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Transferência leva GNR alegadamente ao suicídio

Sargento da GNR suicidou-se ontem em Gaia, alegadamente inconformado com a transferência iminente para Aveiro. Associação Sindical da GNR lamenta e critica Comando Geral.

Joaquim Gomes (www.expresso.pt)

Um sargento do Serviço de Proteção da Natureza da GNR de Gaia, que iria ser transferido em breve para Aveiro, suicidou-se ontem com a sua pistola pessoal, segundo apurou o Expresso junto de fontes sindicais.

"É o segundo caso de suicídio na GNR no espaço de pouco mais de um mês", revelou ao Expresso José Manageiro, presidente da Associação de Profissionais da Guarda (APG), referindo-se ao recente suicídio de outro militar ocorrido na zona de Castelo Branco.

Marco Correia, que se alistara na GNR em 1999, tinha sido promovido de cabo a 2.º sargento e "ao abrigo do regime de mobilidade obrigatória" seria transferido em breve para Aveiro, acrescentou José Manageiro.

Marco Correia, com cerca de 30 anos, casado e com uma filha de 5 anos, residente em Vila Nova de Gaia, colocou termo à vida com um tiro na cabeça, utilizando a sua arma pessoal. Foi encontrado já sem vida pela mulher.

APG lamenta suicídio

O vice-presidente da Associação de Profissionais da Guarda, César Nogueira, que está a acompanhar o caso directamente, revelou ao Expresso que "o 2.º sargento Correia estava de baixa psíquica há pouco tempo, queixando-se da sua transferência para Aveiro".

"A única explicação, para já, é que a causa próxima do suicídio tenha a ver com a sua transferência para Aveiro", contou o mesmo dirigente sindical da GNR, explicando que "o militar tentou anular a transferência de Gaia para Aveiro, mas não obteve a necessária autorização do Comando da GNR, que lhe negou sempre a baixa médica".

"Mais uma vez a APG/GNR lamenta este suicídio", refere em comunicado a Associação de Profissionais da Guarda, salientando que "na GNR continua  a não existir medicina preventiva, o que para uma força de segurança, como se tem vindo a contactar, é por demais necessária".

"Foi criada uma linha telefónica para fazer face a estes casos e mais uma vez demonstrou que é ineficaz", ainda segundo o comunicado da Associação de Profissionais da Guarda enviado ao Expresso.

"A APG/GNR lamenta a passividade da instituição e da tutela para encontrar meios para prevenir casos semelhantes", refere a Associação de Profissionais da Guarda, segundo a qual "os meios existentes, os centros clínicos e as juntas médicas, só olham para os profissionais da GNR como máquinas e não como seres humanos que são".

"Indefinições" e "horários desumanos"

"A indefinição das transferências, que faz com que os profissionais da GNR fiquem com as suas vidas quase paradas, a aprovação de regulamentos pelo Comando Geral, sem que sejam auscultados os profissionais através dos seus representantes e a inexistência de um horário de serviço" são evidenciadas no mesmo comunicado.

"São praticados horários desumanos que por vezes põem em causa a condição física e psíquica e o próprio discernimento dos profissionais para fazerem face às situações que ocorrem", diz ainda o comunicado sindical, que critica "a acentuação do militarismo utilizado somente como forma de restringir direitos são algumas das muitas situações que provocam o desânimo e afetam a vida profissional e pessoal dos profissionais da Guarda Nacional Republicana".

O porta-voz da GNR, tenente-coronel Costa Lima, afirmou ao Expresso que "a Guarda Nacional Republicana não faz quaisquer comentários" sobre este caso, a não ser "expressar à família a profunda dor da GNR pelo sucedido".