Jorge Sampaio anda atarefado nos corredores da Liga Árabe, a dois passos da Praça Tharir no Cairo. Todos querem falar com ele, todos querem um pequeno esclarecimento, uma palavrinha. Ele meteu-se nisto, em querer construir pontes de "Diálogos no Cairo".
A Liga Árabe abriu-lhe as portas e o ex-presidente, como Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações, lançou-se na concretização da ideia que lhe surgiu em Março último. Nessa altura Sampaio visitou o Cairo, ouviu muito, muitas pessoas diferentes, jovens, menos jovens, intelectuais, antigos governantes, lideres religiosos, coptas e muçulmanos, diplomatas.
A Primavera Árabe trazia-lhe à memória os anos 70, o PREC em Portugal, a transição em Espanha, a situação na Turquia. Agarrou nessas experiências juntou-as aos que estão a viver este verão quente no Egito, e coloco-os todos a dialogar numa sala da Liga Árabe no Cairo ao longo de dois dias, 27 e 28 Julho.
A surpresa surge pela quantidade e diversidade de assuntos que são discutidos, pela forma aberta como são tratados, pela liberdade em contestar cara-a-cara os argumentos, pela frescura de querer tudo, a democracia, hoje, agora , instantaneamente, sem inibições, porque tudo é possível pedir quando se está a sair de uma ditadura.
Mesmo que as exigências sejam as mais contraditórias, mesmo que a multiplicidade de forças políticas não se entenda sequer para fazer umas eleições, mesmo que as interpretações do que está a acontecer sejam divergentes.
Sampaio sabia o que o esperava. Nunca arredou pé de nenhuma sessão apesar das horas consecutivas espalharem o cansaço pela sala.
Discute-se o papel dos militares a obrigação de passarem o poder aos civis na construção da democracia. Os militares egípcios dizem que sim. Outros participantes civis duvidam imediatamente. O nervosismo, a urgência e a pressão das constantes manifestantes e protestos nas ruas e praças condiciona tudo. Dialogo, consenso, paciência são conceitos urgentes para construir uma democracia , mas que se perdem entre os clamores.
A politica ainda não esta organizada, quantos partidos se apresentarão às eleições que deveriam acontecer em Setembro? Ainda ninguém sabe. Há mais de 100 grupos ou movimentos, mas não partidos políticos clássicos.
E quem é que vai ter mais poder: as formações muçulmanas ou as outras? Os radicais ou os moderados? E as mulheres estão a perder o que já tinham conquistado?
"Não vai ser nada fácil" afirma Jorge Sampaio "a transição do Egito vai ser longa, cheia de vicissitudes, de diálogos tensos, mas isto já não volta para trás!".
Sampaio conseguiu juntar à mesma mesa egípcios de várias tendências, turcos, espanhóis, portugueses. Ouviram-se histórias, trocaram-se experiências, colocaram-se questões num debate aberto.
O Egito está a viver um Verão Quente onde ainda faltam pontes para o compromisso político, para o consenso que molda a democracia e a faz funcionar.
Por enquanto ouve-se a agitação permanente da Praça Tharir.