20 de junho de 2013 às 0:28
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Uma noite no Brasil

De como o país do futuro se adia no embalo das canções.
Inês Pedrosa (www.expresso.pt)

Quando éramos jovens passávamos horas de melancólico êxtase a folhear o futuro. Imaginávamos o que faríamos e onde estaríamos em adultos - e no meio desse imaginar íntimo, feliz e aflitivo, entretínhamo-nos também a futurar sobre os outros. Era muito mais fácil e lúcido futurar sobre o que não nos tocava directamente. Fazíamos contas à maturidade - adorávamos Mozart, Rimbaud, Carson McCullers, Pavese e Pessoa porque eram uma explosão absoluta sobre as desesperantes teorias dos mais velhos - com raras e gloriosas excepções - sobre a evolução da sabedoria ao longo do tempo de uma vida. Aos vinte anos, acreditávamos que existia já em nós tudo o que poderíamos ser e fazer. Perto dos cinquenta, é isso que continua a unir-nos, aos que ainda estamos vivos. É isso também o que mantém os nossos mortos connosco; quando os sonhos parecem falhar-nos ou amarelecer, lembramo-nos desses que regressaram ao silêncio das estrelas de que somos feitos, e entregamo-nos à luz do mundo de corpo inteiro, outra e outra vez.

Somos agora mais impacientes do que éramos aos vinte anos - não aceitamos frases como "um dia destes" ou "há tempo". Temos a noção precisa de que podemos morrer a qualquer minuto. A frequência regular dos cemitérios é um poderoso acelerador da consciência, do amor e da distinção entre o essencial e o acessório. Não inventamos pretextos para nos adiarmos - essa é a única maturidade que alcançámos, a única que desejámos, felizes por termos conseguido manter intacta a ingenuidade e a capacidade de deslumbramento debaixo do fogo cerrado do cinismo que serve de ritual de passagem para a suposta idade madura. Envelhecer não significa necessariamente embrutecer - deixar de chorar desconsoladamente e de rir às gargalhadas, deixar de acreditar na força transfiguradora da paixão e na possibilidade de um mundo melhor, deixarmos de dizer o que pensamos e agir exactamente de acordo com isso. O corpo pode correr menos - mas abraça melhor, com mais vagar, porque em cada afago florescem todos os afagos anteriores, os reais e os sonhados.

Houve certamente uma noite na juventude de cada um de nós em que tudo o que iríamos ser fulgiu, relâmpago definitivo. É esse o encanto de "Uma noite em 67", um filme de Ricardo Calil e Renato Terra, agora estreado no Brasil, sobre um festival de um canal televisivo que simbolizou o início do Tropicalismo, mas representou bem mais do que isso - o arranque de uma revolução política e cultural que continua em marcha, no Brasil e no mundo. O Brasil é já uma nação líder no que se refere à reformulação dos modos políticos e económicos do mundo; cresceu exponencialmente do ponto de vista económico, cresce devagar mas visivelmente nos índices da educação e está no pódio olímpico da criatividade e do empreendedorismo. Mantém registos de um arcaísmo trágico no que diz respeito a direitos humanos básicos (como a proibição radical da interrupção voluntária da gravidez, responsável por milhares de mortes entre as mulheres pobres, que são a vasta maioria) e a regras democráticas (a proibição de caricaturar os candidatos à Presidência é um exemplo máximo, estranhíssimo num país que exporta, além de excelente música, iluminado humor). "Uma noite em 67" ajuda a explicar a falta de intervenção cívica dos artistas brasileiros nestas matérias: as canções agitam e acalmam, em simultâneo. Por isso, a mudança inaugurada pelo tom e o timbre pode circunscrever-se a isso mesmo. Naquela noite, subiram ao palco Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Roberto Carlos - todos com vinte e poucos anos, todos já aquilo que seriam. Caetano, destoando deliberadamente na cerimónia dos smokings com o seu casaco de xadrez, entrou com pés de lã e pose tímida, tomou conta de um público ululante e vaiador e levou-o a comer-lhe à mão. A liberdade radical do seu olhar domina o filme - igual em 1967 e em 2010. Chico contará como de repente se sentiu velho, posto de parte pelos tropicalistas conjurados para o futuro; Gil contará que foi arrastado por Caetano para a aventura da contestação. Chico fechar-se-ia nas artes, Gil sambaria com o poder - só Caetano continua ainda a tentar mudar a cabeça do Brasil. Agora envolve-se na campanha de uma das candidatas à Presidência - Marina Silva. Os outros preferem não apoiar ninguém, porque todos deixam a desejar. Caetano não se acomoda à música: incomoda-se a trabalhar pela mudança possível. Falta ao Brasil uma elite capaz de se incomodar.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição da Única de 4 de setembro de 2010

Comentários 2 Comentar
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Bom dia Inês
Bom dia Inês,

Nao tenho nada a referir sobre este artigo, mas aproveito o facto de me ter finalmente registrado para lhe dizer que gosto muito do que escreve, da maneira como escreve e do que pensa. Nao concordo sempre, mas acho que a Inês é extremamente inteligente e detem uma lucidez humana invejável.

Boa sorte para o futuro, cumps,
Sara Antunes
Belo artigo, mas...
Muito bem arranjado o artigo, mas como brasileiro, porém sem "patriotada", não posso concordar com a claudicância de nossa democracia. A proibição veio do judiciário, mas por ser absurda, já caiu. Realmente economicamente crescemos exponecialmente e educação muita coisa precisar ser feita. De resto, parabéns, muito bacana o artigo.
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