26/05/2012 atualizado às 23:47

Uma biografia de Salazar em 36 volumes

Exemplar único, são mais de 15 mil páginas, guardadas na Torre do Tombo, com milhares de fotografias e recortes de jornais. Texto está escrito à mão e termina em 1956. O autor, Frederico Abragão, era engenheiro na CP. Clique para aceder ao dossiê Salazar morreu há 40 anos

José Pedro Castanheira (www.expresso.pt)
9:49 Segunda feira, 2 de agosto de 2010
Os 36 volumes da biografia de Salazar numa estante da Torre do Tombo
Os 36 volumes da biografia de Salazar numa estante da Torre do Tombo
José António Silva (fotos cedidas pelo MC / DGARQ / ANTT)

Chama-se "Salazar. A Vida. A Obra. A Doutrina" e o autor é Frederico de Quadros Abragão (1893-1960), engenheiro civil, alto funcionário da CP e residente em Lisboa. Durante mais de uma dúzia de anos, até meados dos anos 50, recolheu todo o material possível e foi escrevendo, à mão e a tinta azul, sobre o Presidente do Conselho. "Como me lembrei eu de fazer isto? Nem eu sei bem. Para quê? É difícil também dizer", explicou ao amigo e colega José Filipe Barata, que mostrara vivo interesse pela iniciativa. "Sempre gostei muito de escrever; sempre tive a mania das notas e apontamentos", adianta, em carta de 1 de dezembro de 1943, que se encontra anexa ao 1º volume e na qual confessa ter sido uma forma de prestar "homenagem" a Oliveira Salazar.

À laia de prefácio, o autor escreve: "(...) durante alguns anos colecionei, sem uma finalidade definida, tudo o que me passou à mão, ou pude obter, referente a Salazar: discursos seus, enquanto não foram publicados em livro, apreciações de diversas personalidades, recortes de jornais, notas de livros, etc. Colecionei, mas sem ordem nem metodização: limitei-me a guardar, é mais bem dito. O que agora pretendo fazer é dar a essas notas uma arrumação melhor." As notas, recortes e fotografias, organizadas de acordo com um índice, servirão para "estudar em pormenor tudo o que a Salazar diz respeito e lhe ficamos devendo".

Ou seja, "a ordem, nas ruas e nos espíritos, a situação financeira, o progresso material, a organização do país, o prestígio no mundo, o respeito entre as nações, até a curiosidade com que nos olham e estudam, para nos louvar ou combater, e, acima de tudo, a paz, a confiança, a fé, a esperança".

Uma das páginas manuscritas a tinta azul
Uma das páginas manuscritas a tinta azul

Livros de Christine Garnier e António Ferro


Como epígrafe, escolheu duas citações do cronista João de Barros, do livro "Panegírico do Rei D. João III". Segue-se uma vasta bibliografia, de que fazem parte obras como "As Minhas Férias com Salazar", de Christine Garnier, "Homens e Multidões", de António Ferro, ou "Salazar e a Verdade", de Costa Brochado. Vem depois uma cronologia da vida pública de Salazar, com início a 12 de junho de 1926, data da primeira posse como ministro das Finanças. A cronologia acaba a 22 de abril de 1955, com a visita a Lisboa de João Café Filho, Presidente da República do Brasil.

O texto, contudo, recua a 28 de abril de 1889, data de nascimento do fundador do Estado Novo. O engenheiro da CP descreve a casa paterna do Vimieiro, "modesta e pequenina, de um modesto e pequenino povoado". A primeira fotografia é, aliás, daquela casa, seguindo-se um recorte de uma imagem dos pais.

Queixas do Secretariado de Propaganda Nacional


É praticamente impossível contabilizar o número de páginas dos 36 volumes, mas são seguramente mais de 15 mil. Em muitas delas, o autor colou milhares de recortes de publicações e de fotografias. Núcleo colecionado a partir de 1943, as fotos estão devidamente legendadas e têm a assinatura de nomes como San Payo e Rosa Casaco, havendo ainda reproduções de retratos de Salazar executados pelos pintores João Reis e Henrique Medina.

Os recortes são sobretudo de jornais: "Diário de Notícias", "Diário da Manhã", "O Século", "Diário de Lisboa", "República", "Comércio do Porto". Outras publicações são: "Flama", "Bandarra", "Brotéria", "A Noite", bem como "The Times" e "Anglo-Portugueses News". Se não há mais, a responsabilidade é do Secretariado de Propaganda Nacional, de quem Abragão se queixa amiúde, pela dificuldade colocada na obtenção de material.

Jamor: "Um belo estádio com um tapete como nunca vi"


O 1º volume tem cerca de 250 páginas; nele se adverte que "o que escrevi está tal qual me saiu da pena, sem revisão; portanto, com deficiências de redação, de gramática e até talvez de ortografia". O 2º volume dedica largo espaço ao atentado a Salazar, a 4 de julho de 1937. O 6º volume é dedicado ao Ministério das Colónias e o 7º e o 8º ao Ministério dos Estrangeiros - pastas que Salazar acumulou durante algum tempo com a Presidência do Conselho.

Seguem-se vários volumes sobre o tema "Realizações". Destaque inevitável para as Comemorações Centenárias e para a Exposição do Mundo Português.    

Ilustradas, lá estão a "maravilhosa 'estrada marginal' de Lisboa", o "monumental viaduto de Alcântara, na autoestrada de Lisboa a Cascais", "palácios como o da Casa da Moeda e da Estatística" e o Estádio Nacional - "obras que marcam e definem uma época".

