Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

"A minha música tirou um fã do coma"

Romântico para uns, pimba para outros, é o cantor que arrasta multidões em histeria. Afinal, o que tem Tony Carreira? (Veja fotogaleria no fim do texto)

Ana Soromenho e Isabel Lopes com Ana Baião (fotos)

António Manuel Mateus Antunes, 45 anos, casado, pai de três filhos, podia ser o mais comum dos emigrantes portugueses dos arredores de Paris. Diz que acreditou num sonho e e o transformou em realidade. É sobre isso que, num luxuoso apartamento das Amoreiras, nos vai falar Tony Carreira, o cantor que arrasta literalmente legiões de fãs por esse mundo fora.

Entra discretamente na sala, calças de ganga, camisa clara, desculpando-se de imediato com o trânsito que apanhou no regresso de uma cerimónia na Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, de que é padrinho. Após longos minutos de espera, o fenómeno Carreira está à nossa frente.

Este é o homem que provoca o descontrolo e a histeria só com a sua presença em palco. Há quem olhe para ele e se sinta iluminado. Como se estivesse perante uma aparição. Mas nas duas horas seguintes, Tony vai querer mostrar que é, acima de tudo, uma pessoa simples, Afinal, um enigma.

Como convive com a ideia de que para muitas das suas fãs é quase um Deus?

Não sou um Deus!

Mas tem consciência que é assim.

Oiço pessoas dizerem que graças às minhas canções curaram problemas que tiveram, como depressões...Contaram-me que um médico de uma pessoa que estava em coma perguntou aos pais o que é que lhe tocava e eles responderam que esse doente era meu fã incondicional. Puseram-lhe nos ouvidos uns headphones com uma música minha e ele começou a reagir. Felizmente, ainda cá está.

A sua música tirou-o do coma?

Sim. Mas, por amor de Deus, não estou a dizer que faço milagres, de forma alguma penso isso. Agora, entendo que quando uma pessoa se agarra a uma fé muito grande, seja qual for, pode acontecer aquilo a que podemos chamar, entre aspas, um 'milagre'. Mas isso é a fé da pessoa, não sou eu. A relação que as pessoas têm comigo, ultrapassa-me, não está nas minhas mãos.

É crente?

Sou,mas nunca fui praticamente. Acredito em muitos valores da Igreja, fazem parte da minha educação. Mas há muitas coisas que me chocam na Igreja. A história do preservativo, por exemplo, não faz sentido. Acredito no Bem e no Mal. Deus para mim é o Bem. Já falei sobre isso em certas canções.

E o Mal?

É o Diabo. Tal como o Bem, o Mal também está dentro de nós. Tudo depende da percentagem de humildade de cada um.

Quando sobe ao palco de um recinto como o Pavilhão Atlântico e tem mais de 15 mil pessoas praticamente em histeria, o que sente?

Só posso responder assim: quando estou a dar uma entrevista fico tímido, mas quando estou em palco fico da mesma maneira.

Tímido?!

Oitenta por cento do tempo estou quase em pânico. É um prazer estar ali, toda a vida sonhei com isso, mas o stresse é tanto que acabo por não usufruir do momento.

Mas a sua imagem em palco é de grande tranquilidade.

Agora estou melhor, tem a ver com a experiência. Mas ainda hoje - como aconteceu recentemente nos Globos de Ouro - chego a uma festa e quanto mais perto das paredes melhor.

Como é que uma pessoa que se diz tão tímida não teve outra ambição na vida, senão estar em palco? E se o seu objectivo agora é actuar num estádio. Isso é quase contraditório.

Não, não é contraditório.

Pois se diz que fica quase em pânico...

Mas também adoro estar em palco. Uma coisa não invalida a outra, conheço artistas de nível mundial que têm o mesmo problema.

Tem uma grande máquina atrás de si, o que deve ser uma garantia de que tudo vai correr bem.

Não nasci com essa máquina, foi o empenho de uma vida. Passei a vida a dedica-me " a isto, e a isto". Mas ainda para lhes falar da timidez: acreditam se lhes disser que nos Globos de Ouro só pelo pânico de entrar no palco pedi a Deus para não ganhar? E foi um alívio não ter ganho. O meo venceu. Isso acontece quando estou fora do meu universo.

É apenas uma gala de artistas. Porque não é o seu universo?

