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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Guilherme Machado Vaz:“A arquitetura é feita para as pessoas”

RUI DUARTE SILVA

Guilherme Machado Vaz: arquiteto e professor. Responsável pela recuperação da Real Vinícola (em Matosinhos), que alberga a Casa da Arquitectura, projeto que recebeu o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2018 na categoria Impacto Social

O que vê primeiro quando chega a uma cidade nova?
O Gonçalo M. Tavares disse-me uma vez que quando passeiam nas cidades, os arquitetos gostam de olhar os edifícios e os escritores gostam de olhar as pessoas. Eu posso confirmar a parte que toca ao arquiteto.

O desalinho arquitetónico de Portugal tem conserto?
Não, se tivesse conserto perderíamos a “Volta a Portugal”, do Álvaro Domingues, o que seria uma pena. De notar que o desalinho urbano à margem da lei verificado no pós-25 de Abril deu lugar a um desalinho regulamentado, o que é bem mais preocupante.

O tempo das marquises já lá vai?
Já! As autarquias andam muito atentas e impedem essas operações de cosmética barata. Fecham os olhos às cirurgias plásticas que descaracterizam as nossas cidades e a sua memória.

Os arquitetos devem ser os únicos adultos a gostar de ‘brincar às casinhas’. Aprende-se rapidamente que o assunto é demasiado sério?
Brincar é sempre um assunto sério. Parece-me importante envolver toda a sociedade na brincadeira, porque a arquitetura é feita para as pessoas, não para os arquitetos.

A beleza por vezes ofusca a funcionalidade?
Na arquitetura, a funcionalidade faz parte do ideal de beleza, uma vez que a beleza por si só não funciona. Do meu ponto de vista, um edifício que não cumpra as suas funções jamais será belo.

Como se reabilita sem descaracterizar?
Refreando o nosso ego e avaliando com atenção a arquitetura e a história do edifício que queremos reabilitar.

Os elementos novos introduzidos na Real Vinícola (onde está a Casa da Arquitectura) foram muito estudados?
Foram pensados precisamente de forma a não descaracterizarem o edifício original. A Real Vinícola é património industrial e faz parte da memória de Matosinhos. Os elementos novos teriam de ser absolutamente necessários e trazer uma mais-valia que justificasse a sua presença.

É tão estimulante pensar um campo de futebol como a casa de gente que lhe é próxima?
Absolutamente. O estímulo é idêntico e não tem a ver com a dimensão ou a função daquilo que estou a desenhar. O projeto que me deu mais prazer foi simultaneamente o mais pequeno que realizei.

Diz-se que o país está monopolizado por dois ou três arquitetos importantes. É natural que assim seja?
Hoje em dia não. Há muitos arquitetos com qualidade reconhecida a trabalhar não só em Portugal como no estrangeiro.

Com o seu pai, psiquiatra, o que aprendeu?
Os pilares da moral humana. A família, o Benfica e os Beatles.