Os diplomatas norte-americanos vêem na Santa Sé um aliado, mas criticam o secretário de Estado do Vaticano
, cardeal Tarcisio Bertone
, e todo o sistema de comunicação que cerca o Papa, considerado repleto de "fracassos e lentidão" em especial nos casos relacionados a abusos sexuais. Pelo menos, é o que revelam os telegramas enviados pela Embaixa dos EUA no Vaticano, hoje difundidos pelo WikiLeaks.
Os documentos mostram que, para os EUA, o Vaticano é um sistema de poder monárquico, milenar, fechado, provinciano e antiquado. A divulgação do pacote de correspondência confidencial da Embaixada dos EUA no Vaticano havia sido previamente anunciada pelo site.
A correspondência diplomática mais antiga, de 2001, revelada pelo WikiLeaks, relata que o Vaticano defendeu a "ditadura laica de Saddam Hussein" por considerar que era mais favorável aos cristãos iraquianos do que qualquer outra solução que "aquela guerra injusta" pudesse encontrar.
Hugo Chávez é o novo Fidel Castro, diz Vaticano
O site teve acesso a quase dez anos de correspondência de diplomatas norte-americanos baseados no Vaticano.
Segundo a documentação, Cuba tem sido o tema central de muitas reuniões bilaterais entre os EUA e o Vaticano. E desde que Obama foi eleito, o Vaticano tem redobrado os seus esforços para convencer Washington a levantar o embargo.
Numa correspondência enviada em janeiro deste ano pela Embaixada dos EUA na Santa Sé, os diplomatas dizem terem ouvido que o Vaticano está muito preocupado com "a desastrosa situação económica na ilha (Cuba) e a tensão política que pode gerar um banho de sangue".
De acordo com os documentos, durante uma reunião, Angelo Accatino, membro da Secretaria de Estado, disse a Julieta Valls Noyes
, chefe interina da missão diplomática, que era preciso "dialogar com Cuba, por mais desagradável que seja", e que o novo Fidel Castro não era o seu irmão Raúl, mas sim Hugo Chávez, Presidente da Venezuela. Daí o Vaticano estar muito mais preocupado com Chávez do que com Raúl.
Porta-voz usa Blackberry mas não tem acesso ao Papa
A Embaixada dos EUA traça um perfil tragicómico do responsável da Sala de Imprensa do Vaticano. Os diplomatas dizem que o padre Federico Lombadri
"usa Blackberry", o que é "uma anomalia no meio, posto que muitos dos dirigentes mais importantes não têm sequer correio electrónico".
O problema, diz Valls, "é que o porta-voz não faz parte do círculo íntimo do Papa, não tem nenhuma influência sobre as principais decisões, não escreve os comunicados, apenas limita-se a distribui-los".
A divulgação dos documentos da Embaixada dos EUA no Vaticano coincidiu com a realização de protestos hoje, na Austrália, contra a prisão do fundador do WikiLeaks, o australiano Julian Assange.