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10 perguntas a... por Inês Meneses

Alexandre Soares: “Nesta vida única, tem de haver humor”

Alexandre Soares, um dos fundadores dos GNR. Toca com os Três Tristes Tigres e ainda com Ana Deus forma os Osso Vaidoso, com quem esteve no passado fim de semana no espetáculo de funambulismo “Lignes Ouvertes”, na 15ª edição do Serralves em Festa

rui duarte silva

É mais fácil trabalhar com pessoas ou máquinas?
É melhor não escolher. As máquinas vão mudando, as pessoas mudam menos, acho. Troco mais facilmente de máquinas.

O que trouxe a Pop à música?
Na sua origem, a reinterpretação a tempo real do hoje. Mais do que isto, a frase “pop will eat itself” de Jamie Wednesday, aponta bem os riscos desta zona também.

Há muito que o formato da canção ‘tradicional’ te deixou de interessar?
Penso em canção, não penso em tradicional. Ouço as Lieder de Schubert, as canções da 1ª fase do Dylan, Animal Collective ou um ‘Skull & Bones’ de A.A. Bondy com um prazer enorme.

Com a Ana Deus consegues a reinvenção permanente?
Com ela consigo combinar essa tentativa com a possibilidade de ser surpreendido, não em estranheza, substantivo ao qual não dou qualquer valor, mas em encontro de ideias/textos, emoções e improvisos que são a nossa forma livre de trabalhar.

O que foram os GNR?
Para mim, o início do tempo mágico onde encontrei pessoas que queriam, tal como eu, viver na música, de um modo que parecia totalmente impossível.

A capacidade de ultrapassar conflitos ajuda-nos a viver (muito) melhor?
Acredito que sim. A procura e o movimento trazem essa necessidade.

Que herança afetiva te interessa deixar aos teus filhos?
A de não deixar que a curiosidade se torne na doença que é a desconfiança. Que dá jeito a partilha estar ao centro. A noção de que nesta vida única, tem de haver humor, do amor ensinaram-me eles.

Criativamente, o Porto é agora mais estimulante do que o foi nos anos 80?
É mais diverso agora, ganhou população flutuante e massa crítica que tornou a cidade um sítio mais apelativo, e sem reservas direi melhor para viver. Quanto ao estimulante, cada um come do que gosta, e eu alimentava-me à época, juntamente com outros boémios, na dificuldade. Não me faltava nada, portanto: cidade pequena, mais conservadora, mas com pessoas abertas à mudança. Conseguíamos o milagre dos pães diariamente, mas com custos para a saúde...

A lentidão leva-nos à perfeição?
O tempo para mim é tão central como o espaço, onde não estou tão à vontade. Acho que o tempo vivido, e o processo no trabalho criativo, não tem de ser o reflexo do modo mais acelerado como tendemos a acreditar que é o nosso, hoje.

O que pode ser melhor do que um dia a fazer surf em Matosinhos?
Nada, junto também o começar o dia a tocar guitarra. É a forma de acabar o meu dia de trabalho que adoro e me aproxima de uma comunidade de pessoas que tem uma relação com a vida que me atrai.