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A mala do escândalo que está a abalar a Argentina e a Venezuela

Uma fortuna apreendida num voo com membros do Governo da Argentina e Venezuela levanta suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento da campanha para a presidência de Cristina Kirchner, mulher do Presidente argentino.

Um escândalo que levanta suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento da campanha para a presidência de Cristina Kirchner, mulher do Presidente Néstor Kirchner, envolve os governos da Argentina e Venezuela. É que a mala de um empresário venezuelano com 800 mil dólares não declarados pode ser a ponta de um novelo de mistérios, que se desenrolam a menos de três meses da eleição presidencial argentina.

Numa escalada de acontecimentos, o Governo argentino demitiu Claudio Uberti, director do órgão que regula as concessões de auto-estradas. No entanto, muito mais do que isso, Uberti era o negociador de todos os contratos milionários entre os governos da Argentina e Venezuela. Administrador dos dinheiros de polémicas obras públicas, era o braço direito do poderoso ministro do Planeamento, Julio de Vido, homem de maior confiança do Presidente Néstor Kirchner.

Uberti renunciou porque, além de fazer parte da lista de oito passageiros do jacto privado que saiu de Caracas e chegou a Buenos Aires na madrugada de sábado, foi quem autorizou o misterioso empresário venezuelano Guido Antonini Wilson a fazer parte do voo. Uberti ainda terá aproveitado o seu cargo no Governo para pressionar os funcionários da Alfândega a não revistarem as malas. Um agente da Polícia Aeroportuária afirmou ao Ministério Público que “Wilson tentou subornar” os funcionários da Alfândega e da Polícia que o descobriram.

Governo corre atrás do prejuízo

O presidente Néstor Kirchner disse que “pela primeira vez a corrupção é combatida na Argentina”, que perseguirá a verdade “doa a quem doer” e que “não põe a mão no fogo por ninguém”. Mas não explicou por que o Governo não se pronunciou sobre o caso durante quatro dias.

Uberti parece ter sido apenas a primeira peça do dominó descoberto a partir do voo que chegou a Buenos Aires 48 horas antes da visita do Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, à Argentina. Outros dois argentinos e cinco venezuelanos estão na lista de passageiros. Um dos argentinos é Exequiel Espinoza, presidente da empresa estatal de energia da Argentina, Enarsa. Essa empresa estatal fretou o jacto, dando assim ao voo um carácter oficial.

Com excepção do empresário da mala, todos os demais venezuelanos são altos funcionários da PDVSA, empresa estatal de Petróleo da Venezuela, braço virtual financeiro do Governo Chávez.

400 mil dólares sem dono

Pela lei argentina, a multa por entrar ilegalmente com dinheiro no país é de 50 por cento sobre o valor em causa, mas o que ainda é mais intrigante é que empresário nem sequer procurou retirar os 400 mil dólares a que teria direito, atitude que só levantou mais suspeitas sobre o verdadeiro dono do dinheiro.

Além disso, o misterioso venezuelano, com passaporte norte-americano (a sua outra nacionalidade), embarcou na manhã de terça-feira em Montevideu no mesmo dia em que Chávez viajou da Argentina para o Uruguai. Outra suspeita sobre a proximidade do empresário com o Governo da Venezuela.

Chávez desvia atenções culpando EUA

Quando indagado sobre o conteúdo da mala pelos funcionários da Alfândega argentina, o empresário terá dito que se tratavam de livros. Depois que eram 60 mil dólares. Ao ser descoberto, disse que pertencia à delegação do Governo venezuelano. O Presidente Hugo Chávez negou que o homem da mala pertencesse ao seu Governo. “É um plano do império norte-americano para perturbar as minhas viagens. São estranhas coincidências”, desviou Chávez.

O Ministério Público constituí o venezuelano arguido por “tentativa de contrabando” de 790.550 dólares. Na imprensa da Venezuela e da Argentina às suspeitas de lavagem de dinheiro somou-se outra hipótese: a pequena fortuna seria para financiar a campanha eleitoral da mulher do Presidente Néstor Kirchner, Cristina, candidata à sucessão o marido. Nos últimos anos, em cada um dos países da América Latina onde houve eleições, houve também denúncias de que Chávez financiava os seus candidatos aliados. Foi assim com Evo Morales na Bolívia, Ollanta Humala no Peru, Rafael Correa no Equador ou Daniel Ortega na Nicarágua.

Em Buenos Aires, Chávez comprou uma nova emissão de títulos da dívida argentina por mil milhões de dólares, totalizando 5.175 mil milhões de dólares adquiridos nos últimos dois anos. Também anunciou o investimento de 400 milhões de dólares numa fábrica de gás liquefeito, uma necessidade urgente mediante a grave crise energética na Argentina. Após repetir que Cristina será a próxima Presidente da Argentina, avisou: “Contem comigo com este mesmo esforço [financeiro], até acrescido, para continuar a apoiar esta nova era”.

As sondagens indicam a vitória de Cristina Kirchner na primeira volta. Ou pelo menos indicavam, antes de tantos escândalos. Há menos de um mês, a ministra da Economia, Felisa Miceli, renunciou depois de terem encontrado uma bolsa com 64 mil dólares na casa-de-banho do seu gabinete, isto de acordo com a versão oficial do Governo, pois a imprensa sempre falou em 240 mil dólares quando noticiou o caso.

CORRUPÇÃO NO GOVERNO KIRCHNER

O Governo do Presidente Néstor Kirchner costumava ser visto como uma administração austera e sem casos de corrupção, depois de sucessivos escândalos que marcaram a Argentina durante os anos 90. Embora a oposição (hoje candidatos à presidência) acusasse o ministro do Planeamento, Julio De Vido, de irregularidades no uso de fundos, de derrapagens de 25% em todas as obras públicas do país ou de pressionar empresários para doarem dinheiro para campanha em troca de benefícios, a popularidade de Kirchner rondava os 80%.

No entanto, esses tempos acabaram. As balas começaram a penetrar no aparente colete protector do Governo. Desde o começo do ano, o Presidente que antes liderava as iniciativas parece agora não fazer outra coisa além de correr atrás de escândalos que envolvem os seus ministros. Tais como:

– De Vido está envolvido no maior escândalo de corrupção do actual Governo, o 'caso Skanska'. Outros 21 funcionários de Kirchner também estariam envolvidos nesse caso de subornos e derrapagens de mais de 150% do valor de obras para ampliações de três gasodutos na Argentina. Em maio, o ministro afastou dois subordinados por suposta cobrança de comissões da construtora sueca Skanska.

– A lista dos subordinados De Vido que estão sob a lupa da Justiça inclui o secretário de Estado dos Transportes, Ricardo Jaime, que tem sobre si mais de 10 processos penais. É acusado ainda do uso indevido de fundos públicos e de abuso de autoridade. Jaime é quem negocia com as autoridades portuguesas acordos com material ferroviário, obras públicas e acordo aéreo.

– A ministra da Defesa, Nilda Garré, é arguida por suspeita de contrabando de peças e armamento dos Estados Unidos.

– A secretária de Estado do Ambiente, Romina Picolotti, é acusada de gastos desmedidos e de empregar amigos e familiares, num total de 300 pessoas.

 – A ministra da Economia, Felisa Miceli, renunciou em Julho, encurralada pela Justiça que investiga a origem e o destino de 64 mil dólares (versão oficial do Governo) encontrados numa bolsa no armário da casa-de-banho do seu ex-gabinete (240 mil dólares de acordo com a imprensa).