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Expresso

Web Summit

Como Paddy Cosgrave se tornou o ‘rei’ das startups

ENTÃO É ASSIM... Paddy Cosgrave prevê que 50 mil pessoas de 130 países venham a Lisboa em novembro para participar no Web Summit

Lucília Monteiro

Construiu, aos 33 anos, um império em torno das conferências. Dublin era pequena demais para a Web Summit e Lisboa soube aproveitar esse facto

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Paddy Cosgrave deu o pontapé de saída da Web Summit quando chegou à Ericeira (praia de São Julião) este sábado num clássico furgão Volkswagen ‘pão de forma’, após ter feito um périplo de promoção do evento de Lisboa por várias cidades europeias. Esta chegada com estilo do irlandês marcou o arranque da Surf Summit, o primeiro dos eventos paralelos da Web Summit que decorre ao longo do fim de semana nas praias de São Julião e de Ribeira d’Ilhas.

Além do surf, as duas centenas de empresários e investidores participantes vão poder praticar ioga, paddle, BTT e pelo meio vão dar algumas palestras.
O momento foi aproveitado por João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, que apanhou boleia no ‘pão de forma’ de Paddy Cosgrave nos últimos quilómetros para inaugurar os primeiros cartazes de publicidade exterior com a campanha em língua inglesa ‘This is Portugal’ (Isto é Portugal) dirigida aos perto de 50 mil visitantes estrangeiros que virão a Lisboa.

Quem é este irlandês de 33 anos que criou o maior evento de tecnologia da Europa e se tornou uma figura incontornável no mundo do empreendedorismo?

Estudou economia e política no Trinity College, em Dublin. Começou por criar aplicações online com amigos e chegou a ser ativista contra o abstencionismo nas eleições irlandesas. Em 2009 organizou a primeira conferência, F:ounder, em Dublin, em que participaram 150 pessoas. No ano seguinte lançou a primeira Web Summit (à qual juntou a F:ounder), que atraiu 400 pessoas, incluindo Jack Dorsey e Chad Heurley, cofundadores do Twitter e do YouTube.

Nos anos seguintes o crescimento foi exponencial. A edição de 2014 da Web Summit levou a Dublin 22 mil pessoas e em 2015 foram mais de 35 mil à capital da Irlanda. Uma fórmula vencedora foi replicada na Ásia e nos Estados Unidos com a realização das conferências tecnológicas Collision e de mais algumas especializadas como a RISE, a SURGE e a MoneyConf. Apesar do sucesso e de ser um dos homens mais influentes no mundo da tecnologia, tem mantido o estilo informal: continua a receber ministros em T-shirt e chinelos.

Em 2014, Paddy Cosgrave começou a perceber que Dublin não tinha condições para continuar a receber uma megaconferência que estava a concentrar no mesmo espaço geeks, investidores, multimilionários, políticos e estrelas da música, da moda, do cinema e do desporto. Pressionou o Governo irlandês para ter melhor internet móvel (wiFi), melhores transportes públicos e hotelaria sem preços especulativos, mas não obteve respostas satisfatórias.

Foi nessa altura que Bernardo Futcher Pereira, embaixador de Portugal na Irlanda, ao saber da divergência, percebeu que Lisboa tinha uma oportunidade de ouro para captar o evento, apesar de ter concorrência de Amesterdão, Barcelona ou Paris.

Entrou em contacto com Paulo Portas, o então vice-primeiro-ministro, que entendeu a importância do evento. No final de julho de 2014, uma delegação portuguesa desloca-se a Dublin e é recebida por Paddy de T-shirt e havaianas. A portuguesa Codacy tinha ganho a competição das startups da Web Summit de 2014 e Paddy tinha recebido informações positivas sobre Lisboa.

Após várias reuniões, o fundador da Web Summit resolveu visitar Lisboa e almoçou com Paulo Portas no Guincho. Além do bom entendimento com o Governo português, o que terá pesado na decisão terão sido os dias que Paddy passou em Lisboa a vaguear de mochila às costas. Não poupou elogios nos comentários que colocou no Facebook à cidade que acabou de conhecer. Ao mesmo tempo, gerou-se nas redes sociais um movimento favorável a Lisboa. Apesar de haver propostas de outras cidades que eram mais fortes do ponto de vista financeiro, a capital portuguesa passou a ser a eleita para deslocalizar a Web Summit, batendo Amesterdão na reta final.

Para que tudo desse certo, foi exemplar a colaboração institucional entre o Governo português da altura (através de Paulo Portas) e a Câmara Municipal de Lisboa (presidida por Fernando Medina), apesar de serem de cores partidárias diferentes. Juntaram esforços e responderam de forma positiva ao caderno de encargos do evento.

Conhecer pessoas

A Web Summit é hoje um evento gigantesco de 50 mil pessoas de 164 países, que concentra um conjunto de cimeiras numa só. Além do prato forte que serão as ‘cimeiras’ dirigidas a tecnólogos, empreendedores, startups e investidores, terá 15 palcos dedicados a temas como sociedade, moda, deporto e saúde onde intervirão 663 oradores. Mais do que assistir de forma passiva às intervenções no palco de nomes famosos como John Chambers, da Cisco, Sean Rad, da Tinder, Mike Schroepfer, do Facebook, Paddy Cosgrave diz que a Web Summit é “primordialmente para conhecer pessoas que devem vir de mente aberta”.

Para que a comunicação se estabeleça, a organização criou muitos programas, como as ‘Horas de Mentoria’ (Mentor Hours), onde startups numa fase inicial têm oportunidade de encontrar investidores e oradores, de forma a poderem dar conselhos úteis para ajudar estas empresas a fazer crescer o seu negócio.

A equipa da Web Summit também criou as ‘Horas de Escritório’, em que são pré-organizados encontros entre as startups e os investidores. A Web Summit é muito mais do que um evento das 9h às 17h. Como corolário, proporciona aos participantes mesas-redondas e rondas pelos bares de Lisboa na Night Summit e muitas outras iniciativas em eventos paralelos. Paddy Cosgrave garante que há muitos negócios que se fazem à noite.

Por exemplo, na Web Summit de Dublin, em 2011, o investidor Shervin Pishevar conheceu Travis Kalanick numa cervejaria já de madrugada, e Pishevar assinou um acordo de investimento de 26,5 milhões de dólares na startup de Kalanick, a Uber. “São interações como esta que me entusiasmam a avançar com a Web Summit”, diz Paddy Cosgrave.