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Expresso

Web Summit

Porque é que só procuramos na net aquilo em que já acreditamos?

Tiago Miranda

A internet abre portas, mas tendemos a utilizá-la para reforçar as nossas convicções, evitando o que as contraria ou questiona. Os efeitos perniciosos que isto pode ter para a democracia estiveram em debate no Web Summit

A Web está no nome do evento que reúne por estes dias mais de 50 mil pessoas no Parque das Nações. A Web está na Summit de Lisboa. A Web está em toda a parte, está nas nossas vidas e muda-as para melhor. A Web abre-nos horizontes e permite-nos ver mais longe… certo? Certo. Ou antes: “certo, mas”. É que se, teoricamente, a Web nos fornece mananciais de informação, não é menor verdade que tendemos a só procurar nela (e ela a dar-nos) aquilo em que já acreditamos.

O aviso foi feito esta manhã, no palco Future Societies (sociedades do futuro) da Web Summit, por Gary Marcus, professor de Psicologia e Neurociência na Universidade de Nova Iorque. “Ao contrário dos computadores, não fomos feitos de raiz para processar informação, nada na história da evolução nos preparou para isso. Evoluímos dos macacos e, através destes e recuando na cadeia, das bactérias. E partilhamos genes com uns e com outros”, explicou o também CEO da empresa Geometric Intelligence.

Sendo o raciocínio deliberativo um fenómeno recente, prosseguiu, “nem sempre controlamos o leme”. E exemplifica com a pessoa que, estando a fazer dieta e racionalmente sabe o que deve ou não comer, sucumbe perante um apetecível bolo de chocolate.

O “viés da confirmação”

Marcus respondia ao desafio do jornalista Charles Arthur, que escreve sobre ciência no diário britânico “The Guardian”. “Porque é que só vamos em busca daquilo com que concordamos e não procuramos pontos de vista que choquem com os nossos?”. “É o chamado ‘viés de confirmação’ [confirmation bias, em inglês]”, disse o académico. “Temos uma motivação emocional para procurar o que nos faz sentir melhor, aquilo que nos dá razão. E, depois, ficamos felicíssimos por sermos tão espertos, mas o que nos foi transmitido não é necessariamente verdade.”

“Se a revolução industrial se caracterizou pela uniformização, a revolução digital traz-nos a personalização”, comentou Ann Mettler, que chefia o Centro de Estratégia Política da Comissão Europeia. A atomização propiciada pela Internet, onde cada um faz o seu percurso, acabou com um modelo de comunicação e em que jornais, rádios e televisões mediavam entre a fonte e o recetor da informação. “O papel mediador dos media, como o nome indica, não é desempenhado pelas redes sociais”, afirmou.

À inclinação do internauta para reforçar as suas crenças soma-se o efeito de muitos dos algoritmos dos motores de busca e redes sociais, que voltam a bombardear-nos com aquilo de que já "gostámos" ou partilhámos. Frisando que faz um balanço muito positivo do papel das redes sociais, que não são as únicas responsáveis por este problema, Mettler exorta toda a gente a refletir sobre o significado desta evolução.

Alertar e responsabilizar

Será possível uma reação racional a este fenómeno? Marcus não tem a certeza. “Não temos instinto natural para nos pormos no lugar do outro”, diz. Julga que a solução pode passar por exigir uma ação pedagógica aos emissores. “Da mesma forma que nos Estados Unidos, para ter espaço de antena aberta, um canal de televisão tem de dedicar algum tempo a programas didáticos, poder-se-ia exigir aos motores de busca e redes sociais algum tipo de educação do internauta”, admite.

Marcus atira uma hipótese: “Imaginem um sistema de notificação automática, à semelhança de tantas que já há nas redes sociais, que nos diga: ‘Reparámos que nas últimas três semanas só leu posições idênticas’. E que nos proponha outros pontos de vista”. Mettler considera mesmo que “a democracia dá-nos direitos e também responsabilidades, entre elas a de ouvir opiniões opostas”.

Há dias, irritada com um dos seus contactos de Facebook, defensor do candidato presidencial Donald Trump, diz ter tido vontade de o “desamigar”. “Felizmente não o fiz. Ouvir o outro é útil”, diz. Mettler recorda que já existe, na Internet, alguma ação para evitar o “viés da confirmação”. “No combate à radicalização e ao terrorismo, usa-se a contranarrativa. Se alguém vai à procura de coisas sobre o Daesh, por exemplo, os motores de busca já não lhe dão apenas nem sobretudo a propaganda dos radicais, mas também visões críticas.”

Será preciso uma tragédia?

A resposta a esta tendência viciosa está “no começo”, considera Marcus, para quem as eleições presidenciais de hoje e o referendo sobre a União Europeia, realizado em junho no Reino Unido, foram momentos altos deste fenómeno, gerando campanhas praticamente pós-factuais, em que a verdade foi, não raro, espezinhada por argumentos falsos mas eficazes, de tão repetidos e propagados.

O facto de o problema ser recente faz com que não tenha uma posição alta na lista de prioridades dos decisores. “Talvez se hoje algo corresse muito mal no meu país as pessoas despertassem”, diz, acrescentando de imediato que não precisa de indicar em quem votou nas presidenciais para que público o deduza.

“Algo desse género podia fazer-nos valorizar a democracia”, assente Mettler, que acredita que coisas dessas possam acontecer nos próximos anos. Seria perigoso, por exemplo, um candidato derrotado “não aceitar a transição pacífica no poder”. Dizendo compreender algum “sentimento antissistema”, deixa a advertência: “Quem pensa que não tem nada a perder e aposta em soluções dessas acaba por perceber que se enganou. Todos os cidadãos têm responsabilidade por defender o privilégio que é viver em democracia”.