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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Gustavo Ciríaco: “A idade é sorrateira”

Sara Pinheiro

Gustavo Ciríaco: bailarino/coreógrafo. Vive entre Portugal e o Brasil há 10 anos. Apresentará no Festival Alkantara (no Teatro D. Maria II entre 29 e 31 de maio) o espetáculo “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos”

Como se começa pelas Ciências Políticas e se vai parar à Dança?
Eu queria-me tornar diplomata e correr o mundo. Vi “A Farra de Atores”, do encenador Márcio Vianna, uma peça de 8 horas. Era emocionante. Uma atriz veio até mim, contracenamos um instante, ela esfinge-sereia, me lançou um: Vem. Vem. Eu fui. E fui parar à dança.

Somos muitos dentro de nós?
Somos tantos quantos podemos ser. Ou antes, somos todos quantos desejarmos ser. Desejo é poder.

Estão a acabar os espartilhos dentro da arte?
Não, importa inaugurar novas perspetivas, porque ainda há muito território demarcado e pessoas a lhe reclamar a posse. É no cruzamento que poder haver encontro. Somos líquidos. Não cabemos. A arte deve ser deixada livre para fluir. Um amigo meu que já se foi, dizia: deixa jorrar!

A arte é uma manifestação de intimidade?
A arte é uma manifestação do sensível. A arte faz brotar possibilidades de mundo, recria o que é comum a todos. Há para mim miudezas, sensações furta-cores e poesia que nos fazem derivar por aí e mover, rearranjar os nossos olhos e memórias, e a nossa presença nas biografias que carregamos.

Ser brasileiro é só um ponto de partida para ser do mundo?
Creio que tudo o que somos nos lança para o mundo. A minha mãe e sua poesia, Lispector, Caio Fernando e João Gilberto Noll, a música de Caetano, as montanhas de Teresópolis, os corpos na praia e no carnaval, a pobreza e simplicidade das pessoas da minha Pavuna natal. Ser brasileiro é a minha moeda de troca e ser do mundo a minha condição.

A Pátria é volante?
Sim. A pátria voa comigo sempre que é possível mergulhar noutro lugar com tempo. Seja para aprender a língua e apreender os arredores, ou encontrar o comum. Gosto da vertigem de mergulhar no lugar que me é estranho, e ser sempre daqui e agora.

O país vive de convulsões e da imprevisibilidade, mas o Rio de Janeiro continua lindo?
O Rio continua 40 graus, a cidade maravilha da beleza e caos. Apesar de todo o processo de degradação, o Rio é charme e força. Os artistas combatem como podem esse estado de coisas, e no carnaval somos sempre reis no encontro.

A idade é só uma rasteira do corpo, ultrapassável?
A idade é sorrateira. Mas ela é que nos constitui até à morte, é caminho. É o espírito que nos mantém conectados à vida, à sua potência, quem nos faz ultrapassar os limites do corpo e do tempo.

Dançamos melhor a dois?
A dança é comunal e efémera. É o mínimo denominador de um encontro: duas pessoas. E são dois passinhos para lá e dois para cá...

O que vamos aprendendo sobre o amor ou nunca se aprende nada?
O amor é pura experiência. Só eternamente mergulhados no presente é que amamos.