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Web Summit

O Uber das doenças 
do movimento

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Ricardo Matias e Luís Rodrigues, cofundadores da Kinetikos, preparam a entrada nos mercados europeu e norte-americano

Mário João

Kinetikos vai à Web Summit com solução que otimiza a relação entre seguradoras e clínicas

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Kinetikos, que em grego significa movimento do corpo humano, é o nome de uma das startups portuguesas que vai marcar presença na Web Summit. Nasceu há menos de um ano por iniciativa de dois cientistas — Ricardo Matias e Ajay Seth (que vive no Silicon Valley) — e do gestor Luís Rodrigues (ex-quadro da Cisco Systems) com o objetivo de criar um sistema de apoio à decisão clínica para os profissionais de saúde que atuam nas chamadas doenças do movimento (musculo-esqueléticas), nomeadamente ortopedistas, fisioterapeutas e fisiatras.

“A proposta de valor da Kinetikos é juntar as atuais capacidades computacionais na nuvem, inteligência artificial e machine learning com o conhecimento das doenças do movimento”, explica Ricardo Matias, um fisioterapeuta que fez uma tese de doutoramento sobre modelos computacionais na Universidade de Stanford (Califórnia). No final de 2012, o trabalho de investigação deu frutos com a criação de modelos digitais que reproduziam com grande exatidão a realidade do paciente. “Estamos a criar uma tecnologia que pode ser tão disruptiva para a reabilitação como a Uber está a ser para os transportes urbanos”, afirma Ricardo Matias.

Como funciona o Kinetikos? “A informação clínica sobre a motricidade do corpo humano (recolhida através de sensores e câmaras eletromagnéticas) é carregada pelos profissionais de saúde na base de dados no Kinetikos, que depois gera um relatório que descreve o que o cliente tem, como é que evoluiu ao longo do tempo e como é que reagiu às sessões de fisioterapia.” Com esta informação, “o sistema aconselha o profissional sobre o número de sessões de fisioterapia necessárias de acordo com a melhor evidência científica publicada”, explica Ricardo Matias. Mas adverte que o Kinetikos não visa substituir a decisão dos profissionais de saúde. “Apenas os apoia na tomada de decisões até que se dê a alta do paciente”, sublinha.

Ricardo Matias, que iniciou a carreira como fisioterapeuta, diz que ainda hoje “é difícil quantificar a observação dos pacientes” e que “a observação dos sinais tem uma certa margem de erro”. Esta necessidade levou-o em 2006 a fazer uma tese de doutoramento e, em 2008, começou a colaborar com a Universidade de Stanford “na identificação de instrumentos e modelos computacionais que ajudassem a olhar para as pessoas onde tinham sido instalados sensores”.

Modelo de negócio

Para Luís Rodrigues, o potencial de negócio “é enorme, porque a população está a envelhecer e a ficar mais sedentária, o que faz com que estas patologias do movimento aumentem”. Dá como exemplo os Estados Unidos, onde as seguradoras gastam 26 mil milhões de dólares (€23 mil milhões) por ano em fisioterapia (90% dos gastos em reabilitação após uma alta hospitalar). “A ineficiência é significativa, porque a informação não é objetiva e o diagnóstico do movimento é feito por observação, o que faz com que haja um excesso de tratamento”, salienta Luís Rodrigues. “De acordo com os ensaios já realizados, a nossa solução consegue uma redução de 20% no número de sessões de fisioterapia, atuando na ligação entre o prestador de saúde e as seguradoras, que assim podem otimizar os processos de reabilitação.”

O mercado português está a servir de teste, mas o objetivo em 2017 é atacar o mercado europeu e depois o dos Estados Unidos (através de Ajay Seth). Para o efeito, a empresa, que arrancou com fundos próprios, está a preparar até ao final do ano uma primeira ronda de capital semente, sendo a Web Summit uma oportunidade para encontrar potenciais investidores. Entretanto, a Kinetikos concluiu o programa de aceleração Disrupter realizado pela Deloitte e Beta-i para a área de seguradoras e vai mostrar a solução no Reino Unido a convite do Deloitte UK. Os fundadores da Kinetikos também fizeram o programa de aceleração MIT/ ISCTE.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 8 de outubro de 2016