20 de abril de 2014 às 1:37
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CINEMA: BERLIM 2010

Wakamatsu, um mestre

"Caterpillar" é uma crónica cruel e radical sobre a mais trágica página da história moderna do Japão. Sem hesitações: uma obra-prima absoluta. Veja o vídeo no fim do texto. Clique para visitar os Postais Berlim 2010
Francisco Ferreira, enviado a Berlim (www.expresso.pt)
Kurokawa (Shinobu Terajima): o deus da guerra
Kurokawa (Shinobu Terajima): o deus da guerra

- "Why do you make films?"
- "The starting point is when I get angry." (Kôji Wakamatsu)

Kôji Wakamatsu é uma figura que impõe respeito e o seu novo filme, "Caterpillar", um monumento. Nascido em 1936, em Miyagi, Wakamatsu chega a Tóquio com 17 anos. Não tarda muito a tornar-se um "yakuza." É preso. Em liberdade, escreve um livro sobre a sua experiência na cadeia e o abuso do poder.

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Começa a fazer filmes (tem mais de cem no currículo), a partir de 1959, primeiro na TV, depois no cinema. Os seus "pinku eiga" (filmes eróticos) marcam os anos 60 e definem-no como cineasta marginal e subversivo.

A partir de 1965, ele funda a sua própria companhia de produção e dirige "Secrets Behind the Wall." Apresentado em Berlim, nesse ano, o filme causa incidente diplomático entre a Alemanha e o Japão.

Política


O erotismo desses filmes não é banal: serve um discurso político. É uma arma de arremesso contra o poder. Os heróis de Wakamatsu são uma juventude em crise. A produção é frenética: o realizador roda quatro a cinco filmes por ano nas décadas de 1960 e 1970. A mise-en-scène é aplicada e eficaz, à medida que a violência e o sexo, em filmes como "Violated Angels" ou "Sex Jack", se vão tornando cada vez mais excessivos. São manifestos anarquistas. Enfurecem as autoridades nipónicas. São banidos na China, na Rússia, nos EUA.

Nesses anos 1970 em que Wakamatsu produz "O Império dos Sentidos", filme de Nagisa Oshima coberto de infâmia, ele está ligado à luta armada do Exército Vermelho Japonês, movimento de extrema-esquerda fundado por universitários. "United Red Army", o seu penúltimo filme, foi apresentado aqui em Berlim, em 2008. Fazia uma cronologia detalhada do movimento político, do seu nascimento à sua auto-destruição, misturando ficção e imagens de arquivo.

Violência


Para compreender melhor os jovens revolucionários dos anos 60 e 70, Wakamatsu decidiu interrogar a geração dos seus pais. A geração que combateu no Pacífico durante a II Guerra Mundial. "Caterpillar" adapta livremente uma história de Rampo Edogawa e começa em 1940. É uma crónica cruel sobre a mais trágica página da história moderna do Japão. Fala de um soldado japonês, Kurokawa, que, depois da II Guerra Sino-Japonesa, volta para casa, condecorado e promovido a tenente, mas privado dos braços, das pernas, da audição e da fala. Tem a cara transfigurada.

A catástrofe é anunciada, mas a frente de batalha de "Caterpillar" decorre entre quatro paredes. É que, com o regresso de Kurokawa a casa, toda a responsabilidade social e política passa para Shigeko, a mulher do herói de guerra. O Império impõe-lhe a missão: ela tem que cuidar dele. "Mas aquela coisa já não é o meu marido", diz Shigeko. "Aquela coisa" é um tronco humano sem membros, incapaz de ouvir e de falar.

Porém, mesmo amputado, Kurokawa é uma 'máquina sexual' insaciável que força a esposa a fazer o que ela não quer. E é sobretudo pelo sexo, tal como em certos filmes de Imamura, que a violência política se perpetua, agora numa história contada a dois. Entretanto, o Japão já atacou Pearl Harbor...

Traumatismo


Shigeko (papel de uma grande actriz japonesa: Shima Ônishi) começa a perceber que as relações de poder do casal mudaram. E o marido, pouco a pouco, começa a transformar-se no monstro físico que é. Ficamos por aqui.

Para isto muito contribui a performance de Shinobu Terajima, uma das mais extraordinárias de todo o cinema: como a sua personagem não tem membros nem direito à fala, o jogo passa sobretudo por uma sucessão de gemidos, esgares e pela expressão dos olhos.

A performance é tão violenta que anula toda a retórica: sobre este ponto, "Caterpillar" é o oposto absoluto de "Johnny Got His Gun", de Dalton Trumbo, que tem história semelhante.

Quem é Kurokawa? Pode ser um Japão altivo e imperialista que agora caminha para o colapso. Um Japão exangue pelas imagens de arquivo das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki que lançam a conclusão anti-belicista do filme.

Pode ser também, e simplesmente, a história de uma relação sórdida. O pesadelo de um cineasta "zangado" com o passado e com as suas consequências no presente. "Caterpillar" é uma experiência alucinante. Um tratado alegórico sobre a história recente do Japão e o seu martírio. Está à mesma altura de "Patriotismo", livro e filme de Yukio Mishima.

Sabu


Kanikosen, de Sabu

O japonês Tanaka Hiroyuki, que responde pelo nome de Sabu, apresentou "Kanikosen" (significa "barco fabril"), adaptado do um homónimo romance, escrito há mais de 80 anos (por Takiji Kobayashi) e recentemente tornado best seller no Japão, durante a crise económica. Não tem nada que ver com "Caterpillar" porque tudo em Sabu é uma questão de representação (da submissão humana). Pode mesmo dizer-se que o décor do filme, um gigantesco barco de pesca, se aproxima de um palco de teatro contemporâneo e que é o elemento mais importante da narrativa.

A vida dos pescadores no barco é uma tortura permanente que os leva à morte ou ao suicídio: os marinheiros têm por missão pescar sem parar para alimentar as linhas da frente da batalha contra o inimigo russo. A 'revolta dos escravos' que vem depois faz pensar em "Couraçado Potemkin." O livro passava-se na I Guerra Mundial mas o filme não tem data precisa. É o filme mais performativo de Sabu.

Caterpillar (Japão)
de Kôji Wakamatsu
(Selecção Oficial - Competição)

Kanikosen (Japão)
de Sabu
(Forum)


Para mais informações consulte o site oficial do Festival de Cinema de Berlim 2010


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