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24 de fevereiro de 1988 Encontro na Sala Oval

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011

Um olhar - 24 de fevereiro de 1988  Encontro na Sala Oval

Cavaco Silva, o primeiro-ministro de Portugal, deslocava-se pela segunda vez a Washington com o objetivo de vários encontros políticos, em especial com Ronald Reagan, o então Presidente dos Estados Unidos. A decisão unilateral de baixarem drasticamente as verbas a atribuir pela utilização da Base das Lajes nos Açores trouxe Cavaco de novo à Casa Branca, não para uma mera visita protocolar, mas sim para a renegociação do acordo da base açoriana.

A visita de dois dias foi uma autêntica maratona política desenrolada em várias frentes. Além do encontro com Ronald Reagan na Casa Branca, Cavaco teve ainda diversos encontros de trabalho.

Numa só manhã, na suite que ocupava no mítico Hotel Willard, conseguiu reunir-se com Frank Carlucci, secretário da Defesa e ex-embaixador americano em Lisboa, com o senador Edward Kennedy, e com o congressista luso-americano Tony Coelho. Sobrou-lhe uma parcela de tempo para se deslocar ao Capitólio, seguido de um encontro na Câmara dos Representantes e de um almoço no National Press Club.

Quase toda a visita foi ocupada com a discussão do acordo da Base das Lajes. Na sala Oval da Casa Branca reuniram-se, além dos dois líderes, o secretário de Estado, George Schultz, e o ministro Deus Pinheiro, patente na fotografia que ilustra o texto. No dia 19 de janeiro de 1989, na véspera da posse do sucessor de Reagan, o seu então vice-presidente, George Bush, foi, finalmente assinado o tão ansiado acordo. (Este álbum de memórias termina aqui um longo caminho de mais de dois anos. Manter-me-ei por aqui com outros projetos).

Texto publicado na revista Única de 19 de fevereiro de 2011

 

26 de fevereiro de 1976 O Pacto MFA/Partidos

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011

Um olhar - 26 de fevereiro de 1976  O Pacto MFA/Partidos

Decorriam os conturbados tempos do pós-25 de abril de 1974, tendo resultado desse acontecimento uma tutela político-militar, com o MFA à cabeça. A Constituição de 1975 havia sido aprovada após a assinatura do Pacto I entre o MFA e os partidos, em 11 de abril de daquele ano.

Como havia sido prometido pelos militares, o poder político iria ser devolvido aos partidos, daí que a assinatura do Pacto II fosse muito importante para a concretização desse desígnio.

A fotografia acima documenta esse ato, levado a cabo pelas 19 horas do dia 26 de fevereiro, no Palácio de Belém, sob a presidência do general Costa Gomes, o Presidente da República que havia sido indigitado pelos militares após a demissão do general António de Spínola.

Assinaram-no, além dos representantes dos militares, os partidos políticos com representação na Assembleia Constituinte, a saber: o Partido Socialista (PS), o Partido Popular Democrático (PPD), o Partido Comunista (PCP), o Centro Democrático Social (CDS) e o Movimento Democrático Português (MDP/CDE).

Aproximavam-se dois atos eleitorais de extrema relevância: as primeiras eleições legislativas, em 25 de abril de 1976, e a primeira eleição do Presidente da República (PR), em 27 de junho, pelo que havia que alterar os pressupostos constitucionais vigentes.

No Pacto I, o Presidente da República era eleito por um colégio eleitoral composto pela Assembleia do MFA e pela Assembleia Legislativa; no Pacto II, o PR passou a ser eleito por sufrágio direto e universal, retirando poderes ao Conselho da Revolução.

Texto publicado na revista Única de 12 de fevereiro de 2011

 

Fevereiro de 1992 Uma visita a Tirana

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011

Todos os muros haviam sido derrubados. No entanto, um pequeno país da Europa, a Albânia, permanecia ainda quase intocável aos novos ventos da história. Depois de uma curta passagem por Paris, onde consegui um (ainda difícil) visto na embaixada, voei para Tirana via Milão. Estava uma manhã fria, muito fria e cinzenta, no aeroporto de Rinas. Apesar dos escassos 50 quilómetros, a viagem para a cidade demorou mais de uma hora, já que as estradas e o estado do táxi não permitiam maior velocidade.

