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A moda do verde

Como sempre acontece nos EUA, as revoluções começam na rua. Por isso, não se estranha que a moda verde esteja em cada esquina.

A primeira pista talvez nos tenha sido dada pelos pedintes. Certo dia, apareceram a empurrar carrinhos de supermercado carregados de latas de alumínio pelas grandes avenidas americanas acima, as mesmas que, pouco tempo antes, eles usavam como território de pedinchice, sentados no chão, à mercê de um mundo que os tinha deitado para o lixo. Maus velhos tempos. Agora, os pedintes andam transformados em protectores da natureza, sinal de que até os mais limitados podem fazer dinheiro conservando o ambiente. Cada lata vazia da Coca-Cola atirada para um qualquer caixote do lixo é pescada lá do fundo, metida no tal carrinho surripiado ao supermercado, levada ao depósito de reciclagem, vendida. A América funciona, geralmente, seguindo estes mesmos princípios. As grandes mudanças são sentidas, primeiro, na rua. É na rua que, todos os domingos, vários cantos da cidade ficam vedados ao trânsito automóvel, de maneira a que o citadino sem tempo possa abraçar a textura da terra presente nos mercados, fornecidos ricamente pelos horticultores das redondezas, ajuntamentos construídos com tendas e bancas alinhadas ao longo de ruas e cruzamentos que, em vez de carros, oferecem um zumbido saudável feito de vozes que vendem legumes, fruta, mel caseiro e pão rústico. Deambulando por entre romãs e rabanetes, apareceram garotos Dolce & Gabbana de cão na trela, dondocas tentando prolongar a juventude à custa dos milagres vegetais, senhores vindos dos anos 60 que nunca acreditaram na sociedade de consumo e garotas pernaltas dos anúncios que vivem à custa de folhas de alface e carteiras caras da Balenciaga. O ambiente refrescante desta loja a céu aberto é doado pela energia eólica, e, no todo, a imagem tem uma coloratura verde-esperança.

A nação americana parece ter-se finalmente dado conta de que o corpo humano é diferente das entranhas de um carro. Os homens começaram a comer saladas e sentiram subitamente necessidade de contar calorias. A mulher passou a olhar para as amigas vegetarianas como pessoas de confiança e não como marcianas incompreensíveis. Antes, o chocolate era o pior que podia acontecer às ancas de uma nova-iorquina. Hoje, aparece em banhos minerais, máscaras de tornozelo e bálsamos para os pés, benesses abençoadas pelos agentes antioxidantes que o bendito chocolate traz consigo. A sauna e o spa passaram a fazer parte da rotina urbana. Compreensivelmente. O capitalismo aqui é tão sem misericórdia que, ao fim do dia de trabalho, é mesmo essencial que o indivíduo se refugie num lugar confortável, feito em partes iguais de calma, aromaterapia, massagens miraculosas, loções chinesas e Enya. Parem as rotativas: após um crescimento íngreme ao longo de dois séculos desenfreados, o americano adulto deixou de conjugar apenas o verbo futuro e optou graciosamente pelo presente mais que perfeito. O Novo Mundo regressou ao ar livre.

Os sinais estão um pouco por todo o lado. Os carros japoneses - sobretudo os Toyota Prius, Honda Civic Hybrid e Lexus - têm ganho enormes fatias de mercado, não só dada a comprovada qualidade mas também porque usam combustíveis alternativos, mais em sintonia com a nova sensibilidade ambiental. Religiões distantes ganham adeptos, dado o ênfase posto na comunhão com vibrações mais vastas e primordiais. As lojas de desportos criaram secções só para actividades alternativas requerendo imersão total na Natureza, seja a descida de um rio só com troços rápidos, a escalada de montanhas ou passeios primitivos pelos fantásticos parques naturais. As lojas de decoração acentuaram o departamento de jardim e casa de banho, dois lugares onde a limpeza do corpo e do quotidiano deve ser feito no mais perfeito relaxamento dos sentidos. E mesmo nos lares da classe média começou a aparecer um cantinho reservado para a almofada fininha onde a dona-de-casa pode interromper o dia para se sentar numa pose de meditação transcendental.

Actrizes famosas como Natalie Portman declaram publicamente que não se atrevem a comprar cosméticos feitos à custa de testes animais, e nos ecrãs do país aparecem filmes animados em que se enaltecem valores como o equilíbrio ecológico e o vagar da vida em desfavor do desenvolvimento urbano tecido por auto-estradas impessoais. No novo filme da DreamWorks feito para o público infantil, Pular a Cerca, um grupo de bicharocos de bosque revolta-se contra um subúrbio bonitinho mas formatado que apareceu no horizonte para lhes roubar a paz e o território. Na nova aventura vinda da Disney/Pixar, Carros, a vida tumultuosa de uns quantos bólides de corrida adquire mais qualidade quando aprendem a rodar mais lentamente. Antes, pistas automóveis rodeadas de espectadores raivosos. Hoje, um passeio bucólico pela Route 66, onde é possível parar para cheirar as flores na berma da estrada. Até a Nike anda cada vez mais pé-rapado. Daqui a dias, tudo por causa do cada vez maior número de atletas que gostam de correr descalços de forma a melhor educar tendões e ossatura, vai disponibilizar um tipo de calçado que levará o corredor a pensar que não há nada entre a sola do pé e o solo ali ao pé.

