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Uma Cama para um Rei

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Há noventa e dois anos, Gaby Deslys, cantora e dançarina de variedades, descia à terra no Cemitério de Saint-Pierre em Marselha. Deixava por rasto um aroma de escândalo e patchouli, e a interessante suspeita, mais ou menos infundada, de ter devorado boa parte das jóias da Coroa de Portugal. Era uma rapariga franzina, e talvez formosa, mas não bela, que cumpria a carreira das grandes horizontais, a de entreter com a sua frivolidade os membros da realeza da Europa, afectos à boémia pós-vitoriana, e mais preocupados com o estômago e o falo do que com a responsabilidade a que o poder os chamava.

O nosso D. Manuel II conhecê-la-ia em Dezembro de 1908, e durante uma viagem estatal, quando dois validos seus, incorporando o sobressalto da Casa de Bragança perante os indícios da frouxa virilidade do soberano recém-ungido, decidiram arranjar-lhe a entrevista determinante. Os encantos, e a astúcia, da já por então adestradíssima Gaby haveriam de surtir o efeito desejado, mas também o que não se previra, a fixação do jovem nos braços de quem se lhe propusera como pura receita de ocasião. E mais advertido do que os restantes áulicos, averbava a propósito Thomaz de Mello Breyner, médico da Família Real Portuguesa, a sua apreensão de que acabasse a "mulherzinha" por "estafar o pobre rapaz".

Mas de uma esplêndida cama é que se tratará aqui, simbólica desse amor clássico de príncipe e corista, posto que no caso se reunissem nesta as básicas condições para ascender, do plano da discípula ao da cabeça-de-cartaz. O leito de Gaby Deslys, porventura insuportavelmente kitsch, e mesmo na época em que a cortesã o escolhera, talhava-se na forma de um hierático cisne, semelhante aos que espelhavam as simpatias góticas de Luís II, da Baviera. Feito de molde a que nele se beberricassem tacinhas de champagne entre mordidelas de marrons glacés, mostrava-se suficientemente vasto para receber um colégio de cardeais, e para facultar espaço a inúmeras acrobacias. E guardá-lo-ia Gaby até à morte, espécie de referente da monumentalidade do novo século, equiparável aos Inválidos, e admirado por isso pelo tout Paris.

Com o falecimento da cocotte, e enrolado com outros itens do recheio da sua mansão, legados aos indigentes de Marselha, não se revelaria menos pitoresco o destino do sumptuoso traste. Arrematado em hasta pública por um estúdio de Hollywood, daqueles que ao tempo investiam em opulentas produções históricas, emergiria aos olhos do mundo num dos maiores clássicos de sempre, Sunset Boulevard, de Billy Wilder. E nele se distenderia, crispada em gesticulação hiperbólica, a neurótica Florence Desmond, estrela do mudo que não consegue transitar ao sonoro, representada pela enorme Gloria Swanson. Amante oficial do pai Kennedy nessa altura, e mais tarde proprietária de uma moradia na Praia das Maçãs, de número e endereço registados na lista telefónica, dividia a actriz, encarnando Florence, aquele erótico mamarracho com um macaquinho suspeito de indizíveis perversões.

Onde parará agora a lendária peça, museu ou colecção privada, eis o que se entrega ao exercício da imaginação de cada qual. Não se duvide porém de que se encaixará ela, e até à consumação das eras, no inconsciente colectivo caucasiano a que fatalmente pertencemos.


Opinião


Multimédia

Edwin. O rapaz que aprendeu a sonhar

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Todas as ilhas têm a sua nuvem

Raul Brandão chamou-lhe 'A Ilha Branca'. Como viajante digo que tem um verde diferente das outras oito que com ela formam o arquipélago dos Açores. É tenra, mansa, repousante e simultaneamente desafiante. Esconde segredos como a lenda da Maria Encantada e um vulcão florestado a meio do século passado que nos transporta para uma dimensão sulfurosa e mágica. Obrigatória para projetos de férias de natureza.

Em três quartos de hora não se esquece só a idade. "Esquece-se o mundo"

Maria do Céu dá três voltas ao lar sempre que pode. Edviges vai a todos os velórios, faz hidroginástica e sopas de letras. António dá um apoio na Igreja e nos escuteiros. Tudo é uma ajuda para passar os dias quando se tornam todos iguais. No Pinhal Interior Sul, a região mais envelhecida da União Europeia, quase um terço da população tem mais de 65 anos. Os mais velhos ficaram, os mais novos partiram.

Profissão: Sniper

O Expresso foi ver como são selecionados, que armas usam, para que missões estão preparados os snipers da Força de Operações Especiais do Exército. São uma elite dentro da elite. Um pelotão restrito. Anónimo. Treinam diariamente com um único objetivo: eliminar um alvo à primeira, mesmo que esteja a centenas de metros. Humano ou material. Sem dramas morais, dizem.

