A visita do Papa a Luanda pode ser utilizada para fins eleitorais, considera um padre católico português da congregação Missionários do Espírito Santo e investigador de Ciência Política, que viveu vários anos em Angola.
"Essa ambiguidade da ligação temporal entre a visita do Papa e as presidencias pode ser aproveitada pelos políticos (angolanos) com fins eleitoralistas", diz à Lusa o padre Tony Neves, que está a terminar um doutoramento sobre "O papel da Igreja Católica na Reconciliação em Angola", na Universidade Lusófona. Segundo o padre Neves, "é inevitável que isso aconteça e não é uma culpa que se possa imputar à Igreja Católica".
Angola aguarda a data da marcação das eleições presidenciais, que depende ainda, segundo o chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, de uma revisão constitucional.
"O Papa tem visitado muitos países e por mais que escolha as alturas nem sempre consegue ir em momentos mais ou menos isentos, até porque a história dos povos nunca tem momentos brancos, há sempre qualquer coisa que dá para aproveitar", refere o religioso, que viveu em Angola entre 1989 a 1994, num dos períodos mais intensos do conflito armado no país.
O padre Tony Neves sustenta que ao convidar o Papa para visitar Angola a Igreja angolana tinha como objectivo que Bento XVI confirmasse a missão e o trabalho realizados pelos religiosos naquele país africano.
A visita de Bento XVI a Angola, declara, tem uma dimensão simbólica, uma vez que se trata da sua primeira viagem ao continente africano. "Foi um opção deliberada, para confirmar o trabalho que a Igreja realizou para a paz de Angola e, agora, pelo seu esforço na reconstrução do país", afirma o religioso, que também é director do jornal "Acção Missionária" e coordenador do movimento "Jovens Sem Fronteiras".
Segundo o padre, "o próprio Governo angolano reconhece que a Igreja é um parceiro fundamental neste trabalho de reconstrução do país", adianta, acrescentando que "é necessário reconstruir a parte material e também o tecido social da nação, que foram atingidos violentamente pela guerra".
O religioso estima que 90% da população angolana é baptizada em religiões cristãs e 50 por cento do país é católica. "Acredito que a Igreja, percentualmente, vai crescer muito ainda em Angola, já que durante a guerra muitas pessoas não tinham assistência religiosa, ao contrário de agora, que todas as regiões do país têm serviços religiosos estruturados", argumenta o padre, que passou temporadas em vários outros países africanos.
Posteriormente, pode estabilizar ou diminuir, segundo Tony Neves, tendo em conta o que acontece hoje, por exemplo, na Europa onde as pessoas acham que "Deus deixou de ser útil".
O religioso não discorda da desaprovação do Papa em relação à distribuição de preservativos para combater a propagação da sida, pois acredita que a mentalidade do "pode-se fazer sexo à toa, mas protege-te" não resolve o problema, na medida em que a distribuição em África deste tipo de protecção é irregular, como acontece com os alimentos.
"As pessoas acostumam-se com a ideia de que podem fazer sexo à toa e, mesmo quando não têm o preservativo, continuam a praticá-lo. Além disso, quando há dinheiro, as pessoas não gastam em preservativos e sim em comida, pois não têm condições mínimas de saúde, educação e alimentação", declara o padre Tony Neves, que também é autor de livros sobre suas experiências em África.
"É mais eficiente ter um parceiro único", refere, defendendo que é necessário a gestão responsável da relação sexual e dos afectos, além de uma efectiva educação nas escolas.