Por tanta coisa...Desde logo, não estou habituado a ser nomeado para este tipo de coisas, nem a ir festas do tipo jet-set. Não me estou a excluir de nada, simplesmente não estou interessado. Se me convidam, não vou, o meu mundo é outro.

E qual é o seu mundo?

É o mais verdadeiro possível.

O que é que isso que dizer?

A partir do momento que se ouve, no fim da gala, o António Feio dizer "não se esqueçam de entregar os vestidos", só posso rir! Para mim os valores verdadeiros têm a ver com sinceridade.

Quando se atinge o seu patamar, há sempre gente que se aproxima por motivos que nada têm a ver com a sinceridade.

Um dia o sucesso também acaba, aí vou saber. E são capazes de estar enganadas.

Nunca ninguém se aproximou de si pelo seu sucesso?

Não digo que não tenha havido que não tentasse. Mas não me parece, sou uma pessoa de trabalho/casa, não tenho muitas oportunidades de conhecer muita gente.

Na sua perspectiva, o que o faz ser o cantor mais popular de Portugal?

Não faço ideia, já me interroguei milhares de vezes e não consigo perceber. Gosto de tratar bem que me trata bem, respeito muito o meu público e penso que ele reconhece isso.

Todos os artistas tratam bem o seu público.

Da minha parte há uma entrega que não sei se não será única. Adormeço a pensar nisto e acordo a pensar nisso.

Imagem cuidade: Tony afirma que não faz dieta nem vai ao ginásio, mas cultiva o género do eterno jovem. E não dispensa a presença de um amigo de longa data que lhe trata do «styling»

Imagem cuidade: Tony afirma que não faz dieta nem vai ao ginásio, mas cultiva o género do eterno jovem. E não dispensa a presença de um amigo de longa data que lhe trata do «styling»

Cultiva muito a imagem do bom rapaz, e os portugueses são muito sensíveis a esse tópico. Não será por isso?(Risos)

O Tony é o rapaz que qualquer mulher quer para filho, para genro, para marido...Talvez devessem ligar mais vezes a televisão...É que há tantos bons rapazinhos a cantar!

Não concorda com esta leitura?

Talvez essa leitura possa até corresponde um pouco à realidade, mas não há resposta sobre o que cativa o público desta maneira. Há coisas que não tem explicação.

Qual foi o momento que teve consciência da sua popularidade?

Nunca. Acreditam que se daqui a uns meses fizer novamente um Pavilhão Atlântico não tenho a certeza de o encher? Chama-se a isto insegurança.

Acaba por funcionar como o 'sonho americano' ara os portugueses. Sente que é um exemplo?

É um facto que o meu percurso de vida foi esse, e foi muito complicado chegar aqui. Um puto que sai da Pampilhosa da Serra, vai para a França, para uma fábrica, casa muito cedo, tem filhos, grava vários discos, mas nenhum deles funciona...e já voaram 20 anos de vida. Houve um momento que disse: "Não consigo, não tenho dinheiro, vou desistir e trabalha na fábrica até à reforma". E um dia o telefone toca e o Francisco Carvalho, da Espacial, diz-me que gostava de falar comigo, que achava que eu tinha potencial, e aí começa a minha aventura de 15 anos nessa editora.

Como se define, enquanto músico?

Sou um cantor romântico e popular - gosto da palavra 'popular', porque considero-me (e gosto de me considerar) uma pessoa do povo - com alguma parte de 'rockalheira' à mistura. Mas, infelizmente, nem sempre fui conotado como cantor romântico.

Antes de ser um cantor romântico era o quê?

Talvez muito mais popular. Há uns anos, o Carlos Ribeiro (apresentador de televisão) disse numa entrevista que houve uma fornada de artistas pimba da qual saltou um que era eu. Isto passou-me mais ou menos em 1995, quando começaram a aparecer os "Big Shows"...e eu estava ali naquele género musical que na altura estava muito na onda.

Na onda da música popular ou da música pimba?

O que é música pimba? Não sei.

É a música pirosa.

Pirosa...

Quim Barreiros, por exemplo, é o quê? Para mim, é brejeiro. Quando se fala em música pimba, penso que as pessoas querem dizer música má. Para mim, por exemplo, Julio Iglesias é um cantor romântico, por excelência...

