A jovem, de 24 anos, vai agora viver na Holanda, onde vai estagiar na agência de fotografia Noor. Ainda assim, tem arranjado tempo para desenvolver um projecto sobre a Praça da Fruta e quer dedicar-se a causas humanitárias.
"Everlasting as days can be" assim se designou a exposição de fotografia da caldense que acabou por ser também o projecto final da pós-graduação em Photography Studies na Central Saint Martins. O trabalho traduziu-se em 43 imagens publicadas num livro, editado especificamente para ser apresentado na exposição promovida por aquela universidade.
Na exposição "Photography" - mostra colectiva dos trabalhos finais - inaugurada no dia 18 de Junho, num dos edifícios da faculdade no centro de Londres (na área do Soho), estiveram expostas seis imagens do projecto, para além do livro.
"A exposição correu muito bem e foi muito gratificante observar as reacções dos visitantes", contou Inês Querido, acrescentado que entre os convidados havia uma grande diversidade de nacionalidades e de culturas. "Foi curioso constatar que, apesar de a maioria não estar familiarizada com o imaginário do projecto, apreciaram a abordagem e acabaram por se sentir de alguma forma identificados", contou. Os convidados dos países mediterrânicos manifestaram uma identificação imediata com observações à autora como frases deste tipo: "estes telhados, estas paisagens, podiam tão bem ser em Itália" ou "a tua avó parece uma avó italiana"...
A jovem caldense fica sempre impressionada com a capacidade que a fotografia tem de transcender a circunstância do que está representado. "Por mais pessoal que seja o projecto ou o objecto representado, é sempre possível a sua "apropriação" por quem o vê, independentemente da sua cultura ou lugar de origem, acabando por ocorrer quase inevitavelmente algum tipo de identificação, talvez porque todos tivemos infância e avós", disse.
O livro referente ao projecto "foi muito bem recebido", e é encarado pela autora como "maquete" de uma edição mais a sério que gostaria de fazer num futuro próximo e que está a apresentar a várias editoras.
"Preservar a memória que se perde por erosão do tempo"
Quando apresentou a sua candidatura para a pós-graduação propôs-se a trabalhar o conceito da "verdade na fotografia", mas na altura da primeira dissertação começou a ter dúvidas. O projecto surgiu-lhe devido a um conjunto interessante de factores. Na altura encontrava-se a ler a poesia completa de Jorge Luís Borges "e andava fascinada com a temática da memória, muito associada na sua obra à perda de visão".
Quando soube que uma pessoa próxima tinha perdido temporariamente a visão, pensou abordar o tema da memória na perspectiva da sua perda por incapacidade física, mas mais tarde concluiu que não era sobre doenças ou incapacidades físicas que queria falar: "O que me interessava era preservar a memória que se perde por erosão do tempo que passa", contou.
Inês Querido cresceu a percorrer o caminho que separa a sua casa do lar dos seus avós, em Salir de Matos. Foi ali que passou os seus primeiros dias, onde deu os primeiros passos e onde aprendeu a andar de bicicleta. "Todo aquele imaginário - a casa, o largo da igreja, a eira, as fazendas - faz parte das minhas memórias mais antigas e é lá que encontro todo o conforto da infância", disse a autora. No fundo, é a fotografia que permite "regressar aos lugares de onde viemos para não nos esquecermos de quem somos". E foi isso que quis documentar - a serenidade da rotina dos seus avós e preservar a imagem da casa como se encontra agora e como a quererá sempre recordar.
"Os meus avós em Londres"
"A viagem dos meus avós a Londres foi memorável". Inês Querido queria mostrar ao casal o trabalho exposto, mas para evitar emoções demasiado fortes, "disse-lhes previamente que as fotografias que ia ter expostas faziam parte das que tinha andado a tirar lá por casa". A visita à exposição foi cheia de emoções: "Inicialmente ficaram incrédulos quando viram momentos do seu quotidiano nas paredes de uma universidade inglesa". Minutos depois, recordou Inês Querido, "já a minha avó contava orgulhosa, a história da gata de uma das fotografias". A jovem caldense ficou feliz com a reacção dosa vós e em especial com o facto "de terem gostado genuinamente do trabalho".
Enquanto fez a pós-graduação, a caldense trabalhou em Londre como assistente do fotógrafo David Balhuizen e, aos fins-de-semana, numa galeria de arte. Mas tem tempo para não descurar os seus projectos pessoais: "nos últimos meses tenho andado a fotografar a Praça da Fruta e estou a reunir material para apresentar brevemente um trabalho fotográfico sobre aquele espaço", disse.
A pós-graduação terminou em Junho e Inês Querido vai agora estagiar na agência de fotógrafos Noor em Amesterdão. Quanto ao futuro, está cada vez mais focada na fotografia de documentário e "vou continuar a construir um portfolio nesse sentido".
Tem também alguns projectos que envolvem parcerias com organizações humanitárias, de preservação da cultura e do ambiente.
Regressar a casa está sempre nos planos a curto prazo, "mas apenas para descansar, matar saudades e recarregar baterias para a etapa seguinte", contou. Para já, diz que é impossível pensar a longo prazo pois cada passo em frente é uma conquista, "mas sem certezas quanto à direcção do passo seguinte". Espera, no entanto, conseguir criar as bases que lhe possibilitem viver onde quiser. Para saber mais sobre os projectos desta autora consultar o site www.inesquerido.com