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1.º de Maio: "Trabalho sexual é trabalho!"

Sob o chapéu alargado de trabalhadoras/es sexuais, um grupo diversificado de pessoas convocou para hoje uma marcha integrada nas comemorações do 1.º de Maio. Porque o Dia do Trabalhador é de todos, de quem aluga o corpo também. 

A ideia partiu de dentro - de quem exerce actividade de cariz sexual. Juntaram-se outros, que já percorreram as mesmas ocupações ou que nunca por lá andaram. Não querem ser identificados pelos muitos papéis sociais que desempenham - querem ser apenas, hoje, todos, trabalhadoras/es sexuais.

"Prostituição é trabalho sexual. Trabalho sexual é trabalho!" é o slogan da convocatória, que vai sair do Largo de Camões e terminar na Alameda, em Lisboa, a par dos habituais grupos que se manifestam no 1.º de Maio.

"Há duas velocidades, gente que há muitos anos pensa nisto e tem um pensamento organizado e estruturado, e gente que tomou a iniciativa de sair para a rua e juntar pessoas, mas que não está nesse nível de discussão. Estamos numa fase embrionária e o processo é lento", explicou à agência Lusa o ativista Sérgio Vitorino, sintetizando a ideia da marcha: "Somos todos pessoas e vamos ao 1.º de Maio." 

Integrada no MayDay - movimento internacional que começou em Milão e que marcha contra a precariedade laboral e social -, a marcha das/os trabalhadoras/es sexuais ocorrerá pela primeira vez em Lisboa, Porto e Coimbra. 

As histórias de Soraia e Vitor

Soraia (nome fictício), uma das manifestantes, começa por abalar o estereótipo: vive com a mesma pessoa (a única com quem viveu) há 13 anos e tem dois filhos.

Um "abalo financeiro" e alguma "curiosidade" levaram-na ao trabalho sexual. Respondeu a um anúncio de jornal mas quando foi à "entrevista" não pensou que fosse contratada. "Nunca tinha tido contacto com ninguém do meio e para mim as prostitutas eram mulheres xpto, das novelas", conta. 

Não disse ao companheiro, mas ele descobriu: "Eu trazia dinheiro para casa todos os dias." Recorda que "no primeiro dia custou, no segundo custou, mas ao terceiro já não se falou do assunto". 

Acha que "há sempre uma opção" - "podia ter escolhido traficar droga, mas isso é ilegal" - e nunca se sentiu explorada, mas reconhece que se não fosse o "abalo financeiro" provavelmente nunca teria alugado o corpo. 

"Era um trabalho normal, como outro qualquer, com horário de entrada e saída", diz, acrescentando que até "não desgostava". Mas, dois anos e meio depois, a "curiosidade" estava morta. Tinha agora outro objetivo: voltar à escola. Está a terminar o 12.º ano e quer seguir para a universidade.

Soraia trabalhou em "casas de convívio" e nunca na rua, por "medo". "As pessoas na rua são muito mais corajosas. Nas casas nunca estamos sozinhas", compara. 

Já Vítor (nome fictício) usou anúncios, teletexto e Internet para arranjar clientes e sempre foi a casa deles. Alugou o corpo em casos de "extrema necessidade, sempre relacionados com ter o que comer".  

A primeira vez serviu para se sustentar durante a universidade: "Voltei para casa com o dinheiro para o autocarro, não fui pago porque não cumpri o serviço". Voltou a tentar: "O corpo é o nosso último reduto", diz Vítor. E "aluga-se em qualquer trabalho", secunda Soraia. 

Soraia e Vítor vão marchar contra o preconceito e a discriminação. "O estigma muitas vezes o que faz é desempoderar as pessoas, colocando-as à margem ou vendo-as como vítimas que precisam de ajuda", resume Sérgio Vitorino.

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