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A revolução das rosas

A população esperava este dia há já algum tempo. Os soldados também. Só os turistas pareciam não saber que esta "revolução" iria virar uma festa!

Na noite em que as tropas saíram, as ruas a cidade pareciam completamente despidas de gente. Poucas almas passeavam pelas ruas tirando as que habitualmente se recolhiam para dormir nos bancos e nos vãos das escadas.

Por cima, vista de avião, Banguecoque parecia serena, demasiado serena, para a capital de um pais onde acontecia um levantamento militar. As ruas desertas, poucos carros ou movimento. Um ou outro pequeno ajuntamento de militares num cruzamento, como que a cumprimentar os táxis e os riquexós que seguiam o seu caminho.

As tropas fiéis ao golpe, juntaram-se em duas zonas cruciais da cidade: junto ao Grande Palácio, onde vive o rei Bhumibol Adulyadej e em frente à Casa do Parlamento e ruas adjacentes, onde funcionam os principais organismos do Estado.

As televisões suspenderam as emissões regulares e apenas passavam imagens do rei e das suas múltiplas actividades, nos longos anos que já conta de reinado bem como imagens dos seus súbditos - ou seja os tailandeses -  chorando e orando pelo rei no seu aniversário recente. Pelo meio, documentários sobre a agricultura e novas técnicas agrícolas e, claro, um pouco mais de rei, sua mulher e a sua filha... As rádios apenas passavam música. Os canais de cabo, muito vistos em toda a Ásia, tiveram a emissão silenciada: nem um filme de Hollywood com Rambos a invadir continentes para animar ao serão. Apenas uns comunicados regulares que iam informando, laconicamente, do que se estava a passar.

Os comerciantes, encerrados nos estabelecimentos, permaneciam agarrados à televisão. Os servidores de Internet pareciam mudos e os principais «sites» internacionais de informação silenciados, pelo excesso de tráfego ou por outras artes mágicas. Só as lojas extra «seven eleven» estavam na sua mais perfeita normalidade, abertas 24 horas por dia. Durante a manhã de ontem, dia 20, pairava no ar um certo tom de incerteza: o comércio não sabia se devia abrir ou não. Os bancos e os organismos públicos permaneciam fechados, mas perto do Palácio Real já não se via nem um tanque ou qualquer outro sinal da revolta. Os turistas aguardavam pela sua vez para visitar os jardins e o interior da sala do trono.

Nas imediações do Parlamento a situação era diferente. Pessoas aguardavam junto das barreiras com o intuito de ver o que se passava enquanto «jeeps Hammer» e tanques último modelo movimentavam-se. Os soldados chegavam-se às barreiras em busca de conversa com os transeuntes. Todos os militares, sem excepção, tinham as suas armas ou uniformes decorados com uma fitinha amarela: a cor da família real tailandesa. Uma parte significativa dos mirones trazia consigo «t-shirts» da mesma cor e respectivo estandarte real. Estão na moda depois da recente festa de aniversário de sua majestade. Foram ainda uma forma de mostrar que estavam todos do mesmo lado da “barricada”, ou seja, contra o governo e devotos da grande cola aglutinadora de toda a nação: o rei. O golpe de estado, pelo menos na capital, evidenciava legitimidade em excesso!

Sem que se desse conta do momento exacto em que aconteceu, as pessoas passaram para o lado de lá das barreiras de ferro e começaram a abraçar os soldados, a dar flores e a distribuir cumprimentos. E como Banguecoque é também uma cidade de turistas, estes - na sua maioria jovens europeus, israelitas e americanos em férias demoradas - começaram a tirar fotos com os soldados, para mais tarde recordar.

Embora as barreiras continuassem no meio das estradas, as pessoas dirigiam-se à estátua que se ergue na praça fronteira ao Palácio Real, um lugar de romaria e oração. Jovens soldados divertiam-se pregando partidas uns aos outros e olhando os polícias colaborantes a fazerem-se às fotografias dos repórteres de imagem. A coisa permaneceu neste “vai não vai”, com a barreira a ser mais ou menos respeitada, durante umas boas três a quatro horas até que, aos poucos, acabaram por ser todas levantadas e os tanques arrumados em duas filas de cada um dos lados da praça. Uma enchente apareceu de carro, motas, bicicletas, triciclos e alguns até pelos seus próprios pés. Famílias inteiras aos magotes, em cima de motas, que apareciam não se sabe muito bem de onde, todas de rosas na mão e de preferência amarelas: a cor certa da situação. A cidade estava conquistada. O Governo, esse, parecia ter caído de maduro muito antes de qualquer tropa ter saído para a rua.

Ao rumar a casa depois de tanta agitação restava parar num dos bares em «Khao Sarn Road», beber uma cerveja tailandesa entre os milhares de turistas que procuram as novidades da contrafacção a preços para todas as bolsas e das jovens asiáticas em busca de companhia para mais uma noite, porque a vida não se ganha com revoluções.