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A droga virtual

Era uma vez um jovem chinês de 26 anos e 150 quilos que, depois de participar durante uma semana de uma maratona de jogos ‘on-line’,   acabou por morrer durante o feriado do Ano Novo Lunar.  O caso, atribuído à dependência da Net, ocorreu  no noroeste da China, onde nos últimos meses foram abertas várias clínicas para tratar doentes 'adictos'.

Depois dos EUA, que ocupa o primeiro lugar em número de utentes da Internet, a China, com 137 milhões, é o país que mais se tem preocupado com o crescimento exponencial de ‘web-dependentes’. O alerta foi dado no ano passado, quando uma pesquisa revelou que cerca de 2,6 milhões dos 20 milhões de utentes com menos de 18 anos estão ‘viciados’.

 Os especialistas consideram a situação ‘alarmante’, sobretudo porque os ‘dependentes’ chineses da Internet são dez vezes mais jovens do que em outros países. Segundo o psicólogo Gao Wenbin, da Academia Chinesa de Ciências, pelo menos 15% dos jovens que usam a Internet precisam de ‘ajuda urgente’. Como medida para combater e prevenir este novo tipo de adicção (viver 'on-line') e a criminalidade juvenil, as autoridades chinesas decidiram este mês proibir a abertura de novos 'cybercafés', que estão a proliferar no país.

Na China, o que os jovens mais procuram na Internet são os jogos interactivos, no qual participam milhares de pessoas em simultâneo.

No passado mês de Janeiro, a agência chinesa ‘Xinhua’ divulgou a morte de um rapaz de 17, que se enforcou depois de um malfadado encontro com uma rapariga identificada como ‘Qunjiaofeiyang’ (Saia Esvoaçante), com quem namorava ‘on-line’. Segundo a notícia, o rapaz era ‘viciado’ no mais importante site chinês de ‘chats’ (http://www.qq.com/) e tinha estado a navegar durante vários dias seguidos.

Entretanto,  este tipo de ‘dependência’ começa a ser discutida também na Índia, tendo o Instituto Indiano de Tecnologia de Mumbai anunciado uma medida drástica para conter o fenómeno e encorajar os estudantes a sair e a fazer amigos. Ou seja, a restrição ao acesso à Internet entre as 23h e as 0h30 nos dormitórios da instituição, por considerar que o ‘vício’ está a prejudicar o desempenho dos alunos, podendo levá-los à reclusão e até ao suicídio. Segundo a direcção desta que é considerada uma das melhores escolas de engenharia do mundo, já foram registados dois suicídios atribuídos à dependência da Net.

Três perguntas ao psiquiatra Luís Patrício

Foi dos primeiros psiquiatras a iniciar em Portugal o tratamento de toxicodependentes, no Centro das Taipas, em Lisboa. De há uns anos para cá, tem dado apoio também aos 'dependentes' da Internet, a droga do século XXI.

O 'vício' na Internet pode matar?

'Vício' é um conceito moral. Falemos em 'dependência', que pode matar as relações familiares e de trabalho, bem como as relações sociais. No caso do 'cybersexo', este pode matar o afecto, podendo ainda levar à prática do sexo sem protecção que, por sua vez, pode conduzir à morte física. A isto, acrescente-se que o excesso de tempo a 'navegar' pode levar ao consumo de estimulantes, tais como a nicotina, a cafeína e outros.

Apesar da falta de estatísticas, acha que tem aumentado o número de 'web-dependentes' em Portugal?

‘Aumenta a oferta, aumenta a procura. Temos alguns doentes que ficam 14 a 15 horas por dia seguidas em frente ao computador. Vão dormir e acordam a pensar na Net. A situação é grave, porque estas pessoas abdicam da sua vida pessoal e familiar em função do prazer que retiram de certos conteúdos da Net. O fascínio decorre do imediatismo da Internet: basta carregar numa tecla para concretizar um desejo. O facto de a pessoa estar no anomimato também contribui.

Concorda que o excesso de horas a 'navegar' na Internet pode levar à exclusão social e até ao suicídio?

É um exagero dizer-se isto. Tal como acontece com o álcool, com o trabalho, com o sexo e com o jogo, é uma questão de 'mau uso' e de 'bom uso'. É por isto que, como prevenção, uma criança deve estar sempre acompanhada, tem de haver restrições de acessos e discussão dos conteúdos.