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O Velho Continente é o novo mundo da canábis

Tiago Miranda

A utilização da canábis para fins medicinais é cada vez mais uma realidade e está a alastrar na Europa. Brendan Kennedy, CEO da Privateer Holdings, falou esta quinta-feira na Web Summit e revelou que a sua empresa quer investir em Portugal

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Era até há poucos anos um dos maiores tabus da indústria farmacêutica e da comunidade médica, mas o uso de canábis para fins medicinais tem vindo a crescer. E não se trata apenas de um crescimento em número de utilizadores. A canábis é cada vez mais estudada e são várias as empresas a tentar entrar num negócio multimilionário.

Catherine Jacobson, diretora do departamento de investigação médica da Tilray — produtora de canábis à escala global —, explica que existe um "grande interesse da parte dos investigadores" em explorar este novo mundo e que "já existem provas médicas de como a canábis pode ajudar no tratamento sintomático de diversas doenças".

Brendan Kennedy, CEO da Privateer Holdings (o maior grupo privada do mundo dedicada apenas ao mercado da canábis), concorda com a investigadora e decide que a Web Summit é o lugar ideal para dar uma novidade. "Estamos a pensar investir em Portugal e já há conversações com o governo e com agências de investimento", revelou. O projeto da Privateer Holdings para o nosso país "não tem que ver com o cultivo"— que está instalado noutras paragens, como o Canadá — mas sim na "instalação de unidades fabris" da indústria transformadora.

EUROPA ABERTA À MUDANÇA

Durante a mesma conferência, Brendan Kennedy lembrou que a legalização da canábis para fins medicinais na Alemanha avança já no início do próximo ano. "Na Alemanha, 80 milhões de pessoas poderão ter acesso à canábis medicinal mediante uma simples prescrição do seu médico", frisou.

Em março deste ano, o ministro alemão da saúde, Hermann Groehe, havia explicado o porquê da abertura da República Federal Alemã às novas terapêuticas. "O nosso objetivo é que os doentes graves sejam tratados da melhor maneira possível", num projeto-lei alemão que casa com as leis já aplicadas noutras partes do mundo que legalizaram o uso medicinal da 'cannabis' para aliviar o sofrimento de doenças como cancro, glaucoma, VIH/SIDA, hepatite C, Parkinson e outras doenças graves.

A liberalização do uso recreativo da marijuana no Colorado, em 2014, fez com que os empreenderores olhassem para as drogas leves de outra forma e quisessem entrar num negócio que duplica de valor a cada ano e que em 2015 gerou mil milhões de dólares (883 milhões de euros). Em maio deste ano, o Expresso publicou uma reportagem sobre o assunto.

NECESSIDADE DE APROFUNDAMENTO

A investigadora norte-americana não tenta fazer uma apologia do uso de canábis em todos os casos. Catherine considera "necessário que se estudem as composições químicas de cada espécie para que se perceba o que está em causa" e quais as melhores plantas para o tratamento de cada doença. Por enquanto, a administração da canábis para fins medicinais é feita "essencialmente através da inalação de vapores da planta seca, mas é preciso ir mais além". A ideia é que se criem também "sprays nasais e pensos dérmicos" seguros para os utilizadores.

Catherine Jacobson aproveitou também para elucidar a plateia da conferência "The Future of Medical Cannabis in Europe" de que não haverá qualquer possibilidade de os universos da canábis medicinal e para fins recreativos se cruzarem, uma vez que haverá diferenças na dosagem. "As doses terapêuticas são muito mais baixas do que as recreativas", explica.