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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Paulo Bragança: “Abri caminho para o meu caminho”

Paulo Bragança lançou em 1994 “Amai”, álbum que ficaria para a história da música portuguesa. Esteve 11 anos na Irlanda. Agora de regresso prepara “Exílio” — o novo disco — e desdobra-se em concertos. Dia 31 de outubro estará no Sabotage, em Lisboa

Rita Carmo

Abriu caminho para outro fado em Portugal?
De todo. Nunca pensei nesses termos. Abri caminho para o meu caminho, sem jamais ter pensado em ser azul, vermelho ou o que quer que fosse a não ser eu. No “Avante!”, uma senhora (representante do PCP) veio agradecer-me o concerto e disse-me — entre outras bonitas palavras — que não conseguia pegar em nenhum adjetivo para me dizer o que tinha sentido; respondi-lhe: somos dois.

Que país encontrou no seu regresso?
O Narciso a olhar para o seu reflexo na água do lago! Deslumbramento gratuito, quase infantil...

No fundo, é sempre de nós próprios que fugimos?
Não é no fundo, é no cimo. O ser humano é um animal manhoso. E hoje a comunicação generalizada e o excesso de informação ameaçam todas as nossas defesas.

Não foi “vã” a filosofia que trouxe de Dublin?
Vã? Antes profícua e salvífica! Foi na Irlanda que tive vasto espaço físico, num ermo, eremita, dias a fio sem ver vivalma, onde o silêncio foi meu pai, minha mãe, foi o meu pão de cada dia e me fez pensar sem tempo, literal! Não tinha telefone nem net nem gente nem carros, entre tantos outros centos de nãos.

Quem estava à sua espera?
Ninguém!

Depois do exílio, a reconciliação?
O exílio foi voluntário. Reconciliação não, porque estava em mim o problema. Nunca foi o público nem os media. De alguma maneira a própria indústria contribuiu — não sei bem porquê —, mas acima de tudo voltei como fui: porque quis e ainda bem que o fiz. Sou muito feliz com tudo o que tenho feito.

O que é essencial para viver?
Papel, caneta, silêncio, eu por inteiro, água e saúde!

O erro pode ser uma tentação. Por outro lado, tentar leva-nos ao erro. Como sabemos que não voltamos a errar? Ou não sabemos?
Resisto a tudo menos à tentação como dizia Oscar Wilde. Penso que o erro é parte integrante da existência humana e, como tal, inevitável. Contudo, podemos não saber se voltaremos a errar mas podemos sempre saber que será melhor não fazer determinada ação. Embora tudo isto seja muito relativo. Se não há perfeição, terá que pairar por perto o erro...

A indústria discográfica/musical está em permanente mudança. O talento nunca se perde?
Quem tem talento, o qual não se aprende em escola alguma, com esforço e dedicação e muito brio bem como empenho, mude lá o que mudar na indústria discográfica, sempre vencerá no fim! Uma máquina é só e apenas uma máquina.

Gosta do eterno recomeço?
Não! Chega uma hora em que tudo tem inevitavelmente de acabar.