Como define "romântico por excelência"?>

A voz, a orquestração, a escolha do reportório, tudo. Quando se ouve uma canção do Luis Miguel, do Iglesias ou do Roberto Carlos, ninguém pode dizer que aquilo é mau. Pode-se dizer "não gosto", mas dizer que é mau?!...

Foi um dos grandes nomes deste tipo de música, Emanuel, que deu o mote para esta definição, com o refrão Nós pimba!"

Foi, foi...Reparem, o meu percurso na música ligeira foi muito mais difícil do que se cantasse rock, pop, jazz ou blues...

Seria capaz de fazê-lo?

Não sei. Mas seria mais fácil, porque, à partida, um cantor de música ligeira é logo denegrido.

Depende do público.

Estou a falar do meio, da crítica...Se um músico de rock vender platina é herói, eu vendo seis e é normal! Se o Iglesias cantasse em Portugal chamavam-lhe pimba, como me chamam a mim.

Isso ofende-o?

Já me ofendeu, agora não. Mas não é justo, e a injustiça é uma coisa terrível. Os críticos podem não gostar, mas têm de ter olhos e ouvidos para perceber o trabalho que foi feito, e isso é sempre de louvar.

Quais são as suas qualidades enquanto cantor de música ligeira?

A sensibilidade.

Que se traduz em...

Na escolha das canções certas, da melhor melodia ara a minha voz e que me leva a cantar da forma que canto...Pode haver cantores que tecnicamente são muito bons mas não passam emoção nenhuma e outros que não êm grande técnica, mas passam muita emoção.

Onde se inspira para fazer aquelas letras a puxar ao sentimento? Não leva a mal, mas é um pinga-amor.

É o que gosto. Não gosto de letras abstractas. Tenho de ouvir uma canção - e não me considero nem de forma alguma nabo nem burro - e percebê-la logo à primeira. Uma canção tem de ter uma história, que pode ser poeticamente bem ou mal escrita. Se calhar, não consegui isso em todas as minhas canções, não é fácil...Picasso não fez só obras de arte.

O Tony e o seu filho Mickael Carreira são, de algum modo, os Iglesias portugueses...

Entendo que se faça essa ligação.

Quando o seu filho revelou que também queria ser cantor, qual foi a sua reacção?

Sempre fui um pai de dar tudo aos meus filhos. Desde cedo que o via brincar com instrumentos, quando me pedia uma guitarra lá vinha uma guitarra, quando me pedia um piano lá vinha um piano mas nunca pensei que quisesse disto profissão...Quando me disse que queria seguir música, claro que senti medo, pois sabia que se as coisas não funcionassem, podia vir a sofrer muito. Mas quando ele decidiu abandonar os estudos apoiei-o.

Não desejava que não lhe acontecesse o mesmo que a si, que teve de sair da escola para ir trabalhar?

Claro que gostava muito que ele tivesse continuado a estudar, depois de terminar do Liceu. Mas também via que a cabeça dele não estava ali, e ir à escola só para passear os livros não vale a pena. no meu caso, se os meus pais me tivessem dado a possibilidade de prosseguir os estudos, tê-lo-ia feito.

Trabalha há 20 anos com as mesmas pessoas. É também a equipa do seu filho?

Este ano quis mudar e escolheu outros produtores e outros músicos. Fez muito bem.

Foi um desejo de emancipação?

Foi, nos dois primeiros discos sentiu que a preparação era bastante grande. Tinha a noção que as portas se abriam só por sr 'filho de'. Agora fez um grande disco na linha da pop.

Há competição entre os dois?

Quer se queira quer não, há e não há. Estou no top há meses com o meu último disco, e ele acaba de entrar com o que lançou agora. Penso que desejamos o mesmo: ele gostava de ter um sucesso maior que o meu. Acima de tudo, sou pai dele.

Não é só o Mickael que beneficia de ser seu filho...

Também acho. Vejo miúdas que são minhas fãs, mas por ser o procriador do Mickael até acabam por gostar de mim.

E em palco não sai a perder com a comparação, parecem dois irmãos.

É verdade, tenho consciência que fico bem na fotografia. E a minha relação com os meus filhos também é essa. Não sou um pai autoritário.

