Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

"A intenção desta auditoria é emporcalharem-me"

Maria José Nogueira Pinto contesta o relatório sobre a Gebalis que, em sua opinião, é uma tentativa “deliberada e grosseira” de levantar uma suspeição sobre si. Por isso vai processar Sérgio Lipari.

A justificar a auditoria à Gebalis, o vereador Sérgio Lipari fala numa derrapagem financeira de 15 milhões de euros das contas da empresa entre Setembro de 2005 e Setembro de 2006, o que coincide com o período em que tinha o pelouro da empresa. Sente-se atingida por esta acusação?
Absolutamente nada. O ónus de demonstrar isso é do vereador Sérgio Lipari. A minha responsabilidade estará completamente retratada no Relatório e Contas de 2006, que está praticamente pronto, tanto quanto sei, e que irá à Câmara de Lisboa (CML) em Março. Nessa altura o vereador vai explicar o que tem estado repetidamente a dizer à comunicação social. Eu já o adverti que ele está a dar números que são inexactos, ele, com excesso de confiança e alguma leviandade, continua a martelar nos mesmos números. Eu acho que, muito mais interessante do que falarmos sobre as contas neste momento, é falarmos quando o Relatório e Contas chegar, com o parecer do revisor oficial de contas. As contas não são o que o vereador Lipari quer – são o que são.

Pela forma como este processo foi lançado e está a ser conhecido, sente que houve uma intenção deliberada de a atingir politicamente
Claramente. Aliás, deliberada e grosseira. Neste momento o desnorte da maioria é enorme. Não digo que todas as pessoas sejam iguais, tenho que fazer distinções, há ali pessoas com qualidade muito superior a outras. Mas a maioria do PSD na CML está completamente desnorteada.

Neste ambiente, que em grande parte é criado também por ajustes de contas entre facções do PSD, eu penso que tirarem-me do caminho era um objectivo. Só assim se explica que o relatório da Baixa-Chiado, depois de ter sido feito em menos de seis meses, ter sido aprovado com alguma celeridade pela CML, ter recebido resposta do Governo com grande rapidez, tenha descido a seis comissões na Assembleia Municipal. É claramente para que o projecto da Baixa-Chiado não ande.

Agarrar a Gebalis, que foi uma empresa que eu tutelei, e na qual montei a operação de titularização de créditos, dada a situação de falência técnica da empresa, também é uma forma de me tentarem atingir, pelo menos lançando a suspeição através da comunicação social.

Acha que esta auditoria é uma vingança por ter rompido a coligação com o PSD?
Não fui eu que rompi a coligação, foi Carmona Rodrigues, e em boa hora a rompeu! Eu acho que não é uma vingança… Vamos lá ver: quem é que pode incomodar este PSD se por acaso ocorrerem eleições antecipadas? Não é a esquerda, que não está a competir no mesmo território – serei eu. Eles não quiseram uma coligação pré-eleitoral nem pós-eleitoral. Fizemos um acordo de governabilidade entre Carmona Rodrigues e eu, depois romperam esse acordo sem nenhum motivo que tenham explicitado publicamente (lá está: este nevoeiro é-lhes sempre favorável, porque não podem confessar os seus motivos), depois eu viabilizo o orçamento com cinco propostas de alteração, ainda faço uma tentativa de, com a oposição, fazermos uma espécie de pacto de estabilidade depois da entrada da Judiciária na Câmara. Do meu ponto de vista, não há nada mais que eu possa fazer. Mais qualquer coisa que eu faça, até parece mal, parece que estou à espera de alguma coisita. Agora eu tornei-me incómoda e a intenção desta auditoria é emporcalharem-me.

E deram-se a tanto trabalho para isso? É que a auditoria não é só sobre o ano em que teve esse pelouro, é sobre um período entre 2001 e 2006…
Uma vez que o objectivo eram as empreitadas, eles tinham que ir às empreitadas, e o grosso foi no tempo de Pedro Santana Lopes. O ano em que eu tive responsabilidades [2006] é o ano em que há menos empreitadas. As nossas empreitadas viriam em grande abundância, esperávamos nós, com a operação dos cem milhões de euros para saneamento financeiro da Gebalis.

Sérgio Lipari foi director-geral da Gebalis entre 2002 e 2005, antes de a senhora ficar com a tutela da empresa. Quando chegou deu-se conta de procedimentos duvidosos?
O estado em que eu recebi a Gebalis está retratado no Relatório e Contas de 2005. De tal forma estava a situação da Gebalis que só foi possível aprovar o relatório de 2005 quando se juntou num pacote os planos de actividades e orçamento de 2006 e de 2007, já baseados na operação de titularização de créditos.

É por isso que isto que está a acontecer é de enorme irresponsabilidade. Quando o vereador Lipari recebe esta empresa o que é que faz? Estraga a imagem da empresa, nomeia essa comissão ad hoc, inviabiliza, do meu ponto de vista, a operação de titularização de créditos. Se não houver a titularização tem que se revogar toda a programação e volta à câmara o relatório de 2005, ou seja, voltamos ao estado de falência técnica da empresa.

Para o cidadão comum será mais importante saber se serão verdadeiras as acusações que estão no relatório e que são muito graves. É possível que isto se tenha passado sem que a senhora se tenha dado conta de que havia procedimentos irregulares, empreitadas fraccionadas para não fazer concurso público, pagamentos acima do preço de mercado, tudo isso?
As empreitadas do meu tempo foram duas: [a Quinta das] Salgadas [projecto de reabilitação de habitação social], que foi um concurso público, estou perfeitamente tranquila em relação a isso, e uma série de desentaipamentos de fogos.

Põe as mãos no fogo por essas duas empreitadas?
Sim, sim, sim. Mas antes disso pode ter havido... Quando se pega numa empresa municipal que está tecnicamente falida e que gere para cima de 20 mil fogos municipais, temos dois caminhos a seguir: ou chamamos a Inspecção-Geral de Finanças, para não termos nada a ver com o passado, ou podemos dizer ‘agora vamos começar a corrigir’.

Não se deu conta de irregularidades que viessem de trás?
Eu só me podia dar conta de irregularidades no período anterior se tivesse chamado a Inspecção de Finanças.

Então por que é que optou por não o fazer?
Porque não acho que essa seja a metodologia. Não se pára uma instituição destas para mandar entrar uma inspecção, não se justifica. Justifica-se é começar a mudar os procedimentos e, eventualmente, nesse processo vai-se apanhando uma ou outra situação que se entrega a quem de direito.