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A minha consola e eu

Somos os campeões do mundo de Xbox. Em proporção, somos também o maior comprador mundial de Playstations. Crianças e adultos, homens e mulheres, em competição ou por simples diversão, o vício dos videojogos contagiou os portugueses.

«Há bons médicos, há bons empresários, nós nascemos com jeito para os videojogos!». Miguel Dinis e António Gomes, de 28 e 21 anos, são a prova de como os jogos de consola podem ser levados a sério. Estamos na presença de, nada mais, nada menos do que, os campeões mundiais de XBox. Acredite se quiser.

Conheceram-se pela Internet, em 2001, e tornaram-se amigos, com uma paixão em comum: jogar futebol no PC. Em Junho foram representar Portugal no XBox Cup – um torneio internacional de videojogos organizado pela Microsoft, na Alemanha, a par do Mundial de Futebol – e arrecadaram a taça de campeões do mundo. «Entrámos para ganhar, esta vitória já ninguém nos tira. Fizemos aquilo que a selecção nacional não conseguiu».

À partida, pode parecer estranho existir um campeonato mundial para amantes do jogo de consola «Fifa 2006», mas Miguel e António desmistificam: «Ambos fomos jogadores de futebol mas, como não temos tempo para o praticar, jogamos no computador. É um título como outro qualquer. Não deixa de ser competição!».

Embora tenham começado a jogar videojogos «desde muito pequeninos», tiveram de treinar arduamente para alcançarem o lugar de melhores do mundo. «Nessa altura tínhamos treinos diários, à noite», explica Miguel. «Agora somos capazes de jogar uma hora por dia e nada mais. Ao fim-de-semana até temos uma regra: não se liga a consola».

Miguel e António asseguram que o tempo que passam a jogar não interfere com o seu dia-a-dia. «A minha namorada até gosta de me ver jogar, nunca discustimos por esse motivo», garante António. Viciados, mas não muito, ambos encaram a actividade como apenas «um 'hobby', sem dependências… já não temos idade para essas coisas!». No entanto, Miguel, que é contabilista e António, técnico de informática, não excluem a hipótese de profissionalização no ramo dos videojogos. «Há países onde jogar consola é uma profissão. Se por cá rendesse um bom dinheiro não olhávamos para trás».

Por agora, têm em vista o «World Cyber Games 2006», uma espécie de «jogos olímpicos das consolas», que se vai realizar em Itália, em Outubro. Os dois jogadores estão «confiantes» na qualificação porque «em Portugal há só uns bons dez jogadores. Temos muitas hipóteses de voltar a representar o país». Quanto à possível presença de mulheres, a resposta é unânime: «Nem pensar! As mulheres não têm jeito para estas coisas».

Afinal elas também gostam

Filipa Azevedo vem contrariar a teoria dos dois campeões mundiais. Aos 29 anos, assume-se «fã dos jogos da Playstation» e garante que não costuma ficar «nada atrás» dos rapazes. «Quando lhes ganho, ficam chateados e querem logo fazer outro jogo. É uma questão de ego masculino», conta Filipa, que é hospedeira no aeroporto de Faro. «Eu posso ganhar ou perder, não me aborreço. Jogo apenas pelo gozo e não pela competição». No entanto, admite que a maioria das mulheres não «liga muito», o que «não significa que as que gostam não saibam jogar».

Do «snowboard» ao futebol, a hospedeira explica que «desde pequena gosta das coisas típicas dos rapazes». Os videojogos são uma das suas actividades preferidas: «uma forma descontraída de passar o tempo».

Quando os amigos vão a sua casa «é já um hábito fazerem uma partidinha» do jogo «Pro Evolution Soccer». Mas é quando está sozinha que passa mais tempo agarrada à consola. «Quando me apetece, jogo o tempo que for preciso. Por vezes, quando dou conta já passaram quatro horas e sobram-me apenas três para dormir». Embora Filipa não sinta que os videojogos a prejudiquem na sua rotina, é nestas alturas que percebe a facilidade com que jogar se podem transformar num vício: «É preciso ter controlo. Quando começo nem vejo as horas a passar, é sempre ‘só mais um’ jogo».

Talvez por este motivo garante que, quando tiver filhos, vai impor algumas regras. «É óbvio que os deixarei ter videojogos e até os vou ensinar a jogar, mas estou consciente que, ao contrário dos adultos, as crianças não conseguem pôr um travão sozinhas. A dependência é muito mais fácil de aparecer».

Pequenos adeptos

«Controlo» é uma palavra que não agrada aos irmãos Miguel e Guilherme, de 13 e 11 anos, que, à semelhança da grande maioria dos adolescentes, elegem as consolas como o seu passatempo preferido. «Primeiro estão os trabalhos da escola e só depois, se houver tempo, é que podemos jogar», explica o irmão mais velho. A regra imposta pelos pais não agrada a nenhum dos pequenos jogadores, que aproveitam os fins-de-semana, e agora as férias de Verão, para «tirar a desforra». «Dizem-me que não devo jogar muito tempo porque faz mal aos olhos, mas não me importo», confessa o mais novo, que geralmente divide o seu tempo entre a escola e o trabalho como actor de telenovelas.

No quarto, as caixas de jogos e os livros e revistas com «truques para passar os níveis» enchem as prateleiras. O antigo Gameboy já foi substituído pela Playstation portátil: «para não haver chatices cada um tem a sua». No entanto, as discussões são inevitáveis quando chega a hora de partilhar a única Playstation 2. «O problema é que gostamos de jogos diferentes e queremos jogar ao mesmo tempo. Mas as zangas passam rápido», garante Miguel, que quer ser professor de educação física. Quando a discussão aquece, o «pai desliga-nos a consola a meio dos jogos, o que vale é que nos deixa gravar os resultados primeiro!».

Para os dois irmãos, brincadeiras como o monopólio ou as escondidas estão totalmente ultrapassadas. Actualmente, «é óbvio» que as festas de anos e as tardes em casa dos amigos são passadas à volta dos videojogos. «Se não houver consola vê-se televisão ou joga-se à bola», explica Guilherme. Quanto às prendas mais desejadas, entre um livro ou um jogo, a resposta é comum: «um jogo claro!».

Entretenimento para toda a família

Dizer que os videojogos são um divertimento só para crianças é, cada vez mais, um grande erro. Para os responsáveis pelo marketing da XBox e da Playstation, os dois modelos mais vendidos em Portugal, estas consolas transformaram-se em «plataformas de entretenimento multimédia» com conteúdos e funcionalidades diversificadas.

Ver filmes, guardar fotos das férias, ligar-se à Internet ou ouvir música são apenas algumas das potencialidades dos modelos de última geração. «Actualmente, tentamos ir ao encontro daquilo que as famílias querem, desde os mais novos, aos adultos e aos idosos», explica o marketing da Playstation, marca que em Portugal já vendeu mais de 1.240.000 consolas, nos últimos dez anos. Desde jogos como «Buzz: o grande Quizz», um género de concurso de televisão, aos karaokes «Singstar Rocks», é notável a crescente adaptação ao conceito de «diversão familiar».

Para este ano, as grandes novidades são os modelos XBox 360, que já está venda, e a Playstation 3, que sairá no mercado português no final do ano. Embora os preços elevados não sejam muito apelativos, as marcas estão confiantes no seu leque de fiéis compradores. Miguel e Guilherme até já sabem o que vão pedir para o Natal: «Gostávamos de ter a Playstation 3 por causa dos gráficos e dos jogos novos. Vamos tentar pedi-la como prenda para os dois, agora só falta saber se os meus pais vão na conversa».