Siga-nos

Perfil

Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Filipa Martins: “Os sítios mais bonitos estão ligados a pessoas”

FOTO VITORINO CORAGEM

Jornalista e escritora. Este ano editou o romance “Na Memória dos Rouxinóis”. Uma das argumentistas da série “Três Mulheres”, com realização de Fernando Vendrell, que estreou na RTP1 e que segue a vida de Natália Correia, Vera Lagoa e Snu Abecassis

Como viveria a Filipa na década de 60?
Gosto de pensar que seria uma ativista pela liberdade e contra o medo, mas já me daria por satisfeita se fosse um pouco como a minha mãe. Com 11 anos, começou a trabalhar numa fábrica para ajudar a família, conciliando a escola com o trabalho de operária. Terminou o secundário grávida de mim.

O que terão sacrificado estas Três Mulheres?
O comodismo de sofá, horas de leitura da “Flama”, conforto monetário, a segurança delas e a dos que amaram.

Que facto a apanhou de surpresa durante o processo da escrita?
O pescoço longo destas mulheres, capazes de verem além, por cima do medo e das regras domésticas da ditadura.

Hoje o país é outro ou ainda sobra muito de uma vivência temerosa?
O país é felizmente outro, mas nós ainda estamos a aprender como devemos cuidar da nossa democracia e das liberdades associadas.

Como vê o movimento #MeToo?
Segundo a ONU, 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em um momento da sua vida. O movimento #MeToo é uma das manifestações no sentido de contrariar esta realidade inaceitável. Em determinados momentos, poderá ganhar contornos persecutórios; porém, sabemos — pela lei da inércia de Newton — que todo o corpo permanece em movimento uniforme a menos que uma força superior seja aplicada sobre ele.

Não há o perigo de a sedução se perder?
A sedução tem formas de manifestação muito distintas de qualquer ofensa.

Consegue retirar-se da sua escrita e entrar num processo quase febril de ficção?
É das poucas coisas que sei fazer razoavelmente.

Como percebeu que podia escrever (além do jornalismo)?
A ficção nasceu antes do jornalismo. Gostava de coser textos de grandes autores e enxertá-los com prosa minha, muito antes de entrar para uma redação com 19 anos.

Viajar dá-nos mais mundo ou ele já tem que estar em nós?
Viajar dá-nos uma maior capacidade de conhecer a diferença, de aceitar o outro, de aprender com ele e de o admirar. É um processo de alteridade permanente, que nos torna mais humanos.

Depois de tantas milhas, ainda sabe qual foi o sítio mais bonito onde esteve?
Os sítios mais bonitos onde estive estão ligados a pessoas. O outro é um lugar de pouso e permanência. Lembro-me de Lise, que mora na Ilha de Santa Maria no meio do Lago Titicaca, na fronteira com a Bolívia. Trata-se de uma ilha artificial, do tamanho de um apartamento. Nas suas longas tranças, Lise tem pompons mesclados porque vive em convivência, se fosse casada os ornamentos do cabelo teriam apenas uma cor.