Música: Ao fim de 21 anos de carreira, Tony está convencido que a música ligeira é mal-amada e garante que tudo teria sido mais fácil se cantasse rock, pop, jazz ou blues

Música: Ao fim de 21 anos de carreira, Tony está convencido que a música ligeira é mal-amada e garante que tudo teria sido mais fácil se cantasse rock, pop, jazz ou blues

Contou a sua história de emigrante que sobe a pulso na vida na sua autobiografia "A Vida Que Eu Escolhi" lançada no ano passado. Porque sentiu necessidade de o fazer?

Arrependi-me! Não imaginam a quantidade de programas de televisão e de revistas que querem levar sempre para esse campo. Isso recuso, porque não quero ser acusado de estar a usar o meu percurso difícil para o êxito. E essa biografia trouxe-me problemas para os quais não estava preparado.

Está a falar de quê?

É complicado... Sempre me recusei abrir as portas da minha casa, mas no livro abri as portas da minha vida e, de repente, as revistas cor-de-rosa já queriam fotografar os meus filhos, por tudo e por nada iam à minha aldeia para entrevistar um cão que passasse em frente à minha escola... Um dia ligou-me o meu tio apavorado porque estava lá uma revista para o entrevistar, para saber como eu era... Tudo isto irritou-me profundamente.

Custa a crer que tenha sido tão ingénuo que não tivesse a noção de que o livro iria ter repercussões.

Mas, às vezes, sou.

Não é possível...

Falem com a minha mulher, que ela explica se é verdade ou mentira.

Durante muito tempo escondeu que era casado... É verdade. E no livro assumo que o fiz.

Ao longo de 12 anos fingiu que era solteiro. Não lhe parece que baseou a relação com as suas fãs numa mentira?

Pensei que com essa imagem as coisas seriam mais fáceis. Mas não me beneficiou em nada, e mal comecei a ter sucesso, em 95, disse que era casado.

Chegou a dizer que andava à procura da mulher ideal.

Pois foi.

A sua mulher não deve ter gostado muito dessa omissão.

Na altura, não achou piada. Lembro-me perfeitamente. Só tenho é que pedir desculpa. A minha mulher é extraordinária.

Está sempre a dizê-lo.

Mas é verdade. Qualquer pessoa que conheça o meu mundo...

Quem o conhece?

Muita gente. Qualquer pessoa que se aproxime de mim sabe que a minha mulher é o pilar mais importante da minha vida. Em tudo. E amo-a mais hoje do que em qualquer outro momento da minha vida.

Também está sempre a fazer esse tipo de declarações.

O que querem? São verdadeiras.

Ficam-lhe bem.

Tenho culpa? É fantástico estar assim apaixonado com esta idade.

Lá está: o marido extremoso, o pai extremoso...

As suas fãs gostam mesmo de si: não só não se sentiram enganadas por, afinal, ser casado como até devem ter ficado mais descansadas... (Sara, a filha mais nova, entra com fatias do bolo que acabou de fazer) A Sara é um anjo, um doce... e foi um acidente.

Já o disse. E também disse outra coisa, que é um bocado marialva: que fez um filho à sua mulher para ela não se ir embora.

Não é nada disso. Quando a conheci, foi paixão à primeira vista. Quis-lhe fazer um filho para a guardar logo ali, embora ninguém guarde ninguém com um filho...

"Guardar logo ali" também é uma frase..

Também tive noção de que era um bocado bruto e ponderei durante uns tempos se devia escrever certas coisas. Fui honesto. Até porque ter contado a verdade sobre isso, o que é que me trouxe em termos de popularidade? Nada. Pelo contrário.

Trouxe-lhe talvez afirmação enquanto ser masculino, no fundo, um macho.

Penso que isso é mais negativo do que positivo. Uma pessoa que diz "fiz-lhe um filho só para a guardar", eticamente não é lá muito bonito.

É uma frase que a maioria da classe masculina é capaz de apreciar.

Não. Qualquer homem, ao ler aquilo, diz: "O tipo não foi lá muito porreiro."

Acha?

Vocês consideram Portugal um país de machistas?

Bastante.

Eu não acho.

Houve uma evolução, mas ainda é muito. E a sua frase é machista.

É. Tenho plena consciência disso, mas era por amor.

O que escreveu não ofendeu a sua mulher?

Não, porque ela sabe o porquê das coisas. Tenho a certeza que, na altura, eu gostava muito mais dela do que ela de mim.

