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«A França precisa de oxigénio»

Em entrevista ao EXPRESSO, Ségolène revelou que «ser socialista significa recusar a fatalidade das desigualdades e da delinquência».

Os militantes do PS vão designá-la candidata às presidenciais 2007?
Não sei. Decidir-se-á dentro de meses. Está tudo em aberto, os dados são conhecidos e o candidato socialista mais bem colocado será designado pelo voto dos militantes. São os socialistas que decidem, é preciso manter a unidade e escolher o candidato mais credível para bater a direita, um desastre para o nosso país.

Há adversários que a consideram uma socialista conservadora.
Eu sou socialista, não tenho nada de conservadora. Sou pela justiça e pela igualdade. Mas defendo o que chamo a ‘República do respeito’. Penso que ser socialista significa recusar a fatalidade das desigualdades e da delinquência. Proponho medidas que valorizem o papel da família em França, onde há um real problema de conflito social que tem muito a ver com o desaparecimento da autoridade familiar na educação dos filhos, como se viu há poucos meses durante a crise nas periferias. Proponho voltar a colocar a família e o respeito como o pólo central da educação das crianças, sobretudo das mais desfavorecidas.

Mas também defende posições duras, como o «enquadramento militar» dos jovens delinquentes. Essa é uma medida que muitos socialistas não aprovam.
A palavra ‘militar’ chocou algumas pessoas, que não lhe compreenderam o sentido. Eu sou contra a política do desprezo dos jovens, praticada pela direita. É preferível que um jovem com mais de 16 anos, pequeno delinquente, seja enquadrado numa instituição como a militar do que deixá-lo ao abandono até se tornar irrecuperável. As nossas Forças Armadas, bem como os bombeiros ou as associações humanitárias, onde eles se poderão integrar, são muito competentes. O Exército tem funções de cidadania... O que é preciso nos bairros difíceis, que eu conheço bem, não é fazer como faz o ministro do Interior: a amálgama entre a delinquência e esses bairros. Com o enquadramento dos jovens em dificuldades nessas instituições e a valorização do papel das famílias, poderemos resolver, em parte, o problema das periferias em França.

Há socialistas que a consideram conservadora porque defendeu o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que os franceses não vêem, verdadeiramente, como socialista.
É importante distinguir entre a política de Tony Blair no estrangeiro e... no seu país. A França precisa, internamente, de oxigénio e de terminar com certos tabus. Blair trouxe dinamismo ao seu país, através de alguma flexibilidade no trabalho e de mais segurança. Investiu nos serviços públicos. Em França, é necessário estudar novas formas de aplicação da lei das 35 horas de trabalho semanal - tanto por razões económicas, como por razões de liberdade, porque há assalariados com vontade de trabalhar mais.

Defendeu o ‘Sim’ ao Tratado Constitucional Europeu na campanha para o referendo em França, que votou pelo ‘Não’. O que se impõe fazer para relançar a União Europeia?
Será preciso elaborar um novo Tratado que contenha uma forte componente social, porque a Europa não pode funcionar apenas em termos de competição e de resultados económicos. A Europa necessita de fazer recuar o desemprego e de uma vontade política que defina os objectivos e faça de novo sonhar os nossos povos. Por outro lado, a Europa a precisa de se tornar visível no mundo e de ter peso com um Presidente e um ministro dos Negócios Estrangeiros, que estavam previstos no projecto da Constituição. No fundo, a UE necessita de uma harmonização entre a economia, a indústria, o social e a política externa.

Há questões sociais onde as suas posições também não coincidem com as de alguns dirigentes da esquerda francesa, nomeadamente a despenalização do consumo de «cannabis», a legalização da prostituição ou o casamento homossexual...
Mas coincidem com a generalidade do povo francês, que é sensato. As reformas deste género necessitam de cautelas e de estudos prévios. A despenalização da «cannabis» significaria um sinal para a banalização do uso da droga - e eu sou contra o consumo de drogas. A legalização da prostituição seria ‘a venda do corpo’, o que é contrário aos princípios dos Direitos do Homem. No que diz respeito ao casamento homossexual, prefiro a «União Livre» institucionalizada, que já existe em França, porque o casamento pode perturbar as referências tradicionais das pessoas. No entanto, esta questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo é um debate de sociedade e pode evoluir... com algumas precauções poderei até ser favorável!