23 de maio de 2013 às 18:07
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Vargas Llosa e o pedófilo maldito

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
A Tempo e a Desmodo - Vargas Llosa e o pedófilo maldito

O último Vargas Llosa não é Vargas Llosa vintage. As personagens de O Sonho do Celta não têm a vibração de outras personagens da galeria varguista, e o próprio estilo não tem a tensão e a vivacidade do costume. Este é um romance descafeinado, com um sabor a modo automático. Baseado numa personagem histórica, O Sonho do Celta é - durante demasiadas páginas - um relato burocrático daquilo que Roger Casement (1864-1916) viu no Congo colonial, na Amazónia peruana e na Irlanda revolucionária. O registo burocrático é visível na forma como nós não conseguimos sentir e ver o mundo pelos olhos das personagens, mesmo quando estamos perante a carne viva das atrocidades. A substância do livro é primorosa, mas não ferveu no fogo da linguagem varguista.

Mas, vamos lá ver se nos entendemos, um Vargas Llosa mediano continua a ser um grande livro. Até porque, como já afirmámos, a substância de O Sonho do Celta vale por si. A narrativa acompanha a vida de Roger Casement, um irlandês que passou de defensor do império britânico a crítico feroz desse mesmo império. É por isso impossível não pensar em Gandhi, o grande independentista desta geração (nasceu em 1869). Tal como o jovem Gandhi, o jovem Roger acreditava na superioridade do império britânico. Aliás, Roger iniciou as suas viagens a África, porque queria participar no esforço civilizacional do colonialismo. Sucede que o jovem irlandês começou a detectar falhas entre a teoria e o terror da colonização africana. A partir desse momento de revelação, a partir dessa Estrada de Damasco ao contrário, Roger passou a questionar a sua crença imperial e, aos poucos, aproximou-se da pergunta maldita do seu pai e dos outros irlandeses do Ulster: a Irlanda não seria uma espécie de Congo? Num primeiro momento, somos levados a pensar que Roger Casement iria procurar - tal como o Gandhi inicial - a rota de autonomia da Irlanda dentro do império britânico, mas, no meio da selva peruana, Roger chegou à conclusão que Gandhi seguiria anos mais tarde : "nós, os irlandeses, somos como os huitotos, os boras, os andoques e os muinames do Putumayo. Colonizados, explorados, condenados a sê-lo se continuarmos a confiar nas leis, nas instituições e nos governos de Inglaterra, para alcançar a liberdade". Só existe uma diferença no percurso político de Casement e Gandhi; o segundo abdicou da violência, enquanto o primeiro acreditava que a liberdade "só pode vir das armas". Este pensamento conduziu Roger ao seu final trágico em 1916.

Apesar da adesão à causa independentista, a Irlanda demorou a aceitar Roger Casement como um dos seus heróis. Os seus famosos diários sexuais, com situações reais e ficcionadas, funcionaram durante décadas como um véu de má fama. Com a revolução dos costumes da segunda metade do século, o nome de Casement voltou a ter ventos favoráveis e os seus restos mortais regressaram finalmente à Irlanda em 1965. Lentamente, os irlandeses aceitaram que "um herói e um mártir não é um protótipo abstracto nem um modelo de perfeições, mas sim um ser humano, feito de contradições e contrastes, fraquezas e grandezas". Nada mais varguista.

 

Esta coluna regressa a 3 de Setembro

Comentários 22 Comentar
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Re: Vargas Llosa e o pedófilo maldito da Irlanda
"Colonizados, explorados, condenados a sê-lo se continuarmos a confiar nas leis, nas instituições e nos governos de Inglaterra, para alcançar a liberdade".

Já podes começar a olhar para o espelho, HR.

Foste colonizado pela mais abjecta ideologia neo-liberal, pela mais repugnante apologia das instituições religiosas e pelas mais asquerosas visões misóginas e homofóbicas.

Um dia, talvez... Talvez, um dia, te consigas libertar. Nesse dia, "fazer uma sopa" deixará de ser coisa de mulher, "casar" não será um exclusivo de heterossexuais e, quanto a pedófilos, não vais andar a bajular aqueles que os protegem.

