"É impensável que os jornalistas continuem a aceitar os números avançados pelos organizadores das manifestações sem procurarem confirmá-los". Quem assim pensa é Steve Doig
, ex-jornalista do "Miami Herald", e atual professor da Universidade do Arizona.
Sábado passado, por exemplo, Steve Doig garante que não foram mais de 8.000 as pessoas que desceram a Avenida da Liberdade, em Lisboa, para protestar contra a NATO. Os organizadores da manifestação, o movimento "Paz, sim, NATO não"
, contaram 30.000 presenças.
Há duas semanas, por ocasião do protesto organizado pela Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública
, que também ligou o Marquês de Pombal aos Restauradores, aos 100.000 manifestantes avançados pela organização Steve Doig contrapõe com oito a dez mil.
Método transparente
O método seguido pelo professor norte-americano, atualmente a dar aulas ais alunos do mestrado em Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa, subdivide-se em dois momentos.
Nos dias que antecedem o protesto, Steve Doig calcula as áreas das praças e avenidas por onde passarão os manifestantes, com a ajuda do Google Earth. A ideia é determinar a lotação destes espaços.
No 'dia d', Steve Doig, que realizou a sua primeira estimativa há 25 anos, enquanto jornalista do "Miami Herald", ao serviço do qual foi distinguido com um Pulitzer, realiza contagens sistemáticas, com a ajuda de alguns voluntários, desta feita os futuros jornalistas.
A cada 30 segundos, com intervalos de três minutos, cada estudante conta o número de pessoas que passam à sua frente.
Bastou multiplicar o valor médio das diferentes contagens pelos 45 minutos que durou o desfile para Steve Doig concluir que pela Avenida da Liberdade não passaram mais de 8.000 pessoas.
Sabendo de antemão que frente ao palco montado na Praça dos Restauradores não cabiam mais de 7.000 pessoas, se perceberá por que razão centenas de manifestantes não saíram da Avenida da Liberdade.
Às críticas dos organizadores, para os quais a força dos números tantas vezes se sobrepõe às razões do protesto, o professor responde com a transparência do método.
"O melhor que podemos fazer é divulgar o método seguido na nossa estimativa", afirma Steve Doig, rematando: "Os jornalistas devem citar outros números - da polícia, dos organizadores - e deixar que seja o leitor a decidir que método permitiu chegar ao valor mais fiável".