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Vietname, Cabul e telemóveis

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 25 de junho de 2010

A manifesta ausência de perspectivas de solução para os conflitos do Iraque e do Afeganistão têm tido um efeito colateral interessante: o processo simultâneo de reescrita da história acerca da derrota americana no Vietname, desenvolvida aliás em dois sentidos: um, perigosamente mais virulento e de pressão sobre Obama vindo da área republicana, crescentemente manietada pela fanática direita religiosa, neoconservadores e adjacências; uma segunda que não traz propriamente novidades, mas confirma factos e revela pormenores, traduzida nas reflexões autocríticas de homens directamente envolvidos na escalada dos anos 60.

Os meios em jogo são desproporcionados. Do primeiro lado, uma absoluta predominância da extrema-direita na comunicação social, qualquer coisa que faz parecer o Citizen Kane - ou o sr. Hearst... - perfeitos aprendizes... Sendo de referir que o argumentário nem sequer é particularmente imaginativo: no essencial, pretende-se que militarmente os marines tinham o Vietname ganho e foram apunhalados pelas costas pelos políticos... Conhece-se o arrazoado, desde a França e sua direita em 1870, a Alemanha e a sua direita nazi na década de 20 do século passado e até podemos recordar a nossa direita doméstica e o 25 de Abril.

Quanto à reflexão que o tempo impôs a homens como McNamara ou McGeorge Bundy, o mais interessante é ver confirmado o que a esquerda e o bom senso não se cansaram de repetir durante a tragédia indochinesa.

O caso de McGeorge Bundy é, no fundo e na forma, particularmente curioso. As 300 páginas de "Lessons of a Disaster: McGeorge Bundy and the Path to War in Vietnam" não são propriamente um livro de memórias. O conselheiro em assuntos de defesa de Kennedy e Johnson não é directamente o autor: em 1995, revela a NYRB, e com 76 anos, Bundy iniciou o trabalho com um jovem colaborador (Gordon Goldstein, o efectivo autor de "Lessons") para ordenar os seus documentos e sistematizar as suas memórias com o desígnio de os passar a livro; desapareceu um ano depois, sem completar a publicação, mas Goldstein prosseguiu o trabalho produzindo uma interessante obra que acaba por ser um misto de memórias autobiográficas e análise política e historiográfica.

No horizonte estão, naturalmente, os assustadores paralelos com o Afeganistão e o Iraque, a absoluta consciência assumida pelos homens que há meio século caminharam para o Sudeste asiático de que é impossível ganhar militarmente guerras com as comuns características do Vietname e dos teatros actuais.

Como sublinha William Pfaff na interessante reflexão que faz sobre o livro, Goldstein acabou por fazer do índice da obra a síntese das conclusões que nela encerrou e é incontornável reflectir muito em particular sobre o capítulo V quando se pensa nessa criminosamente patética figura de George W. Bush: "nunca recorrer a meios militares para atingir objectivos indeterminados".

A riqueza mineral descoberta com pouco convincente novidade poderá, como sugestivamente se afirma no Pentágono, fazer do Afeganistão "a Arábia Saudita do lítio", de que tanto precisam os obsessivos telemóveis. Só que foi na Arábia Saudita que começou o 11 de Setembro.

rubencarvalho@mail.telepac.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2009

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