Xarém com conquilhas

Especialista em pratos de confeção acessível, com ingredientes ao alcance de qualquer pessoa, Tiger escolheu a gastronomia como forma de estar na vida. Veja, confecione, desfrute e impressione com esta nova receita.

O que se passa dentro da cabeça dele

O que leva um tipo a quem iam amputando uma perna a regressar ao sítio onde os ossos se desfizeram, uma e outra vez, e testar os limites do seu corpo? Resposta: a busca pelo salto perfeito, que ele diz existir dentro dele e que ele encontrará mais dia menos dia. É a fé e a confiança que o movem e o levam a pular para lá do que é exigido a um campeão olímpico e mundial que não tem mais nada a provar a ninguém - a não ser a ele próprio. Este é um trabalho que publicámos em agosto de 2014, quando o saltador se preparava para os Europeus e falava das metas que tinha traçado para 2015 e 2016: mostrar que não estava acabado. Sete meses depois, provou-o no Europeu de pista coberta em Praga, onde venceu este fim de semana.

Amadeu, que aprendeu o mundo no campo e tinha o coração na ponta dos dedos

Em Portugal, a dedicação à língua mirandesa tem nome próprio: Amadeu Ferreira, o jurista da CMVM que - quando todos diziam que "era uma loucura impossível" - arranjou tempo para traduzir "Os Lusíadas", a "Mensagem", os quatro Evangelhos da Bíblia e ainda duas aventuras do Asterix para uma língua que pertence a um cantinho do nordeste português e é falada por menos de 15 mil pessoas. No final de 2014 deu ao Expresso aquela que viria a ser a sua última entrevista. Morreu no passado domingo e esta quinta-feira foi lançada a sua biografia, "O fio das lembranças", com quase 800 páginas.

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O júri do World Press Photo queria dar o prémio maior da edição deste ano (e talvez das edição todas) a uma fotografia com "potencial para se tornar icónica". A primeira imagem desta fotogaleria, por ser "esteticamente poderosa" e "revelar humanidade", é o que o júri procurava. A fotografia de um casal homossexual russo, a grande vencedora, é a primeira de 16 imagens de uma seleção onde há Messi desolado, migrantes em condições indignas no Mediterrâneo, a aflição do ébola, mistérios afins e etc - são os contrastes do mundo.

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Elvis. Gostamos ou não gostamos?

Ele não é consensual, mas é incontornável. Dispunha de penteado majestoso e patilha marota, aparentava olhar matador e pose atrevida. E deixou canções: umas fáceis e outras nem tanto, por vezes previsíveis e às vezes inesperadas, ora gentis ora aceleradas. E ele, Elvis, nasceu em janeiro de 1934 - há precisamente 40 anos, ao oitavo dia. Temos quatro textos sobre o artista: Nicolau Santos, Rui Gustavo, Nicolau Pais e João Cândido da Silva explicam o que apreciam, o que toleram e o que não suportam.

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Florence?!?
É "Norma" Desmond!!! Com a idade também já começo a ter falhas de memória, mas essa é de palmatória...

Re: Uma Cama para um Rei
Quer isto dizer que há Reis devassos? Claro, são apenas homens, mas os sacrifícios e os riscos (de morte!) que fizeram por Portugal cobrem os deslizes em que a natureza os fez cair.

E os republicanos são menos devassos?

A questão é simples:
O povo não deixa de comer porque o Rei é devasso,

Mas os filhos da república passam FOME, por a república ser corrupta!!

"Did I make my self clear?".
Re: Uma Cama para um Rei
Re: Uma Cama para um Rei
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Re: Uma Cama para um Rei
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Re: Uma Cama para um Rei
Re: Uma Cama para um Rei
Re: Uma Cama para um Rei
Re: Uma Cama para um Rei
Re: Uma Cama para um Rei
Re: Uma Cama para um Rei
Interessante crónica
Retrata bem a decadência moral, embora luxuosa, em que viviam as classes dirigentes de então (e onde vivem as classes dirigentes actuais), quer sejam da monarquia ou da república. As Idades de Ouro são raríssimas e, quando ocorrem, é porque a decadência dos costumes é diminuta ou quase residual, O desregramento dos costumes, a perversão sexual autorizada e aceite como normal, o burlesco e o grotesco (restaurantes a exibir famintos fechados em caixas de vidro enquanto os clientes refastelavam-se com os seus banquetes) caracterizaram a Berlim dos anos 20 e 30, em plena crise económica. Esse "Berliner Luft" pestilento levou à ascensão do nazismo. O pintor alemão George Grosz retratou bem essa época e essas gentes doentes e perversas. Um dia perguntaram-lhe por que razão retratava essas pessoas como gordas, feias e com feições animalescas, quando, em geral, os cidadãos de Berlim não assim tão feios. O pintor respondeu que ele as via como eram por dentro, e por isso retratava-as com rostos de porcos.

A perversão e a decadência moral das "elites" são o primeiro passo para os regimes totalitaristas. Pode levar décadas, mas essa "gente" tem muita paciência ...
Re: Interessante crónica
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