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A ira da derrota

O afastamento do mundial deixou os ingleses à beira de um ataque de nervos. A actriz Keira Knightley tentou levantar o astral com «um vestido quase pornográfico».

OS ESPÍRITOS já andavam suficientemente sombrios, na Inglaterra, na sequência da derrota frente a Portugal. Mas às 16h25 de segunda-feira, o tenista cipriota Marcos Baghdatis encarregou-se de colocar um ponto final naquilo a que o diário «The Guardian» chamou solenemente «o longo Verão do nosso descontentamento desportivo». Depois das derrotas recentes no rugby, no críquete (frente ao Sri Lanka) e no futebol (frente a Portugal), seguiu-se a eliminação da grande esperança britânica do ténis, Andrew Murray, no torneio de Wimbledon. «Depois de sonharmos com a possibilidade de glória em tantas frentes desportivas, a inesperada derrota [de Murray] debaixo do sol de Wimbledon vem somar-se ao drama vivido nos penáltis de sábado», escreve Hugh Muir no «Guardian».

Os ingleses, no entanto, parecem ser mestres na arte de encontrar um lado positivo mesmo em situações de luto nacional e tragédias tão deprimentes como esta derrota por penáltis – mais uma – frente a Portugal. Vários jornais celebraram o facto da eliminação significar o adeus definitivo de Sven-Göran Eriksson, o treinador sueco que amealhou um salário de cerca de 25 milhões de libras [36 milhões de euros] nos seis anos em que comandou, sem êxito, a selecção inglesa de futebol. «Adeus, idiota! Que raio de treinador leva, para um Mundial, mais guarda-redes (três) do que avançados em forma?», pergunta o tablóide «Daily Star». Outros jornais recorreram ao humor, como o «Guardian», que publicou uma lista de razões para se estar feliz com a derrota (por exemplo: «As bandeirinhas vão desaparecer dos automóveis e isso é bom para o ambiente. As bandeirinhas não são aerodinâmicas e provocam um aumento do consumo de combustível»). A BBC também sugeriu «Dez utilizações a dar às bandeiras» (uma delas: «Enviá-las de volta para a China. Todas elas dizem 'made in China'»). E a própria actriz Keira Knightley, de 21 anos, aliou-se à onda, na segunda-feira, ao desfilar na antestreia da fita «Piratas das Caraíbas 2», em Londres, com um decotadíssimo vestido Gucci dourado: «Eu sei que é um vestido quase pornográfico, mas é preciso levantar o astral da nação depois da derrota frente a Portugal», disse a actriz.

Reacções viscerais

O rescaldo do jogo, na imprensa inglesa, tem sido dominado naturalmente pela expulsão de Wayne Rooney e pela intervenção (ou não-intervenção) do português Cristiano Ronaldo no sururu de Gelsenkirchen. «Não me surpreenderia se Rooney desse um murro [a Cristiano Ronaldo] logo no primeiro dia de treinos no Manchester United», disse o comentador Alan Shearer na análise que se seguiu ao jogo. O Inglaterra-Portugal, transmitido no primeiro canal da BBC, teve 19 milhões de espectadores e 84% do «share» da audiência. Shearer, antigo avançado do Newcastle United e da selecção inglesa, acusou Ronaldo de ter provocado Rooney e de ter pedido ao árbitro para mostrar o cartão vermelho. A televisão repetiu sem cessar as imagens onde se vê o jovem português a piscar o olho para o banco – um gesto que a imprensa britânica interpreta como um «Já está! Este já cá canta!».

A generalidade dos tablóides alinha neste tipo de análise e parece empenhada em transformar Cristiano Ronaldo no homem mais odiado da liga inglesa. Sob o título «Cris Off!», o «Daily Star» pede aos leitores para mostrarem o cartão vermelho ao português. «O que ele fez foi uma verdadeira facada nas costas de Rooney», escreve o jornal. Mick Dennis, do «Daily Express», notou que, depois de marcar o penálti, Ronaldo «troçou dos adeptos ingleses». «A situação tornou-se insustentável para o jovem português e ele terá de deixar a Inglaterra», sentencia. No mesmo jornal, Anna Pukas escreve: «Os portugueses são os nossos aliados mais antigos. Mas depois do que aconteceu no último sábado, chegou a altura de rasgar o Tratado de Windsor em mil pedaços. Temos um novo inimigo público número um a poluir a nossa terra verde e agradável, por isso, que se lixem os 600 anos de amizade». Na edição de segunda-feira, o «The Sun» publicou um enorme alvo, com a fotografia de Cristiano Ronaldo, que os leitores poderão recortar e utilizar no jogo de dardos.

Análises lúcidas

As análises mais lúcidas foram feitas por jornais como «The Guardian», «The Times» ou «The Daily Telegraph», com vários artigos a recordar o historial de petulância e indisciplina de Wayne Rooney. Na terça-feira, o «Independent» sugere que o jogador inglês necessita da ajuda de psicólogos e de especialistas no domínio da raiva. «Muita gente está a tentar transformar Cristiano Ronaldo numa espécie de vilão ou mau da fita. Este seria um bode expiatório muito conveniente porque, no fundo, o público inglês não quer deixar de amar Rooney, o melhor futebolista inglês. Mas a verdade é que Rooney é um génio inflamável que deveria olhar-se primeiro no espelho antes de atirar dedos acusatórios a Ronaldo», escreve Daniel Taylor no «The Guardian». Nas páginas do «Independent», o colunista Dominic Lawson, antigo director do «Sunday Telegraph», critica o facto do avançado inglês não ter admitido a culpa e não ter pedido perdão aos companheiros de equipa. «É óbvio que Wayne Rooney é um jovem com talentos desportivos extraordinários cuja conduta censurável poderá ser atribuível ao excesso de dinheiro e falta de maturidade. Mas é verdadeiramente aterrador que a brutalidade de Rooney tenha sido recebida com tamanha benevolência pública», conclui Lawson.