Siga-nos

Perfil

Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Rui Vargas: “Não me peçam discos”

tiago miranda

Rui Vargas, 52 anos. DJ há mais de 30. Paralelamente faz rádio na Antena 3, o programa “Música com Pés e Cabeça”. A discoteca Lux (que Manuel Reis ergueu) faz 20 anos

Qual é, afinal, o poder de um DJ?
Quando consegue ligar-se a uma pista de dança é um manipulador, um hipnotizador de multidões, um guia que te pode encaminhar por diferentes níveis de consciência, que te pode fazer esquecer por umas horas o mundo lá fora (ou a ti próprio), um curandeiro de maleitas da alma.
Um prestidigitador que consegue fazer aparecer e desaparecer bailarinos com um disco apenas.
Também te pode estragar uma noite.

Qual a primeira canção que o fez descobrir o ´resto’ da música?
Uma importante que me abriu os portais da música eletrónica: ‘O Superman’, de Laurie Anderson. Ouvia-a pela primeira vez no “Som da Frente”, de António Sérgio.

A dada altura parece que todos podemos passar música. Podemos?
Tocar música sim, há até uns algoritmos muito bons a fazê-lo sem intervenção humana. Mas um bom DJ é muito mais do que um toca discos. É um oficio (arte?) que exige conhecimento, pesquisa, infinitas horas a ouvir música. Intuição para escolher o disco certo na hora certa, saber gerir tensão e energia, drama e euforia de uma sala ao longo de umas horas afirmando uma personalidade própria. E que ponha as pessoas a dançar, claro.

Quais os ensinamentos de Manuel Reis que ficam para sempre?
Que a mistura é sempre mais estimulante e enriquecedora do que o separatismo, seja ele qual for. O intocável direito à diferença. Valores essenciais como lealdade e seriedade, rigor e exigência, compromisso e espírito de missão. E tanto mais...

Será que um DJ também entra na crise da meia-idade ou só na maioridade?
Na maioridade, acredito. Chamem-me à razão se me virem de descapotável.

Como se conquistam as pessoas (na discoteca e fora dela)?
Com verdade e alguma virtude. Uma bonita coleção de discos ajuda.

Em que ponto se ligam a rádio e as pistas?
No desafio em encontrar as invisíveis ligações entre músicas e de com elas conseguires contar uma história.

As pessoas bebem e vão falar com o DJ. Pratica-se a humildade em noites de euforia?
Não sei estar de outra forma. E dessas abordagens já nasceram boas amizades . Mas não me peçam discos.

É-se mais feliz na grande cidade ou ao sol do Alentejo?
Ao sol da manhã alentejana a apanhar tomates. A minha Lisboa tem sido muito mal tratada nos últimos anos.

Qual foi a última noite em que salvou alguém?
No último sábado. Ri-me (muito), chorei, arrepiei-me um sem-número de vezes. E mais uma vez me senti salvo. Pelo poder da música.