Paula Nunes, autora da denúncia anónima que levou à acusação de Isaltino Morais por corrupção passiva, branqueamento de capitais, abuso de poder e fraude fiscal, vai ser alvo de uma queixa-crime por difamação. Ao Expresso, Emanuel Martins, vereador socialista da Câmara Municipal de Oeiras, desmente as acusações feitas pela ex-chefe de gabinete de Isaltino na revista Sábado, onde esta afirma que o edil da Habitação lhe ofereceu, nas vésperas do julgamento, "um emprego fantástico" e uma compensação financeira em troca de "uma maior abertura" - leia-se "as respostas consentâneas e que cumprissem os objectivos dele (Isaltino) no julgamento".
"É totalmente falso! Essa senhora pensava, que através de mim, conseguia chegar ao Dr. Isaltino e às ajudas de que precisava. Dou-lhe a minha palavra de honra, que nunca o presidente me mandatou para fazer coisa alguma". Faz igual desmentido à suposta conversa do vereador socialista com o advogado Carlos Pinto de Abreu, que dirige a equipa de defesa do autarca, para que este o instruísse quanto às respostas pretendidas para Paula em sede de julgamento. "Isto não é uma máfia nem eu sou o operacional de ninguém. Não conheço o advogado, não sei onde tem escritório, onde mora, nada".
Emanuel Martins não se revê no retrato de "capanga" de Isaltino, ou sequer de amigo pessoal, "e não me cansarei de dizer que também não sou o seu irmão maçon na Grande Loja Legal de Portugal". Prefere resumir a relação com o presidente da câmara de Oeiras à cordialidade de dois opositores políticos (que os doze anos de trabalho autárquico aproximou), ao ponto de equacionar digladiar com ele a presidência do município nas próximas eleições.
O vereador só confirma, e lamenta, a intimidade que ganhou com Paula Nunes, criada desde há um ano, altura em que a convidou para trabalhar no departamento de habitação. Desde que rebentara o escândalo das contas milionárias de Isaltino (ou do seu sobrinho taxista) na Suíça, e se apurou ter sido a secretária a denunciar o caso, Paula estava colocada - ou desterrada - na Fábrica da Pólvora, com pouco ou nada para fazer.
"Conheci-a bem como secretária pessoal de Isaltino, reconhecia-lhe competência e precisava de alguém com o seu perfil na minha equipa. Por isso convidei-a, apesar de saber as resistências que teria de vencer. Não é uma mulher querida na câmara. Tive funcionárias a pedir transferência para não trabalharem com ela", conta.
Ficaram mais próximos, conversavam bastante. "Falava-me das suas necessidades financeiras, dos problemas que enfrentava, de se sentir tratada como uma cadela e dizia, repetidamente: 'se vocês tivessem falado comigo antes nada disto tinha acontecido...'" O "vocês" era o "staff de Isaltino" e o "isto" o processo judicial. "Por mais que lhe dissesse que não tinha nada a ver com o presidente, que não era seu representante... agora percebo que me tentou usar como mensageiro".
O vereador socialista, durante anos líder do PS Oeiras, garante nunca lhe ter oferecido dinheiro ou qualquer outra compensação. "Só lhe prometi, caso vencesse a presidência da câmara, levá-la para minha chefe de gabinete, para que recuperasse o prestígio e a antiga função. Deve ser o 'emprego fantástico' a que ela se refere".
Mas não é a acusação de aliciamento ou tentativa de corrupção da testemunha que preocupa Emanuel Martins. O vereador tem dificuldade em explicar os contornos dos dois jantares relatados por Paula à revista Sábado em suites do Hotel Solplay, um no início de Fevereiro e outro há um mês, com entrega prévia de cópia da chave-cartão e chegadas desfasadas. Ele, homem casado, confirma-os. "Ela dizia que queria falar comigo, para irmos jantar, ligava-me, mandava-me SMS à noite e, confesso, fazia-o de forma sedutora e nada desprovida de encantos. E eu não queria que me vissem com ela em público, porque para todos é a 'gaja do Isaltino', a mulher que viveu com ele e que depois o traiu... Sei que é difícil que acreditem que nunca fomos íntimos"
No segundo jantar, Paula apareceu na suite com um amigo. Explicou a companhia por necessidade de segurança. "Disse-me que 'nós' não tínhamos cumprido o que lhe prometemos, o que tínhamos combinado, mas que ainda podíamos negociar. Queria que eu resolvesse os problemas dela. Mais uma vez lhe expliquei que não tinha esse tipo de acesso ao Dr. Isaltino..."
"Fechada na casa-de-banho" Um dos projectos atribuídos a Paula nas novas funções foi a realização de um seminário internacional de habitação. Desde logo surgiu um problema logistico-legal. Paula, como organizadora, estaria presente no secretariado; e Isaltino Morais, como presidente, participaria na sessão de abertura. Paula acusou João Viegas, chefe de gabinete do vereador, de a ter fechado na casa de banho do hotel, para que não se cruzasse no átrio com o autarca. "Não foi nada disso que aconteceu! Foi-lhe explicado que o tribunal não permite que os dois se encontrem, mas ela não queria nem saber. Chamei-lhe teimosa mas nunca a fechei em lado nenhum", diz João Viegas, que vai interpor contra a ex-secretária um outro processo-crime por difamação.
Paula entretanto desapareceu. Há quinze dias que não vai trabalhar. Os dois telemóveis estão desligados - o Expresso tentou contactá-la sem sucesso. Mas hoje o seu paradeiro é bem conhecido: a partir das 9h30 surgirá no Tribunal de Sintra para começar a ser ouvida como testemunha de acusação de Isaltino Morais.