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«A Índia passou a ser um alvo da jihad global»

Um dos maiores especialistas indianos em questões de segurança analisa os recentes atentados de Bombaim. Para B. Raman não há dúvidas: a Al-Qaeda está envolvida.

B. RAMAN é um dos maiores especialistas indianos em questões de segurança interna e externa. Ocupou diversos cargos executivos no Governo da Índia, mas destacou-se como operacional dos serviços de informação externa da Índia (RAW), tendo dirigido a sua divisão antiterrorista entre 1988 e 1994. Vive actualmente no estado de Tamil Nadu, no Sul da Índia, de onde tem escrito sobre as novas ameaças do terrorismo que este país enfrenta no século XXI. Numa entrevista telefónica exclusiva para o EXPRESSO, a partir de Chenai, explica que está convencido da marca da Al-Qaeda nos atentados de Bombaim e de que a Índia passou a ser uma nova frente do terrorismo internacional.

Qual é, na sua opinião, a probabilidade de a Al-Qaeda ter estado envolvida nos atentados de Bombaim?
Acredito plenamente que sim. Bombaim tem sido, ao longo dos últimos anos, em especial desde 1998, uma das frentes principais de acção do Laskar-e-Taiba (LeT). Esta organização, por sua vez, está intimamente ligada à Al-Qaeda. Desde Março que os líderes da Al-Qaeda têm produzido diversas afirmações em que visam especialmente a Índia, e a incluem como um dos aliados do que chamam de «cruzada global contra o Islão» e de «aliança entre cruzados, sionistas e hindus». Tendo em conta o planeamento, a execução e a sofisticação dos atentados, é impossível ignorar a mão da Al-Qaeda. Tudo parece indicar que os atentados foram planeados sob sua orientação e inspiração, enquanto que o LeT e o Movimento dos Estudantes Islâmicos da Índia (SIMI) ofereceram os seus militantes para a operação no terreno. Um atentado destes, com deflagrações em simultâneo e em série, é inédito na Índia. Traz imediatamente à memória o que aconteceu em Madrid e Londres.

Assistimos então a uma nova era do terrorismo na Índia?
Sem dúvida. A Índia, por via do conflito em Caxemira, passou a ser um dos alvos da jihad global. Os atentados desta semana marcam só o começo desta guerra. Há uma tentativa por parte dos extremistas de agora incluir também a Índia no eixo da jihad islâmica, tal como já aconteceu com o Sudeste da Ásia, os Estados Unidos e a Europa.

Qual é a real ligação e aproximação entre o LeT e a Al-Qaeda? Não serão só dois grupos que partilham uma ideologia similar?
O LeT esteve muito activo no Afeganistão, onde combateu as tropas soviéticas nos anos oitenta. É logo aí que se dão os primeiros contactos com outros grupos extremistas, alguns deles, embriões do que viria a ser a Al-Qaeda. A similaridade em termos ideológicos é suficiente, mas há provas concretas. Osama bin Ladan, em trânsito entre o Afeganistão e a Arábia Saudita ou o Sudão, era presença frequente, até há bem pouco tempo, no quartel-general do LeT no Paquistão, perto de Lahore. A própria mesquita dentro do complexo foi financiada por ele. Nos encontros anuais do LeT não é raro serem visionadas as suas mensagens gravadas.

Quais as ilações a retirar do comportamento dos serviços de informação indianos? Vão ter que rever a sua estratégia perante esta nova ameaça?
As capacidades dos serviços de informação externos e internos da Índia ainda são reduzidas. Melhoraram, mas só cumprem de forma insatisfatória os tremendos desafios que um país como a Índia enfrente diariamente. Depois dos atentados de Madrid e de Londres houve uma preocupação dos Governos europeus em rever os esquemas de segurança e proceder a melhorias. A Índia deverá fazer o mesmo, se quiser reduzir o risco de haver mais atentados como os de Bombaim. O nosso problema específico é o tamanho. Num sistema federal com quase 30 estados é vital haver cooperação inter-regional e é nesse domínio que tem havido falhas. É também necessário dividir as tarefas no Governo. Actualmente, é o Ministério do Interior que concentra ambas as responsabilidades, políticas e operacionais, dos serviços secretos. Isso tem que acabar. Até há poucos anos, havia um ministro responsável pelas questões operacionais, pelas acções no terreno, logísticas. Acho que é altura de criar um ministério dedicado exclusivamente aos assuntos de segurança interna.

De que modo é que as autoridades indianas têm cooperado com as suas congéneres noutros países do mundo no combate ao terrorismo? Depois do que aconteceu em Bombaim, há espaço para um relacionamento mais estreito?
Sempre cooperámos com os serviços de informação ocidentais. Mas há um problema muito grave com que sempre nos temos deparado. As agências ocidentais e as dos Estados Unidos em particular, hesitam em partilhar connosco informações importantes sobre Paquistão. Estão envolvidos no Paquistão e não têm interesse em nos ceder dados importantes que nos ajudariam a combater e prevenir atentados destes. Eu constatei isso pessoalmente, enquanto director da divisão antiterrorista da RAW (Research and Analysis Wing, os serviços de informação externa da Índia). Depois dos atentados em Bombaim, em 1993, encontrámos no local vários temporizadores que não chegaram a explodir. Estavam intactos e eram de produção norte-americana. Tinham sido dados ao Paquistão nos anos oitenta para a guerra no Afeganistão. Partilhámos essa informação com os americanos e cedemos um dos temporizadores. Levaram-no para os Estados Unidos, analisaram-no, admitiram que era originário do seu país, mas destruíram-no nos seus laboratórios. Disseram-nos que era óbvio que poderia ter havido furto de armamento e de equipamento das forças militares paquistaneses para depois ser utilizado pelos extremistas islâmicos. Mas isso é tudo coincidência a mais para explicar a seguinte realidade: os terroristas vivem e operam com impunidade no Paquistão e agora começaram a operar também por toda a Índia. Não é possível encobrir esta realidade. Há que enfrentar o Paquistão e exigir que tome medidas drásticas e apropriadas para acabar com organizações terroristas como o LeT e a Al-Qaeda.

Em Bombaim, parece haver provas de envolvimento maciço de muçulmanos indianos nos atentados. É uma nova realidade também?
Os muçulmanos indianos sempre souberem manter-se à margem e resistir à propaganda de grupos como o LeT. É uma grande vitória da Índia. Mas há agora uma radicalização de algumas franjas desfavorecidas da minoria islâmica na Índia. E com isso surge a possibilidade de alguns poderem gravitar para a ideologia pan-islâmica da Al-Qaeda. Isso é favorável aos grupos terroristas. Desde os atentados em Nova Iorque, Madrid e Londres que os militantes paquistaneses da Al-Qaeda têm estado sob controlo constante dos serviços de segurança europeus e norte-americanos. É por isso que os muçulmanos da Índia têm oferecido uma excelente base de recrutamento para a Al-Qaeda. Tanto para operações na Índia, como para em países ocidentais.