década.

Entretanto, o SNI abrira finalmente os cordões à bolsa e financiara, através do Fundo do Cinema Nacional, a curta-metragem A Caça (finalizada só em 1963) e a longa-metragem Acto da Primavera (1962), os filmes que definitivamente marcam o renascimento do realizador. Acto da Primavera, rodado numa aldeia perto de Chaves, transposição fílmica de um Auto da Paixão popular, é o filme da grande confluência entre o olhar documental e o gosto pelo faz-de-conta a que chamamos ficção. É o primeiro filme de Oliveira em que vemos as personagens e o fingimento em simultâneo, num efeito que em muitos outros filmes ocorrerá. Mas, nesse início da década de 60 esses dois filmes - e a homenagem nacional que a revista "Plateia" patrocinou e o movimento cineclubista agarrou com ambas as mãos - não estavam no centro dos acontecimentos. Irrompia uma nova geração de cineastas portugueses (Paulo Rocha, Fernando Lopes, António de Macedo, José Fonseca e Costa...) e era esse Cinema Novo que mais atraía as atenções.

A geração não deixou de arvorar Manoel de Oliveira como pai referencial, o único possível num panorama em que a vileza dos anos 50 deixara o cinema português mergulhado em mágoa e vergonha. Só que, de facto, ele era de outro tempo. Ainda realizou um documentário curiosíssimo, em particular pelo genial improviso que Carlos Paredes fez para ele (As Pinturas do Meu Irmão Júlio, 1965) mas ficou lá pelo Porto, enquanto tudo o que importava em matéria de cinema se jogava em Lisboa: a lenta ressaca da geração do Cinema Novo após constatar que não conseguia conquistar o público. A vaga estava a morrer na praia. Salvou-a os bons ofícios da Gulbenkian que resolve dar-lhe fôlego. Os novos realizadores lembram-se do patriarca e oferecem-lhe as primícias desse dinheiro fresco que vinha dar uma nova esperança ao cinema português. Trinta anos volvidos sobre Aniki Bóbó, Oliveira volta ao cinema de ficção com actores e dirige O Passado e o Presente, uma comédia a escaqueirar as ideias feitas que sobre o cineasta se haviam criado. A vozearia que se ergueu não poderia ser mais contrastante, Enquanto uns vociferavam contra o filme gritando que "O rei vai nu!", outros proclamavam "Obra-prima!" João César Monteiro chegou mesmo a escrever que, "como todos os grandes e revolucionários filmes, também este tem o condão de desmascarar os imbecis", num delicioso gesto de terrorismo intelectual muito ao sabor do tempo. Começavam os anos em que Oliveira seria também uma trincheira de combate.

(continua na próxima semana)

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Novembro de 2008