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A leste nada de novo

Relembrar a extinta República Democrática da Alemanha é o objectivo do mais recente museu de Berlim.

Os alemães de leste, a quem os seus compatriotas do oeste continuam a chamar sobranceiramente «Ossis» terão saudades da ditadura? Dessa ditadura, tão miserável como todas as outras, que os oprimiu e enganou durante 40 anos? Da odiada polícia política Stasi, que conseguiu criar o estado policial mais parecido com aquele que George Orwell imaginou no seu sinistro romance «1984»? Das metralhadoras automáticas montadas na fronteira inter-alemã que abatiam sem piedade quem ousasse atravessar a «terra de ninguém»? Das aulas de história em que o mundo estava claramente dividido em «bons e maus» – estando todos estes últimos, como era evidente, do lado de lá do muro?

Depois da queda do muro de Berlim que segundo Erich Honnecker «ainda duraria 1.000 anos» (na realidade caíu 33 dias depois desta declaração precipitada feita em 1989...) e do colapso da RDA que ruiu como um castelo de cartas, alguém inventou o neologismo «Ostalgie» formado por Ost (Leste) e Nostalgie. Por um mecanismo que os psiquiatras podem facilmente explicar, algumas ex-vítimas sentem saudades daquele regime autoritário que as tratava como crianças, resolvia tudo por elas e lhes dava uma sensação de segurança e ordem. E se há coisa neste mundo que agrade aos alemães é a ordem. O princípio que faz andar a Alemanha é muito simples: «Ordnung muss sein» [A ordem tem de existir]. Improvisações e surpresas não fazem parte do universo mental germânico.

Mas a Ostalgie não é só política e tem também a ver com coisas tão corriqueiras como marcas de sabão ou de bolachas. O filme «Good bye Lenin», o maior êxito de bilheteira nos últimos anos na Alemanha, ajudou a perceber o fenómeno. O museu, que foi agora inaugurado no centro de Berlim, perto da Alexanderplatz, também. Ele intitula-se exactamente «Museu da vida quotidiana na RDA». Ali não falta o famoso Trabant que era para muitos «Ossis», a concretização dos seus sonhos mais arrojados; os uniformes da Juventude socialista (FDJ) que os jovens tinham de envergar para desfilar nas manifestações «espontâneas» do 1.º de Maio; ou simplesmente embalagens do café Mocca-Fix, uma mistura intragável de cevada com algum café.

«Juntámos mais de 10.000 objectos, mas infelizmente não temos espaço para todos», conta Robert Rückel, director deste templo da Ostalgie. «Foram todos oferecidos por pessoas que viveram na RDA entre 1949 e 1990». O visitante sente-se transportado aos anos 50 e 60, pode ler revistas da época, ver programas de televisão «retro», manusear instrumentos de escritório, entretanto pré-históricos. E a perseguição política? E os informadores da Stasi omnipresente? E a lavagem ao cérebro que chamava por exemplo ao Muro da Vergonha «Muro de protecção contra o fascismo»? Sobre esse lado negro e odioso do regime comunista, nem uma palavra, nem uma alusão. Terá de facto havido opressão, tortura e mortes? Ou tudo não passa duma ficção inventada pela CIA? Os críticos desta iniciativa afirmam que ela é contraprodutiva, embora talvez não tenha sido essa a intenção dos seus iniciadores.

O senado de Berlim também faz alguma coisa para que o passado não caia no esquecimento. No Ckeckpoint Charlie, antigo posto de passagem entre o lado ocidental e o lado leste, foi inaugurada há um mês uma parede-galeria que evoca o Muro de Berlim e a divisão da capital da Alemanha durante a guerra fria. Esta galeria deverá existir até que esteja pronto o monumento na Bernauer Strasse às vítimas que foram abatidas quando tentavam fugir para o ocidente. Também a antiga prisão da polícia política soviética (KGB) em Potsdam vai ser transformada num monumento à memória das pessoas que ali foram detidas, torturadas e mortas. Duma maneira ou doutra, a memória da RDA não se apagará tão cedo.