Fica-lhe muito bem dizer isso enquanto cantor romântico.

Ai, meu Deus! (Risos)

Mas durante muito tempo pôs a carreira à frente do seu casamento.

Ela sabia desde o primeiro dia que eu era completamente obcecado por esse sonho e que, se me fizesse escolher, ficava a perder.

Agora é sua manager.

Quando viemos para Portugal, há oito anos, ela queria trabalhar e entreguei-lhe a minha agenda. Nessa altura, a dimensão das coisas não tinha nada a ver com o que é hoje. Agora, é ela que tem a doença da obsessão pelo trabalho.

Já se confrontou com a crise?

Há cinco anos reduzi o número de concertos: de uma média de 150 a 200 por ano passei para 40 a 50. Portugal é pequeno e não quero cantar hoje aqui e daqui a 15 dias a três quilómetros, porque prejudica o espectáculo. Portanto, não senti uma baixa de trabalho. Mas se ainda estivesse a marcar todos os sítios que me quisessem levar, com certeza que estaria a sentir a crise.

Agendam-se mais tarde os espectáculos, apenas com alguns dias de antecedência?

Sim. No próximo ano será bem pior, este ainda é um ano de eleições.

Costuma cantar em comícios?

Raramente.

Já cantou para algum partido em especial?

Canto para todos. Quando me contratam, não vou pela cor política. Faço o meu concerto, e o resto não tem nada a ver comigo. Já me pediram para dar a cara por este ou por aquele partido e só o fiz uma única vez porque acredito na pessoa.

Quem era?

O presidente da Câmara da minha terra. E ganhou.

De que partido é a Câmara?

Não faço ideia.

Este ano, Portugal tem três eleições. Costuma votar?

Às vezes.

E votou alguma vez em França, dado que viveu lá a maior parte da sua vida como adulto?

Não.

Tem a dupla nacionalidade?

Nunca quis. Nem a minha mulher nem os meus filhos têm. Nisso, sou um bocado arcaico. Com certeza também foi por ter vivido fora de Portugal, o que traz ao de cima sentimentos como a saudade, o lado português... Tenho um orgulho enorme em ser português Sei que fica bem dizer isto, mas não é por aí...

Fala com os filhos em francês.

É o hábito.

Os seus filhos estudam no Liceu Francês, em Lisboa.

Foi para não terem um grande choque quando vieram para cá. Senti na pele quando fui para França como é penoso entrar num liceu e não perceber a língua.

Os seus apelidos são Mateus e Antunes. De onde vem o Carreira?

Foi um dos meus produtores que se lembrou, porque funcionava bem pronunciado nas duas línguas.

No ano passado, esteve envolvido no caso mais polémico da sua carreira ao ser acusado de plágio, devido a músicas como "Depois de Ti (Mais Nada)" e "Eras Tu, a Metade de Mim". Como terminou o processo na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)?

Não houve processo nem queixa de ninguém. Foram um ou dois erros que eu cometi há 12, 13 anos e que toda a profissão sabia...

Toda a profissão?

As pessoas do mundo das cantigas... Dizia eu que toda a profissão sabia que eu tinha feito isso...

Sabia como? Disse "Vou fazer igual"?

Não. Ainda agora os Coldplay foram acusados por Joe Aatriani, a Madonna já teve esse problema... A única coisa que eu tenho a dizer sobre isto é que com outros artistas sai uma notícia pequenina e com o Tony foram milhares, uma autêntica perseguição para me matar artisticamente.

Porque fez esse "pequeno erro", como diz?

Não há explicação quando se faz uma canção que é mais ou menos igual a outra. Acham que a Madonna quando faz uma coisa deste género é porque não tem visibilidade?

Mas não quer contar o que se passou?

Antes de lançar o meu último disco, dei uma entrevista num telejornal, porque eticamente não podia apresentar um trabalho novo sem explicar essa história ao meu público. Na altura, disse que era a única vez que falava sobre este assunto. E ainda não quebrei isso.

Quando diz que todo o mundo da profissão sabia significa que lhe chamaram a atenção de que as músicas eram idênticas?

É evidente que sim. Tal como também faço com um cantor com o qual tenho afinidades e amizade. Mas o único que foi julgado, condenado e crucificado fui eu. Mas não quero ser um artista conflituoso.

