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10 perguntas a... por Inês Meneses

Joana Gama: “Não tenho medo do silêncio”

Joana Gama, 34 anos, pianista. Passou 14 horas a tocar “Vexations”, de Erik Satie na Gulbenkian (o que já tinha acontecido nos Jardins Efémeros, em Viseu). Aventura-se por um lado mais experimental sem descurar os clássicos. Editou “Satie.150” e recentemente com Luís Fernandes “At the Still Point of the Turning World”. É um dos nomes da próxima temporada da Gulbenkian

RUI DUARTE SILVA

O que se faz quando a música para dentro de nós?
Ficamos com os nossos pensamentos que, mais tarde ou mais cedo, nos devolvem à música que talvez tenha de ser diferente daquela que estávamos a ouvir anteriormente. Não tenho medo do silêncio.

Com o piano, um duelo ou uma sedução?
Há duelos necessários para se viver 'com um brilhozinho nos olhos'. Basta observar — de sorriso nos lábios — a filmografia que envolve pianos e pianistas, para se perceber que não é um instrumento de convivência fácil.

Podemos gostar de Satie ou de Cage da mesma forma?
Assumo-os como figuras tutelares que me fascinam por dois motivos coincidentes: paralelamente à faceta de compositor, cultivaram interesses artísticos muito diversos — da escrita, às artes visuais e à dança — que se revelaram essenciais na criação do seu importante legado, e ambos tinham muito humor, não tinham medo do ridículo.

Desfazemos preconceitos com a idade a avançar em nós?
Assim o desejo para mim e para os outros. Preconceitos são medos com os quais é bom lidar e ir resolvendo no dia a dia.

Temos mão no talento?
Acredito no trabalho, que o bem-estar nos torna mais criativos e numa boa dose de algo-que-não-se-explica que acontece quando há entrega.

Já descobriste se a pauta te desafia mais do que o improviso?
Neste momento desafia-me mais o improviso, pelo surpreendente que é criar algo de raiz. Mas é-me essencial continuar a tocar repertório: gosto da ideia de ser intermediária entre o compositor e o público e há muitas obras que ainda quero tocar.

As horas que não passas ao piano são feitas de quê?
Muitas horas são passadas no outro teclado, o do computador, a viabilizar os projetos em que estou envolvida. Gosto de caminhar, de ler, de mergulhar noutras realidades através do cinema e de olhar para as nuvens. Sinto também como fundamental o tempo que passo, maioritariamente à mesa, com amigos e família.

Ao passado de disciplina, o que retiravas?
O peso de achar que nunca estudava o suficiente.

Depois da maratona na Gulbenkian e nos Jardins Efémeros, o que mudou em ti?
Foram momentos marcantes, mexeram profundamente com questões artísticas, pessoais, físicas e humanas. Toquei a obra “Vexations”, de Erik Satie, antes de mais, para Erik Satie. Num segundo plano, eu queria estar dentro da obra durante aquelas horas e partilhá-la com quem a quis ouvir em 2016 e 2018.

Uma memória da tua mãe que te acompanhe?
O gosto com que concebeu os meus primeiros vestidos compridos de concerto e o orgulho desmesurado que tinha em mim e na minha irmã.