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Web Summit

No mundo das startups onde fica o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal?

Fala-se sobre isso mas, no final do dia, queremos os trabalhadores sempre ligados

Um estudo da consultora Deloitte sobre a geração Millennial, nascida a partir de 1980 e que entrou em força no mercado de trabalho e alimenta a criatividade e o trabalho nas startups, questionou um pouco por todo o mundo os trabalhadores desta geração. Uma grande maioria dos inquiridos (69%) afirmou colocar o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal no topo das suas preferências.

Contudo, num mundo organizacional em que mesmo as grandes empresas têm cada vez menos trabalhadores e estão a promover iniciativas de redução de custos (leia-se, gastos salariais) e onde as startups pedem 100% de dedicação aos seus colaboradores, é possível manter esse equilíbrio?

Esta foi uma das questões colocadas a um painel de empreendedores esta quarta-feira, na Web Summit, na palestra "Empowering your workforce". Demet Mutlu, fundadora do site de ecommerce de vestuário, a Trendyol, na Turquia, deu a resposta politicamente correta: "Na nossa empresa, contratamos as pessoas mais apaixonadas pelo negócio, mas dirigidas à ação. É preciso trabalhar pelas noites dentro, se queremos que uma startup dê certo. Por isso, se gostarmos muito do que fazemos não é trabalho", referiu.

A promoção de um espaco de trabalho aberto, em que as pessoas podem brincar umas com as outras também faz diferença, afirmou. "O nosso trabalho é muito divertido", lançou. "Além disso, somos uma empresa muito focada nos resultados e, por isso, suprimos uma série de processos aborrecidos, o que nos permite poupar tempo: fazemos reuniões rápidas, em pé, e suprimimos o PowerPoint", contou.

Quem está habituado a contactar com estas empresas, sabe que esta é uma realidade de grandes jornadas de trabalho. Como lembra Jay Simons, da Atlassia, empresa australiana de desenvolvimento de software para empresas, "a tecnologia obriga-nós a trabalhar em qualquer lugar, é esperado dos trabalhadores que respondam imediatamente. É preciso que as empresas façam uma engenharia de gestão de tempo com os seus trabalhadores e percebam qual a melhor forma de trabalharem em conjunto", disse. Mas não deu soluções.

Michael Prior, fundador da Trello, uma aplicação digital que permite precisamente gerir equipas de freelancers, controlar as suas tarefas e desempenho e permitindo contacto remoto a qualquer hora e em qualquer lugar, explicou que optou por contratar trabalhadores independentes para a sua empresa. "Trabalham em casa, fazem o seu horário. Claro que o trabalho tem de ser feito, mas podem ir buscar os filhos à escola ou atender quem lhes tocou à porta. A tecnologia permite-nos mais liberdade no trabalho, mas claro que existem 'guidelines' por parte da nossa empresa", afirmou.

Contudo, nem todas as tarefas são passíveis de serem realizadas remotamente, apontou Tom Gonser, à frente da DocuSign, empresa americana de digitalização de assinaturas e de processos de transação (sediada em São Francisco, Califórnia). "Depende também da dimensão da empresa. E da sua fase de vida", afirmou, comentando a decisão, tomada há uns anos pela gestão da Yahoo, de banir o teletrabalho, como forma de controlar tarefas e fomentar a cultura empresarial dentro de portas.

Gonser é o mais velho e experiente entre os palestrantes. E talvez por isso seja o primeiro a dizer que regalias não significam cultura. E que, para motivar trabalhadores, é preciso mais do que massagens ou atividades desportivas dentro da empresa. Jay Simons concordou: "Para atrair trabalhadores, se estivermos a falar de miúdos, talvez consigamos com uma mesa de ping-pong. Mas só no princípio. Porque o reconhecimento do trabalho, nomeadamente salarial, é o que os vai reter", afirma. Michael Prior anuiu: "Ao final do dia, essas regalias não passam de ferramentas de relações públicas. Às vezes, até são coisas engraçadas, mas para reter pessoas é necessário que a empresa tenha uma missão, valores que tenham a ver connosco, tem de tratar bem as empresas e os seus clientes". Também Demet concorda: "O mais importante é dar propósito às pessoas. E, na minha opinião, o que conta mais é a qualidade das nossas chefias diretas. Até podemos ter um serviço que leve os cães dos trabalhadores a passear durante um dia, mas se as chefias não forem boas as pessoas não ficam".

A tecnologia, nomeadamente as novas aplicações que permitem o contacto entre colaboradores, como se de redes sociais internas se tratassem, ajudam. Afinal, numa reunião presencial falam sempre os mesmos. Neste tipo de aplicações, as pessoas sentem menos pressão e todos sugerem, dão ideias, criticam. Sentem-se mais úteis.

São plataformas que, ao mesmo tempo, levam a que os trabalhadores estejam mais ligados... a trabalhar. E sobre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho? Mais não se ouviu, na verdade. O mundo das startups não é para meninos... Até quando.