Um dia, talvez, pode ser que te libertes da "colonização" de que foste alvo.
Re: Vargas Llosa e o pedófilo maldito da Irlanda Ver comentário
UMA PERSONAGEM UNIVERSAL DO BEM
O reencontro com o espirito, a herança nacionalista irlandesa desta personagem histórica foi um processo a todos os níveis extraordinário. De simples curioso passou gradualmente a activo militante, chegando a participar na conspiração da revolta q o exército inglês implacavelmente esmagou. A sua crescente aposta na causa irlandesa foi consciente e, em certa parte infantil. Perdeu importantes amizades e uma legião d admiradores. A aposta na criação d um regimento irlandês no seio do exercito do Kaiser ainda hoje é algo d difícil compreensão e, q não só o irremediavelmente condenou como também impossibilitou, mais tarde, qualquer perdão por parte do Reino Unido. Trata-se efectivamente d uma personagem maior do nacionalismo irlandês. Paralelemente a esta sua patriótica faceta existe todo um trabalho d denuncia q fez do tratamento inumano com q os as populações negras locais e os índios eram brindados na febre da borracha q assolou as selvas do Congo e do Putamayo. A sua passagem pelo Congo e Peru permitiram-lhe testemunhar alguns dos episódios mais escabrosos da história da humanidade. Ninguém fica indiferente aos seus relatos. Hoje já ninguém fala dos enormes atropelos criminosos q foram perpetrados pela ganancia do ser humano junto das populações locais, indefesas e em estado puro. Foi graças á sua acção q estes crimes passaram a ser do conhecimento publico. Foi através d Casement q o mundo, d certa maneira, passou a ter consciência e censura colectiva. Os seus relatos ...
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Saber ler é obrigatório!
Anda muita sucata livreira por aí e escritores a "correr" é o que há mais,cá e lá fora.Daí vivamente se aconselhar a leitura dos grandes mestres escritores,onde Vargas Llosa se inclui.É que já não vale a pena perder tempo com escritores de pástico!
Gostei
Gostei e não sei se é a primeira vez que isso acontece, a crónica despertou-me para a leitura de Vargas Llosa, autor que nunca me entusiasmou, pois da literatura latino-americana fico-me por Garcia Marquez e Pablo Neruda. Registo outro facto interessante, o cronista volta em 3 de Setembro, vai de férias com toda a certeza, e fico com a sensação que deve ser alto funcionário da administração pública ou ex-membro de uma juventude partidária.
'Vargas Llosa e o pedófilo maldito da Irlanda
Não obstante discordar de muitos dos seus posts a ponto de nos últimos tempos já não sentir qualquer gosto em investir a minha opinião neles, também é um facto que os leio mais do que devia... ainda não consegui votar-lo com os pés, ainda que me esteja a esforçar para isso.

Muitas das suas críticas a livros e filmes também são interessantes. Houve um tempo em que elas me teriam sido necessárias, hoje é uma ironia que com o tempo que gasto a ler as suas, poderia ler um ou dois dos livros que publicita (que já não leio).

Serve este comentário e mais umas retóricas que não sei se inúteis, sobre a necessidade constante de nos lembrarmos que somos todos Portugueses com direito a vidas decentes, para introduzir o que quero realmente dizer:

...O meu desejo de boas férias, Henrique!

PS.: Tempos diferentes, soluções diferentes. A segunda guerra mundial, para além de enfraquecer a Grã-Bretanha, obrigou à criação de mitos civilizacionais que depois jogaram contra a manutenção violenta do império. A independência "não-violenta" da Índia tornou-se assim uma possibilidade.

Outro aspeto interessante na analogia é que pelos vistos em ambas as personagens foi crucial a passagem por África. Quase se conclui que a forma como os Ingleses construiram o seu império Africano fez mais pela sua desintegração global do que se pensaria.
Re: Pequena Nota: Nem o Congo nem o Peru foram Ver comentário
Re: Pequena Nota: Nem o Congo nem o Peru foram Ver comentário
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Henrique Raposo e a Literatura
O H.R. enquanto crítico de Literatura e Cinema terrenos por onde se aventura a cada passo ,não dá bem para entender. Os livros e os filmes de que fala são obras já comentadas e criticadas por tanta gente que tudo o que ele possa dizer sobre as mesmas já não faz qualquer sentido. Se bem que este de Vargas Lhosa seja um livro recente(2010,creio),ao contrário do último que comentou, A CURVA DO RIO de V.S.NAIPUL (1979), já não poderá acrescentar mais nada que deixe de soar a coisa já desactualizada. É talvez por isso que recorre a títulos "fortes" e a aspectos menores da vida das personagens,neste caso um herói que em determinada época foi visto de uma forma e, posteriormente, de outra.
        Outra coisa não se entende... ou talvez faça sentido. Os dois livros que referi pertencem à mesma editora e outros que já foram apresentados se não com idêntica "chancela", pertencem ao mesmo grupo editorial... curiosamente aquele que edita os do H.R.
Re: Henrique Raposo e a Literatura Ver comentário
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Napoleão de Notting Hill
Falar do tema Irlanda, esquecendo Michael Collins.
Falar de Gandhi e Michael Collins esquecendo o livro "Napoleão de Notting Hill"...
Curiosamente todos adoram Rudyard Kipling, Nobel em 1908, e Cecil Rhodes, tráfico de diamantes, universidade de Yale, Taft society e skulls and bones.
Mas a Inglaterra é uma grande nação! Grande espírito, grande ensino, grande arte cénica, literária e musical!
A ela devemos Philipa de Lancaster e o que se lhe seguiu. E, embora por interesse, naturalmente, a nossa independência e a universalidade do vinho do porto.
Eu aprendi muito sobre Portugal com uma grande mulher inglesa e, por várias vezes os nossos caminhos se cruzaram, no estudo destes assuntos, embora a minha formação fosse científica e a dela em literatura inglesa e alemã. Tal como os dos nossos dois países.
A Inglaterra também tem anti-imperialistas e auto-crítica! É impossível não admirar a nobreza do povo inglês ou ignorar a sua história ou literatura!
Na Europa com quem podemos contar?
Com a França? Como é possível acreditar nisso, olhando para o que o passado nos trouxe? E o presente!
O Leão pode um dia ser vencido, mas o seu espírito nunca morrerá!
Relativamente ao lado Hyde do Dr. Jekyll, eu respondo com um lema da república: "Justiça igual para todos"!
A virtude nada tem que ver com o mérito científico ou histórico!
Ben Franklin foi um "Founding Father" e tinha o seu "Hellfire Club", de satânicos genocidas (canal História no Youtube)!
...
It's a long way to Tipperary!
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