Parecia um regresso ao passado - tal e qual o Portugal dos anos 60. Não havia automóveis na estrada, apenas uns carros ronceiros puxados por esquálidos burros, dirigidos por não menos subalimentados albaneses. A paisagem, essa, era de uma beleza surpreendente, apenas interrompida pelos muitos - talvez milhares - de abrigos em betão construídos durante a segunda guerra mundial. Instalámo-nos (eu e o Daniel Ribeiro, o jornalista que me acompanhou) no único hotel - se é que podia merecer o nome - onde faltava a luz, e os quartos, sem aquecimento, nem vidros tinham, fazendo-nos tiritar de frio.

Localizado na vasta praça, de estilo arquitetónico comum nos países do Leste, onde tudo se desenrolava: uma pequena feira de produtos agrícolas, as manifestações políticas de fim de semana e o tráfico de moeda estrangeira. Viviam-se os dias das primeiras eleições democráticas depois de 50 anos de poder comunista, sob a liderança do incontestado líder Enver Hoxha desaparecido em 1985 e substituído até hoje por Ramiz Alia.

Texto publicado na revista Única de 5 de fevereiro de 2011

13 de abril de 1982 O debate dos líderes

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011

Um olhar - 13 de abril de 1982   O debate dos líderes
































Um autêntico debate de luxo, aquele que a RTP transmitiu na noite do dia 13 de abril no seu programa "1ª Página", que pôs frente a frente Mário Soares, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral e Francisco Pinto Balsemão - os quatro líderes partidários do regime democrático.

A Aliança Democrática (AD) estava empenhada na revisão da Constituição e o debate entre as forças políticas era uma necessidade, na procura dos consensos políticos desejáveis. Daí que tivessem existido algumas dúvidas na fase de preparação do debate. Já nos estúdios, Soares e Cunhal confrontados com o tema único - a revisão constitucional - discordaram, pois entendiam que os temas de política nacional deveriam também ser debatidos. Por outro lado, Balsemão e Freitas entendiam que não vinham preparados para discutir outros temas.

Enquanto as maquilhadoras davam os últimos retoques na imagem dos entrevistados e nós, os fotógrafos, captávamos a melhor imagem, nos bastidores, o presidente da RTP, Proença de Carvalho, concertava as divergências entre os líderes políticos. Ultrapassadas as dúvidas dos quatro intervenientes, o programa avançou com algum atraso, moderado pela jornalista Margarida Marante, tendo a primeira pergunta sido dirigida a Mário Soares.

A AD queria evitar a presidencialização do regime. O PS e o PCP defendiam o poder de o Presidente da República demitir o governo, de dissolver a Assembleia da República. Muito estava em causa, pois a revisão constitucional era crucial para a clarificação das políticas económicas. A extinção do Conselho da Revolução foi uma das mais importantes decisões.

Texto publicado na revista Única de 29 de janeiro de 2011

 

Julho de 1974 Os portugueses em 1974

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 26 de janeiro de 2011
































Em tempo de campanha eleitoral para as presidenciais de 2011, percorro de novo o país em busca de um certo revivalismo já (felizmente) perdido. Acompanhando um dos candidatos, mergulhei nas terras frias de Trás-os-Montes e, sem surpresa, constatei de novo que as suas gentes - naturalmente generosas e afáveis - mantêm, quase como uma herança genética, um enorme sentido crítico face aos governantes que ciclicamente continuam a incluir no seu roteiro eleitoral uma visita não mais do que fugaz.

Um dia, ainda mal acabávamos de respirar os primeiros ares da democracia, desloquei-me ao Nordeste do país, já na minha qualidade de jornalista, e vi pela primeira vez, com um olhar diferente, como era de facto o viver do povo que ali permanecia esquecido.

Rebusco no tempo essas memórias com esta fotografia, que mais parece uma cena de um filme dos anos de ouro do cinema neo-realista. Tudo é agora diferente. As vilas e aldeias vivem um ambiente em tudo semelhante ao das cidades mais desenvolvidas do litoral.

Chegar até elas é agora possível e com grande facilidade, em virtude das vias de comunicação construídas com as ajudas da Europa comunitária. Nasceram universidades que fixaram os jovens, bem como outros que de fora vieram. Adquiriu-se uma certa qualidade de vida.

O interior do país, diz-se, está a morrer de desertificação imposta pelos poderes centrais, mas ao visitar Trás-os-Montes fica-se com a sensação de que um certo progresso 'teimosamente' conseguido pelos transmontanos se tem vindo a impor aos que persistem em querer transformá-los em desempregados das grandes cidades.