Ao admitir que comete um erro está a assumir que houve uma intenção de copiar?

Peço imensa desculpa, mas já disse o que tinha a dizer na TVI.

E quem não viu essas declarações?

Não falo mais sobre o assunto. Inclusive, já houve em Portugal plágios feitos sobre canções minhas, e eu estou caladinho e sereno.

Ao fim de toda a luta que teve para se impor, depois de durante anos não ter tido lugar, como refere na sua autobiografia nas televisões e numa imprensa que classifica de mais elitista - e na qual inclui o Expresso - sente-se 'vingado' pelo seu sucesso?

Não, não. Levo isso para o campo do reconhecimento.

Produção: Romão Correia;

Agradecimentos: Altis Belém Hotel & Spa; El Corte Inglés; Show-Press; União Musical; Animagest; Alunos do Instituto Português de Fotografia

A imagem de Tony Carreira está a cargo de Vasco Correia, um amigo de longa data (Foto Guida Gomes)
1 / 15

A imagem de Tony Carreira está a cargo de Vasco Correia, um amigo de longa data (Foto Guida Gomes)

Vasco Correia, sempre presente, é o último a estar com Tony antes deste subir ao palco (Foto Guida Gomes)
2 / 15

Vasco Correia, sempre presente, é o último a estar com Tony antes deste subir ao palco (Foto Guida Gomes)

Para ilustrar a entrevista com Tony Carreira o Expresso montou uma produção especial (Foto Tiago Duarte)
3 / 15

Para ilustrar a entrevista com Tony Carreira o Expresso montou uma produção especial (Foto Tiago Duarte)

Durante algumas horas, o cantor foi fotografado em diversas áreas do Altis Belém Hotel & Spa (Foto César Cordeiro)
4 / 15

Durante algumas horas, o cantor foi fotografado em diversas áreas do Altis Belém Hotel & Spa (Foto César Cordeiro)

Não foi só a objectiva da fotógrafa Ana Baião a fixar o cantor (Foto Diogo Pinto)
5 / 15

Não foi só a objectiva da fotógrafa Ana Baião a fixar o cantor (Foto Diogo Pinto)

Alunos do Instituto Português de Fotografia foram convidados a fotografar a sessão (Foto Vânia Canarias)
6 / 15

Alunos do Instituto Português de Fotografia foram convidados a fotografar a sessão (Foto Vânia Canarias)

O bar do hotel foi um dos locais escolhidos para fotografar o artista(Foto Vânia Canarias)
7 / 15

O bar do hotel foi um dos locais escolhidos para fotografar o artista(Foto Vânia Canarias)

Retoques na imagem de Tony Carreira a meio da sessão (Foto Diogo Pinto)
8 / 15

Retoques na imagem de Tony Carreira a meio da sessão (Foto Diogo Pinto)

Tiago Miranda, fotógrafo do Expresso, desta vez apoiou Ana Baião, autora da reportagem fotográfica (Foto César Cordeiro)
9 / 15

Tiago Miranda, fotógrafo do Expresso, desta vez apoiou Ana Baião, autora da reportagem fotográfica (Foto César Cordeiro)

O preto e branco dominam a decoração do espaço, uma mais-valia para fotografar (Foto Ritha Alves)
10 / 15

O preto e branco dominam a decoração do espaço, uma mais-valia para fotografar (Foto Ritha Alves)

Ana Baião e Tony Carreira no cenário da segunda fotografia publicada na Revista Única (Foto Ritha Alves)
11 / 15

Ana Baião e Tony Carreira no cenário da segunda fotografia publicada na Revista Única (Foto Ritha Alves)

Mudança de cenário, agora com vista para a Doca de Belém (Foto Ana Rita Braga)
12 / 15

Mudança de cenário, agora com vista para a Doca de Belém (Foto Ana Rita Braga)

Romão Correia segue os detalhes da produção de que foi responsável (Foto Tiago Duarte)
13 / 15

Romão Correia segue os detalhes da produção de que foi responsável (Foto Tiago Duarte)

Um quarto serve de último “décor” à reportagem com Carreira (Foto Ana Rita Braga)
14 / 15

Um quarto serve de último “décor” à reportagem com Carreira (Foto Ana Rita Braga)

15 / 15

Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 13 de Junho de 2009.