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O regime sírio tem cobertura dos Estados Unidos

É o líder do braço sírio da Irmandade Muçulmana, a organização islâmica mais influente no mundo. Exilado no Reino Unido, Ali Sadreddine al-Bayanouni, um advogado de 68 anos, considerado um moderado, luta pela mudança de regime no seu país.

Confirma a existência de reuniões entre elementos da Administração norte-americana e da Frente de Salvação Nacional (FSN, o maior grupo de opositores ao regime sírio, no exílio)?
Sim, houve encontros em Washington. Foram do conhecimento de todos. Aconteceram três ou quatro vezes, desde o início deste ano.

Participou nalgum?
Não. Foram restritos a membros da FSN que vivem nos Estados Unidos.

Esteve presente algum membro da Irmandade Muçulmana?
Ninguém da Irmandade esteve presente porque o escritório da FSN em Washington não tem membros da Irmandade.

De quem foi a iniciativa dos encontros?
Inicialmente, houve um pedido da FSN. Mas depois foram os americanos a solicitar as reuniões.

O que foi discutido?
A situação na Síria e o pedido da FSN para que os americanos deixem de apoiar o regime sírio.

Os Estados Unidos apoiam o regime de Damasco? De que forma?
O regime sírio beneficia de cobertura por parte dos Estados Unidos, da comunidade internacional e também dos governos árabes. Há alguma pressão exercida pela diplomacia americana no sentido do regime demonstrar uma boa conduta. Mas isso é feito não no sentido de contribuir para uma melhoria da democracia, da liberdade de expressão ou de outros valores democráticos na Síria, mas antes em nome do interesse americano na região.

"Aceitaria falar directamente com George W. Bush"

As sanções económicas podem ser uma forma de pressionar o regime sírio?
A Irmandade Muçulmana rejeita qualquer tipo de sanções, que puniriam o povo e não o regime. Tudo o que pedimos à comunidade internacional é que diminua o seu apoio ao regime despótico sírio e que imponha sanções contra pessoas do regime.

Pode dar um exemplo da cobertura internacional a Damasco?
A comunidade internacional continua a lidar com o regime sírio de uma forma natural. O regime não foi boicotado politica ou diplomaticamente. De tempos a tempos, realizam-se visitas. Os ministros dos Negócios Estrangeiros espanhol e francês foram à Síria, congressistas norte-americanos também.

Essas visitas são um erro?
São um grande erro, porque fortalecem a moral do regime numa altura em que ele deveria ser cercado e enfraquecido.

Aceitaria falar directamente com George W. Bush sobre estas questões?
Já declarei em muitas ocasiões que estou disponível para um diálogo directo com qualquer pessoa, quem quer que ela seja.

Não teme que o diálogo entre a Irmandade Muçulmana e os Estados Unidos possa desacreditar a organização junto de alguns sectores no mundo árabe?
Somos muito claros e abertos nos diálogos que promovemos. Preocupamo-nos com o direito do nosso povo à democracia, sem qualquer tipo de intervenção estrangeira, sem ocupação e sem debilitar os direitos dos sírios.

Sabe se há contactos entre os Estados Unidos e a Irmandade Muçulmana egípcia e jordana?
Só sei o que veio nos jornais, nomeadamente um encontro entre deputados egípcios que são membros da Irmandade Muçulmana e um político norte-americano que visitou o Egipto.

Os vários braços da Irmandade Muçulmana não se contactam?
De tempos a tempos, há reuniões consultivas, mas não se fala desse tipo de assuntos.

"A Al-Qaeda é um perigo maior para os muçulmanos do que para os não-muçulmanos"

A Irmandade Muçulmana quer conquistar o poder na Síria?
Absolutamente. Tudo o que exigimos é uma mudança democrática no país, com a participação de todas as cores da sociedade síria.

Bashar al-Assad desiludiu-o enquanto Presidente?
Não me desiludiu porque eu não esperava que ele promovesse qualquer mudança democrática. Ele é filho do Grande Assad e faz parte desse regime. Não tem qualquer projecto democrático para a Síria, é a continuidade do pai.

Movimentos como o Hamas e a Al-Qaeda dizem-se inspirados pela Irmandade Muçulmana. A organização tem laços com esses movimentos?
Em relação à Al-Qaeda, não há qualquer tipo de ligação ou contacto. Há mesmo grandes diferenças entre as duas organizações. A Al-Qaeda vê os membros da Irmandade como renegados e infiéis. Em relação ao Hamas, que está alinhado com a Irmandade em termos ideológicos e políticos, há circunstâncias especiais que se prendem com a ocupação da Palestina.

Sente a Al-Qaeda como uma ameaça, como quase todo o mundo?
A Al-Qaeda é um perigo maior para os muçulmanos do que para os não-muçulmanos, maior nos países islâmicos do que nos ocidentais. A pressão exercida sobre os partidos e líderes islâmicos moderados só aumenta esse perigo cada vez mais.

Como se pode combater a Al-Qaeda?
Temos de nos concentrar no seu pensamento ideológico. São muito extremistas, não aceitam o outro. Por outro lado, não devemos anular os moderados. Quando a ideologia moderada é aberta, o pensamento extremista adapta-se.

O senhor é considerado um moderado, mas no Ocidente vinga a ideia que a Irmandade é, por natureza, radical. Se a Irmandade subisse ao poder na Síria, uma mulher poderia tornar-se Presidente, por exemplo?
O Ocidente tem uma informação muito limitada em relação ao Islão e à Irmandade. O nosso projecto político pode ser consultado no nosso sítio na Internet, em inglês, e lá está expressa a posição do Islão e da Irmandade em relação às mulheres. Nós apelamos ao estabelecimento de um Estado civil, com instituições resultantes de uma escolha livre e democrática. Ora, se nós apelamos à realização de eleições livres, devemos aceitar os resultados, quer o vencedor seja homem ou mulher, muçulmano ou não-muçulmano.