Por duas vezes a realização de segunda volta nas eleições presidenciais foi particularmente importante: as derrotas de Freitas do Amaral e Soares Carneiro traduziram-se em consolidações institucionais do regime democrático e na frontal recusa de retrocessos.
Evidentemente que o barrar do caminho para Belém de personalidades que faziam correr o risco de transformar a presidência num relevante instrumento da direita foi determinante, mas as implicações da derrota não se esgotaram aí. A feliz imagem do caricaturista que num desses momentos apontou como o tripé 'uma maioria, um governo, um presidente' ficara reduzido a um 'bipé' inevitavelmente prostrado e sem hipótese de se manter erguido constituiu um retrato feliz da extensão política do revés sofrido.
Sucede que as eleições do próximo domingo apresentam, em diversos aspetos, elementos novos.
Sem excessivos otimismos, parece possível afirmar que um combate de esclarecimento com décadas ganhou finalmente uma compreensão mais alargada: na primeira volta é inteiramente irrelevante o número de candidatos. Sem lhe negar relevância política, a realidade é que pode haver só um candidato à direita e dez à esquerda (ou vice-versa!) mas o determinante é que, numa primeira volta, nenhum obtenha 50% mais um voto, não tendo qualquer importância como se dividem os outros 50 que impõem tal derrota.
Mas a realidade desta campanha e seus candidatos impõe que se dedique especial atenção ao desenvolvimento político do resultado para lá da própria escolha por ele imposta, ou, mais concretamente, em que é que o resultado condicionará a política nacional além do evidentemente importante elemento de quem se instalará em Belém. E a verdade é que, por diferenças que naturalmente existem, as candidaturas de Cavaco Silva e Manuel Alegre se expressam bastante mais nas figuras dos candidatos do que propriamente nas políticas. Antes e depois. É impossível ignorar que, lado a lado com José Sócrates, muito pouco pode separar estas três figuras no caminho que nos conduziu a onde estamos e obviamente, arrumando-se as mesmas de uma forma ou doutra, não se vislumbra como o futuro pode ser frontalmente diverso.
À candidatura de Fernando Nobre, independentemente do percurso pessoal do candidato, falta evidentemente a espessura, a densidade e consistência de uma intervenção passada e eficaz e de um programa futuro consistente e sustentável.
Chegamos assim à candidatura de Francisco Lopes. O que se aplica à importância da segunda volta é tão válido para ela como para qualquer outra (até mais) - mas com uma diferença de tomo: é que uma forte votação terá sempre, seja qual for o desenlace eleitoral, um peso político no futuro, sustentado na consistência, persistência e coerência da força política que constitui o seu principal apoio e por uma excelente e dinâmica campanha.
A questão é domingo - mas também há futuro. E aí o voto verdadeiramente útil e seguro, esse é em Francisco Lopes.
Ruben de Carvalho
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de janeiro de 2011