Vargas Llosa e o pedófilo maldito
O último Vargas Llosa não é Vargas Llosa vintage. As personagens de O Sonho do Celta não têm a vibração de outras personagens da galeria varguista, e o próprio estilo não tem a tensão e a vivacidade do costume. Este é um romance descafeinado, com um sabor a modo automático. Baseado numa personagem histórica, O Sonho do Celta é - durante demasiadas páginas - um relato burocrático daquilo que Roger Casement (1864-1916) viu no Congo colonial, na Amazónia peruana e na Irlanda revolucionária. O registo burocrático é visível na forma como nós não conseguimos sentir e ver o mundo pelos olhos das personagens, mesmo quando estamos perante a carne viva das atrocidades. A substância do livro é primorosa, mas não ferveu no fogo da linguagem varguista.
Mas, vamos lá ver se nos entendemos, um Vargas Llosa mediano continua a ser um grande livro. Até porque, como já afirmámos, a substância de O Sonho do Celta vale por si. A narrativa acompanha a vida de Roger Casement, um irlandês que passou de defensor do império britânico a crítico feroz desse mesmo império. É por isso impossível não pensar em Gandhi, o grande independentista desta geração (nasceu em 1869). Tal como o jovem Gandhi, o jovem Roger acreditava na superioridade do império britânico. Aliás, Roger iniciou as suas viagens a África, porque queria participar no esforço civilizacional do colonialismo. Sucede que o jovem irlandês começou a detectar falhas entre a teoria e o terror da colonização africana. A partir desse momento de revelação, a partir dessa Estrada de Damasco ao contrário, Roger passou a questionar a sua crença imperial e, aos poucos, aproximou-se da pergunta maldita do seu pai e dos outros irlandeses do Ulster: a Irlanda não seria uma espécie de Congo? Num primeiro momento, somos levados a pensar que Roger Casement iria procurar - tal como o Gandhi inicial - a rota de autonomia da Irlanda dentro do império britânico, mas, no meio da selva peruana, Roger chegou à conclusão que Gandhi seguiria anos mais tarde : "nós, os irlandeses, somos como os huitotos, os boras, os andoques e os muinames do Putumayo. Colonizados, explorados, condenados a sê-lo se continuarmos a confiar nas leis, nas instituições e nos governos de Inglaterra, para alcançar a liberdade". Só existe uma diferença no percurso político de Casement e Gandhi; o segundo abdicou da violência, enquanto o primeiro acreditava que a liberdade "só pode vir das armas". Este pensamento conduziu Roger ao seu final trágico em 1916.
Apesar da adesão à causa independentista, a Irlanda demorou a aceitar Roger Casement como um dos seus heróis. Os seus famosos diários sexuais, com situações reais e ficcionadas, funcionaram durante décadas como um véu de má fama. Com a revolução dos costumes da segunda metade do século, o nome de Casement voltou a ter ventos favoráveis e os seus restos mortais regressaram finalmente à Irlanda em 1965. Lentamente, os irlandeses aceitaram que "um herói e um mártir não é um protótipo abstracto nem um modelo de perfeições, mas sim um ser humano, feito de contradições e contrastes, fraquezas e grandezas". Nada mais varguista.
Esta coluna regressa a 3 de Setembro


