Siga-nos

Perfil

Expresso

Web Summit

Emojis devolvem um rosto à comunicação

DR

Se o telefone nos permitiu falar à distância, o smartphone trouxe a comunicação na ponta dos dedos, sem voz. Mas é preciso recuperar humanidade nas conversas, diz um empreendedor

Até à invenção do telefone, a comunicação verbal dava-se cara a cara. Se a criação de Graham Bell roubou o rosto às conversas, passado um século a ascensão dos smartphones e a febre das mensagens escritas tirou-lhes a voz. “Tudo isto é de grande importância”, assegura Ba Blackstock, CEO da Bitstrips Inc.

A perda de um rosto e da voz “tira muito significado à comunicação”, garante o empresário e artista gráfico. As conversas passam a ser “assíncronas”, que é como quem diz que respondemos não imediatamente, como num diálogo presencial, mas quando dá jeito ou quando damos pelo novo sms no telefone. “Isto dificulta as coisas”, afirmou Blackstock no palco Future Societies (sociedades futuras) da Web Summit.

A quantidade de informação que nos é dada pela expressão facial e pela entoação da voz é incalculável. Emoções, sentimentos e estados de espírito não se limitam às palavras empregues. Sem que dêmos por isso, portanto, as facilidades práticas dos telefones modernos (mandar mensagens é mais rápido, silencioso e discreto do que falar em voz alta) têm um lado negativo. “A comunicação digital torna tudo mais cómodo, mas rouba significado e humanidade à conversa.”

Os emoticons eram tão giros :)

“Foi por isso que apareceram os emoticons”, diz o empresário, recordando as sequências de carateres de pontuação usados, nos primórdios da Internet, para transmitir sorrisos, caras tristes, beijinhos e outras emoções. “São o dedo numa ferida que nem sabíamos que tínhamos.”

“Às vezes era difícil perceber-se o que alguém queria dizer, e passaram-se a usar emoticons para exprimir ironia ou sarcasmo”, afirma Blackstock. O primeiro surgiu, precisamente, numa mensagem cujo emissor queria garantir que todos percebessem que era “a brincar”. Os emojis, melhores do ponto de vista técnico e visual, tornaram-se uma diversão viciante.

O empreendedor questiona porque andamos todos a enviar uns aos outros “macacos e dançarinas de salsa”, mas poderíamos acrescentar o muito popular cócó, as comidas, flores, bandeiras, caras, extraterrestres, etc. Há até, na Net, questionários para adivinhar provérbios e nomes de filmes ou estações de metro expressas apenas com emojis.

Eu quero o meu próprio emoji

“São um negócio de milhões de dólares”, diz Blackstock, e afinal radicam em artes tão ancestrais como a banda desenhada, e em descendentes desta como o romance gráfico. Os emojis já geraram uma versão mais sofisticada, os stickers, com inscrições e, por vezes, animados. “Trata-se de uma linguagem visual que combina texto, imagem e expressão facial.”

Blackstock está no sector desde 2007. “Era cedo”, reconhece. Lançou, então, o sítio Your online funny pages, onde os internautas podiam produzir imagens a gosto. O passo seguinte foi a personalização, tendência inexorável do mundo virtual. Surge então o bitmoji, invenção da Bitstrips que consiste em emojis com a cara de quem os envia. “O que falta aos emojis e stickers é a identidade”, justifica Blackstock. “Com os bitmojis, voltamos a ver caras ao conversar.”