Há dois meses, a associação americana de arquitectos, AIA, juntou-se no centro de congressos de Los Angeles. Eram numerosos os pavilhões revelando materiais reciclados, pavimentos feitos com quadros de escola cortados aos pedacinhos, janelas que controlam a temperatura da habitação e muitas outras soluções que iluminam esses grandes arrumadores sociais que são os arquitectos. Parecia que, tal como Albert Spier e Oscar Niemeyer, também os novos desenhadores da visão futura desejam estar ao serviço de forças ambiciosas que se querem dominadoras. Arquitectura sustentável é a expressão mais usada. O menino bonito da nova escola é David Hertz, um arquitecto que vive em Venice, junto à praia, depois de ter crescido nas ondas escorregadias do litoral californiano. Surfista de gema, a sua comunhão com o mar encontra reflexão nos edifícios que imagina. «Durante os anos 70 e 80, com os vários embargos económicos e crises petrolíferas, os arquitectos começaram a ruminar naquilo que podia ser feito. Esses princípios resistiram aos excessos cometidos nos anos 90 e, hoje, acho que a arquitectura pós-consumista é muito mais do que uma tendência passageira. Com os edifícios urbanos absorvendo 40 por cento dos recursos energéticos disponíveis, os arquitectos deram-se conta de que lhes cabe uma responsabilidade muito especial na protecção ecológica», referiu. Na Costa Rica, David Hertz assinou um eco-resort que só ao de leve tocou nos recursos locais: a madeira usada foi a que ficou deitada no chão depois de o último tufão ter dizimado muitas árvores. A mão-de-obra veio daqui, os salários ficaram ali, alimentaram a economia dali. No Havai, deu corpo à residência do campeão de surf Kelly Slater, que namora actualmente Giselle Bundchen. Não houve parede que não levasse uma componente feita com lava de vulcão. «A arquitectura, como tudo, obedece ao passo da economia. Como hoje dominam as economias de escala, aquilo que era caro já não é. Tintas não poluentes costumavam ser um luxo. Agora já não. Paralelamente, acredito que, à medida que os recursos naturais se tornam cada vez mais raros, as pessoas sentir-se-ão mais inclinadas a reutilizar aquilo que fora manufacturado por outro motivo qualquer».

A mudança de postura não se regista apenas no círculo restrito das decisões individuais. A civilização americana, que desde 1776 se recusa a seguir ideias pré-fabricadas nos domínios do poder central ou do gozo pessoal, sempre albergou «hippies» e vaqueiros solitários com uma fobia particular pela massificação mental. A novidade está em que, recentemente, o amor pelo verde se tornou de tal modo inegável que até os grandes empórios empresariais se juntaram ao manifesto contestatário de quem prefere quotidianos menos enlatados. A Starbucks, uma rede tentacular de cafés despoletada em Seattle e que já chegou à Europa depois de ter conquistado quase todas as esquinas dos Estados Unidos, faz questão de informar os milhões de clientes diários que o cultivo dos grãos foi feito segundo o maior cuidado ambiental. Nenhuma tribo do Quénia, Colômbia ou Java foi perturbada enquanto produzia aquilo que, em San Diego, o cliente bebe ao sabor de cinco dólares por dose. A gasolina pode estar pela hora da morte, mas os americanos não se importam de gastar rores de dinheiro por uma dose de café originária de um qualquer canto cristalino do planeta. Nos tapetes vermelhos, caras conhecidas anunciam com orgulho que o vestido maravilhoso foi feito apenas com materiais naturais. A Estée Lauder criou uma variante menos poluída pelos laboratórios, a Origins. A 7Up deixou de incorporar aromatizantes e é, agora, feita apenas com ingredientes naturais. Dado o apetite geral por uma vida mais saudável que respeite regras ecológicas, os maiores colossos do capitalismo ianque juntaram-se ao fenómeno verde e transformaram-se em pouco tempo nos motores deste pequeno terramoto alimentar e vivencial. Reparemos noutro caso, o da Wal-Mart, com cerca de quatro mil hipermercados. O seu peso na economia é de tal modo inegável que, de cada vez que os corpos gerentes decidem aumentar a compra de sumo de laranja, a produção frutícola da Florida triplica e a bolsa de valores festeja. A Wal-Mart compra quantidades tão gigantescas a tantos fornecedores independentes - ou seja, é o ganha-pão de tantas companhias - que passou a ter poder bastante para decidir o preço daquilo que quer comprar. Há dias, depois de deitar as vistas à revolução verde, decidiu que iria colocar nas prateleiras todo o tipo de fruta e legumes cultivados sem o auxílio de pesticidas. Uma decisão, mil repercussões. A indústria química terá de desenvolver nova perícia para proteger as áreas cultivadas, milhares de agricultores serão forçados a produzir sem a ajuda de fertilizantes, e as classes remediadas, as mesmas que se sentem forçadas a recorrer aos preços acessíveis das grandes superfícies para alimentar a família, essas passam a ter acesso a um tipo de verduras virgens que se mantinham reservadas para os mais informados e/ou mais endinheirados. Organic chic: the end.