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de janeiro de 2011                        

 

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Janeiro de 1984 O Grupo de Lisboa

Rui Ochôa (www.expreso.pt)
0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011



































Em vésperas de mais um congresso - o XI - aprazado para março na cidade de Braga, o PSD agita-se de novo para mudar o seu rumo, tragicamente travado na sequência da morte de Sá Carneiro em dezembro de 1980.

Mota Pinto, o líder que resultou do congresso de Montechoro, estava coligado num governo de bloco central com o Partido Socialista, e isso não agradava a muitos militantes e dirigentes do PSD, desagradados por verem o partido subalternizado.

Surgiu, por isso, um grupo político - "O grupo de Lisboa" - formado, entre outros, por Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Santana Lopes, José Miguel Júdice, António Pinto Leite e Conceição Monteiro - antiga secretária de Sá Carneiro.

A fotografia testemunha a conferência de imprensa efetuada num hotel de Lisboa, onde Marcelo Rebelo de Sousa principal porta-voz do grupo, deu a conhecer ao país (e ao partido) a intenção de levar ao congresso de Braga uma moção rejuvenescedora do programa do PSD defendendo o regresso à sua vocação bipolarizadora e maioritária.

As eleições presidenciais de 1985/6 estavam no topo das preocupações do, também chamado, grupo "Nova Esperança" em cujo documento de 67 páginas, se lia que "a eleição do próximo presidente - que deverá ser um civil - é uma ocasião para provocar uma alteração das práticas mais erradas da nossa vida política".

Um ano depois, na Figueira da Foz, a "Nova Esperança" seria determinante para a eleição do novo líder do PSD, Aníbal Cavaco Silva.

Texto publicado na revista Única de 15 de janeiro de 2011

Janeiro de 1978 O Governo Soares/Cunhal

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011

Um olhar - Janeiro de 1978  O Governo Soares/Cunhal
































Foi um fim de semana de grande frenesim político para o Partido Comunista Português (PCP), que efetuou três comícios: um em Matosinhos, outro em Aveiro e, finalmente, o maior de todos, com mais de dez mil militantes presentes, em Lisboa, na Praça de Touros do Campo Pequeno. Tratava-se de uma forte ofensiva política para responder às tentativas de concretizar um Governo de esquerda com o Partido Socialista (PS) e o PCP.

O Governo (o primeiro Constitucional) de Mário Soares havia caído após uma moção de censura, e o Presidente da República Ramalho Eanes, após ter indigitado de novo Soares como primeiro-ministro, iniciou uma série de consultas aos partidos políticos para conseguir uma saída democrática da crise.

Todas as fórmulas estavam em cima da mesa presidencial: um Governo PS com o PSD (então ainda PPD); um do PS com o CDS (de Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa); ou (imagine-se possível) um Governo Mário Soares e Álvaro Cunhal, ou seja, PS com PCP.

Esteve quase a acontecer, mas os desacordos programáticos eram de tal forma que, no fim de semana a que reporta a fotografia, já Álvaro Cunhal, no Campo Pequeno, transmitia a sua desilusão aos militantes declarando: "Dissemos que estávamos prontos a considerar um Governo PS com personalidades e outras pessoas, mas não damos cobertura a um Governo que englobe o PSD ou o CDS. (...) Se esse namoro se concretizar, o PCP não será o padrinho."

Mas o segundo Governo Constitucional não demoraria muitos dias a ser anunciado por Belém. O Governo de coligação PS/CDS acabara de nascer.

Texto publicado na revista Única de 8 de janeiro de 2011

 

3 de janeiro de 1980 Sá Carneiro e Ramalho Eanes

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011

Um olhar - 3 de janeiro de 1980 Sá Carneiro e Ramalho Eanes

































As eleições haviam ocorrido em 2 de dezembro de 1979 com uma vitória histórica (com maioria absoluta) da Aliança Democrática (AD) protagonizada por Francisco Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Gonçalo Ribeiro Telles.

O país viveu no verão daquele ano mais uma das suas habituais crises, o que levou o Presidente da República, Ramalho Eanes, a nomear a engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo como a primeira mulher no cargo de primeiro-ministro, até que se efetuassem eleições antecipadas. A imagem documenta o ato de posse do 6º Governo Constitucional ocorrido em 3 de janeiro de 1980, e a avaliar pelos semblantes carregados dos presentes não deixava antever, nos tempos mais próximos, um clima de relacionamento fácil. As eleições presidenciais estavam previstas para dezembro de 1980 e Sá Carneiro persistia na sua ideia: um governo, uma maioria e um presidente.

