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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Ricardo Rio-Tinto: “Não se faz nada sem interesse pelo outro”

Ricardo Rio-Tinto: médico e investigador na Fundação Champalimaud, onde se dedica à clínica e desenvolve um projeto de doutoramento em endoscopia de intervenção

tiago miranda

Porque é que os doentes se deviam preparar sempre para uma primeira consulta?
Os primeiros encontros são sempre muito importantes. As primeiras consultas também. Essa é a única forma que os doentes têm de garantir algum controlo sob o resultado da sua ida ao médico.

Não é o interesse no outro que opera milagres?
Não se faz nada sem interesse pelo outro. O Watson (supercomputador médico) não substitui o toque de uma mão. Mas não se deve desvalorizar o conhecimento e o treino a favor da relação entre médico-doente. Tudo é importante.

Quando é que a Medicina se tornou um negócio?
A Medicina pode ser um negócio. Se obedecer a algumas regras estritas não interessa aos acionistas.

O que lhe ensinou o Prof. Jacques Devière que não está nos livros?
O Prof. Jacques Devière é um médico e cientista com um impacto único sob o que é hoje a endoscopia digestiva. Reencontrá-lo na Fundação Champalimaud e poder voltar a trabalhar com ele é um privilégio. Com ele aprendi que os médicos que tocam nos doentes vivem numa faixa estreita entre o temeroso e o temerário. A única forma de viver neste território é atuar sempre com rigor, precisão e humildade.

Continuamos a valorizar demasiado o que vem de fora?
Em geral continuamos a desvalorizar o que temos cá dentro. Muito do que temos cá dentro é excelente, e nem tudo o que vem de fora é bom. A Fundação Champalimaud é o exemplo de um projeto visionário e único no sentido em que a ciência fundamental e a Medicina, com os melhores recursos de dentro e de fora, se potenciam num caminho comum.

O cancro tem mudado os nossos hábitos alimentares?
O cancro resulta de uma equação com duas variáveis (genética e ambiental) e um factor de ponderação (tempo). Se os nossos hábitos alimentares têm mudado o cancro, o cancro deveria levar-nos a mudar os nossos hábitos alimentares.

Não estamos ainda suficientemente sensibilizados para a prevenção?
Prevenir é adotar um conjunto de medidas que impeçam a ocorrência de um evento adverso. Fazer um grande esforço para que nada aconteça. Entre prevenir e tratar... Tratar tem maior impacto mediático.

É fácil um médico ficar refém do que sabe e não se permitir a determinados prazeres?
Não está em causa o que fazemos às vezes, mas sim o que fazemos na maioria das vezes. Se guardarmos os prazeres para ocasiões especiais não temos que nos privar de nada.

Há maneiras boas de dar más notícias?
Não há. Mas na Medicina as más notícias são na maioria das vezes o início e não o final. Se o doente souber que depois da má notícia não fica só, tudo o que acontecer depois se torna mais fácil.

Para que é que não tem estômago?
Para gente sem coração.