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Viva o Porto!

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
8:00 Quinta feira, 12 de janeiro de 2012

Atento como todo o português médio à ínfima notícia, breve ou passageira, que "lá fora" se dê sobre o nosso país, nada me preparava para a interessante surpresa com que o destino recentemente me brindou. Muitas vezes, folheando no estrangeiro os jornais diários, me entristece o absoluto silêncio sobre tudo quanto, atinente a artes, letras ou política, respeite à "ocidental praia lusitana", e que apenas se interrompe pelos sinais da nossa incontornável estatura futebolística. Por isso mesmo é que me abraço, conforme posso, a esta, inspirado pelo ardor em que vicejam alguns amigos, autenticamente futeboleiros, sempre que o meu pessimismo em matéria de relevância pátria atinge as raias da indecência.

A ligação do desporto-rei ao mundo da moda, só muito recentemente iniludível, mercê do surto do biótipo metrossexual, manifestar-se-ia até hoje menos do que ténue. Os cinco violinos por exemplo assumiam-se hirsutos e rochosos, e não deixariam de exprimir, se os convidassem a pronunciar-se, a maior das repulsas, facilmente degenerável em violência física, pelos seus sucessores que se fariam depilar, acariciar com cremes de beleza, e aspergir com capitosas fragrâncias, ostentando em simultâneo sobre o carolo construções de suma fantasia, ora gelatinosas, ora coloridas. Sentir-se-iam os velhos cracks porventura no cumprimento de uma missão morigeradora dos costumes, a da virilidade de uma raça que se ilustrou por vencer três oceanos, por cortar umas quantas cabeças, e por nunca transigir com mariquices dissolventes.

O espanto que me assaltou, há dias, quando num documentário sobre a marca Chanel, transmitido pelo canal Arte, distingui com nitidez, posto que de relance, um cachecol do Futebol Clube do Porto, confundir-se-ia em mim com a dúvida de saber se não teria por acaso adormecido diante do televisor. Lá estava ele, o inconfundível adereço de lã, impante e em lugar destacadíssimo no atelier de sapataria da referida Casa, e não muito longe do retrato do genial estilista que a fundou, pintado em estilo Andy Warhol.

A questão que logo se me levantou, e que se mostrava inevitável, considerado o meu pendor a inventar enredos, foi a de descobrir no foro íntimo de que modo teria ido parar ali semelhante atestado de filiação clubística. Não seria de presumir que o tivesse suspendido o fátuo Karl Lagerfeld, criatura que se abana com leques, e que portanto se revela imprópria para a frequência dos estádios. A única explicação para o prodígio residiria, e foi nisso que me quedei, na eventual existência entre os sapateiros Chanel de um qualquer português emigrante, oriundo do Minho, das Beiras, ou de Trás-os-Montes.

Bem vistas as coisas, o que sobretudo importa é que pouco a pouco, e contra o pertinaz urro dos dinossauros, se vão abatendo gradualmente as fronteiras, não as dos estados que menos e menos valem, mas as dos estereótipos, e que continuem a viajar os filhos de Viriato até tocarem, arrebatados pelas suas paixões, latitudes aparentemente inatingíveis.

 

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