O país estava de luto pelo ocorrido nos Açores no primeiro dia de janeiro. Várias pessoas sucumbiram ao terramoto e o general Ramalho Eanes não deixou de o referir no discurso de enquadramento da cerimónia, no qual disse ainda: "Conhecem vossas excelências e, em especial ,o senhor primeiro-ministro, as ideias políticas pelas quais se norteia a minha ação como Presidente da República."

As coisas não correram bem e, antes mesmo de Eanes se sujeitar ao voto que lhe daria o seu segundo mandato presidencial, ainda teria de convocar novas eleições para o dia 5 de outubro desse ano, que a AD também venceu.

Texto publicado na revista Única de 30 de dezembro de 2010

13 de dezembro de 2007 O eixo franco-alemão

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 29 de dezembro de 2010

Um olhar - 13 de dezembro de 2007  O eixo franco-alemão
































Sob o espetro do "não", foi aprovado com grande aparato mediático o "Tratado de Lisboa", que, por via da circunstância de ser aprovado durante a presidência portuguesa da UE, tomou o nome da cidade que o acolheu, Lisboa.

O tratado foi aprovado numa cerimónia efetuada nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, tendo, uma a uma, as delegações dos 27 países membros sido chamadas a colocar a sua assinatura. Faltou o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, mas à hora do almoço, no Museu dos Coches, respondeu, finalmente, à chamada e deu o seu sim ao tão esperado acordo, que teve que esperar 15 anos para este momento histórico.

Pese embora o facto de existir acordo entre todos os dirigentes políticos, a ratificação do documento dependia do sim (ou não) dos respetivos Parlamentos, ou, numa situação mais temida, de referendos, como era caso de Portugal. O primeiro-ministro português, José Sócrates, tinha um problema: a sua campanha eleitoral em 2005 ia no sentido de prometer o referendo ao eleitorado.

Como se sabe, tudo se resolveu em bem e o acordo acabou por ser, mais tarde, aprovado no nosso Parlamento. Angela Merkel e Nicolas Sarkozy e demais líderes europeus encaminharam-se para o exterior para a fotografia de família, como é da praxe nestas cimeiras. Como se pode ver na minha fotografia, os dois caminham de braço dado, alegres e sorridentes. Não se sabe porque sorriem, mas dá para imaginar. Talvez porque a chanceler alemã, grande entusiasta do acordo, se sinta feliz.

Texto publicado na revista Única de 23 de dezembro de 2010

Dezembro de 1983 Os portugueses e os anos 80

Rui Ochôa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 22 de dezembro de 2010

É cíclico. Portugal e os portugueses são confrontados regularmente com a realidade de um país pobre e que não se basta a si próprio.

Ancestralmente um país inadaptado, cuja economia padece de um mal permanente de penúria tornando-nos num povo triste (fotografia) e descrente. Foi assim na confusão da primeira República, foi assim no tempo do Estado Novo e desabou logo a seguir ao 25 de abril, transformando-se num país sem recursos, atrasado em relação aos seus parceiros europeus obrigando o seu povo a recorrer à emigração como única escapatória da miséria e da exclusão. Em abril de 1975, a democracia herdou um país exaurido e isolado, após uma guerra colonial de mais de uma década que obrigava a desviar recursos que não tínhamos.

O período que se seguiu à implantação da democracia constitucional não foi de novo fácil, pois o tecido económico foi destruído com o encerramento de muitas empresas, que a revolução tornou desadaptadas aos novos ventos que percorriam o país. Foi um longo período de dificuldades: de desemprego, de míngua - até de bens de primeira necessidade estivemos privados - o que levou o FMI, e a senhora Minassian, a entrar por aqui dentro para pôr as contas na ordem.

Portugal era regido por um Governo do chamado Bloco Central e houve que tomar medidas dolorosas sob a batuta eficaz do então ministro das Finanças, Ernâni Lopes. Entrámos na CEE e voltámos a sorrir com a chegada de dinheiro fácil que tudo nos fez esquecer. E, como é cíclico, voltámos a puder respirar até ao final dos anos 90.

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