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"2008 será um ano de viragem, resta saber para onde"

O líder histórico do PS, ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República, continua um optimista mas mostra reservas quanto à forma como nos deixaremos afectar pela crise financeira norte-americana.

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Editora de Política da SIC

As maiores expectativas de Mário Soares para 2008 estão concentradas no resultado das eleições norte-americanas, em Novembro. Confessando que as suas preferências vão para o senador democrata Barak Obama, o orador convidado da conferência que assinalou a passagem do semanário Courrier Internacional a revista mensal tem a profunda convicção que "seja um democrata seja um republicano a suceder a Bush, os EUA terão de mudar radicalmente a política interna e externa, sob pena de o Ocidente entrar em profunda decadência".

O vaticínio comporta mais esperança do que fatalidade, pois Soares sempre foi, e continua a ser, um optimista. Lançando a pergunta "as ideologias morreram?", é peremptório ao afirmar que "o neo-liberalismo é uma ideologia a caminho de morrer" e que "o dinheiro pelo dinheiro, o sucesso fácil, é o que vai ser julgado este ano em grande parte". Os sinais, explicará mais tarde, são evidentes nesta crise financeira: "Só não vê quem não quer". Quanto ao socialismo ("ou social-democracia, é uma questão de terminologia"), está vivo e recomenda-se: "Continua a fazer todo o sentido".

O optimismo, ainda que cauteloso, compreende Portugal: "Está bem, embora haja um certo mal-estar". Sem se demorar em elogios a Sócrates prefere sublinhar que, a meio do mandato deste Governo, se porventura ele caísse agor "não me parece que viesse algo melhor. E isso basta para que sejamos prudentes", justifica. Mas, por outro lado, enfatiza, "temos uma elite como nunca tivémos o que mostra que podemos avançar". "Temos o capital mais importante, que é a massa cinzenta, não é o dinheiro que está nos bancos!".

Tudo dependerá, ao fim e ao cabo, do contexto internacional, de como a Europa e os estados emergentes irão reagir à crise financeira norte-americana e de a crise financeira não evoluir para uma crise económica. De novo o optimismo: "O povo americano já está a reagir e isso é um sinal de esperança".

Resumindo uma situação mundial que considera "muito complexa" a um conjunto de desafios que vão desde a ecologia às grandes migrações humanas, passando pelas pandemias, pela globalização e pelo nuclear, Mário Soares diz esperar que o projecto europeu se concretize - e voltou a elogiar a posição do Governo português ao não convocar um referendo que seria "colocar uma bomba" sob o Tratado de Lisboa" - e que "os seus políticos definam uma estratégia política com autonomia dos EUA".