Deste último disse o árbitro inglês J. Wiltshire, que dirigiu um Portugal-Espanha: "Um belo estádio, com um tapete de relva como ainda não vi igual." A mostra, que procura ser exaustiva, inclui dezenas de novos edifícios dos CTT, escolas e seminários, pousadas e hospitais, bairros de casas económicas, a colónia de férias da FNAT na Costa da Caparica, a restauração do Castelo de São Jorge. Na parte relativa à economia, são tratados temas como o bacalhau, o arroz, a batata e o trigo.

Duas (esta e abaixo) das muitas fotografias colecionadas durante mais de uma década
Duas (esta e abaixo) das muitas fotografias colecionadas durante mais de uma década

"A nossa censura é muito restrita"


"Portugal não é totalitário", opina Frederico Abragão na incursão que faz pela organização política e corporativa, onde estabelece a diferença com os regimes "russo, italiano e alemão". Acerca da língua portuguesa, cita o elogio de Fernando Emygdio da Silva sobre Salazar: "Sabe escrever como os melhores da era de Setecentos: na arquitetura viril, na precisão latina, no colorido vivo, na elegância serena dos seus conceitos profundos e do seu estilo translúcido." Há ainda elogios em verso: o poema de Pedro Homem de Mello "Mensagem (a Salazar)" e o soneto "Um Homem" de João Bispo. As relações com a imprensa merecem três escassas páginas.

Numa entrevista à revista "Les Nouvelles Littéraires", o ditador afiançou: "A nossa censura é muito restrita; não é uma censura de ideias, mas uma censura de factos. Quero dizer, em Portugal, se se não deixa a liberdade de escrever coisas falsas, não se toca nunca na de formular os juízos, que se queira, sobre factos verdadeiros."

Algo surpreendente é o 19º volume, quase todo dedicado às eleições presidenciais de 1949, disputadas por Carmona e Norton de Matos. Nos muitos recortes, há intervenções de Cunha Leal, uma das vozes mais aguerridas da Oposição, bem como uma notícia do grande comício do Porto, a 23 de janeiro, presidido pelo próprio Norton de Matos. Igualmente inesperada é a inclusão, noutro volume, de um exemplar do "Metanoia", um boletim católica muito crítico do regime e dirigido pelo padre Alves Correia.

"Para lembrança perpétua"


Uma biografia de Salazar em 36 volumes
A leitura do 34º volume permite entender o fim súbito da biografia mais de vinte anos antes da morte do biografado. Em abril de 1951 faleceu o Presidente Carmona. Numa mensagem lida aos microfones da Emissora Nacional, Salazar exprimiu "a sua resolução inabalável de não aceitar a sua eleição para a Presidência da República".

Abragão interpretou (erradamente) esta decisão como o anúncio da retirada da vida política. Profundamente desiludido, escreve: "Encerra-se um grande, um glorioso capítulo da História Nacional. Outros se vão abrir. Mas, uma vez afastado Salazar do primeiro plano da cena política, dou estas notas por findas, deixam de ter razão de ser." Ao registar a candidatura de Craveiro Lopes a Belém, o biógrafo confirma: "Com esta notícia considero encerrado o período glorioso da nossa História, a que presidiu Salazar, e com ela encerradas estas notas."  

Só que a biografia não acaba aqui: faltam ainda dois grossos volumes. O recorte mais recente parece ser do "Diário de Notícias" de 28 de junho de 1956: uma crónica de Paris, "A Rã Que Se Toma por Um Boi". O 36º e último volume termina com as comemorações do "25º aniversário da governação", a 27 de abril de 1953. Destaque para a reportagem da "Flama", com o título "Ad Perpetuam Rei Memoriam" ("Para Lembrança Perpétua do Facto").  

Assunto arrumado


A Torre do Tombo herdou esta obra do extinto Secretariado Nacional da Informação (SNI) em data incerta. Embora praticamente desconhecida dos investigadores, Salazar viria a saber dela. Em conversa com o amigo e colega José Filipe Barata, Abragão revelou-lhe este hóbi, que lhe consumia os "domingos e feriados". Barata não guardou segredo e confiou-o a António Homem de Mello. Com acesso direto a Salazar, Homem de Mello pediu a Abragão que redigisse uma "espécie de nota explicativa" para o Presidente do Conselho. Nessa nota, Abragão acentuava a tónica da "homenagem, silenciosa, recolhida e por isso ainda mais sincera, a esse homem superior, extraordinário". Salazar respondeu positivamente a 3 de fevereiro de 1944: os materiais de arquivo "podem ser postos à sua disposição para consulta" na própria residência oficial.

"Condição essencial para isto é apenas que eu não tome conhecimento (...) É preciso que os investigadores de boa-fé não sejam sequer sugestionados e se sintam livres de toda a influência estranha." Salazar enfatiza: "Interessa-me sumamente a verdade e que cada um, conhecida a verdade, faça o juízo que entender. Já não tenho paciência nem tempo para atender a mania portuguesa da discussão e da crítica." "Como no arquivo há evidentemente documentos secretos, o ponto de partida é a inconcussa seriedade da pessoa em questão - seriedade e patriotismo."  Abragão recusou-se a vestir a pele de investigador e admitiu que a sua nota "não tenha sido bem compreendida". O amigo José Barata escreveu nova carta, que Homem de Mello voltou a fazer chegar a Salazar. Este, porém, deu "o assunto por arrumado".


Texto publicado no Actual da edição do Expresso de 7 de Junho de 2008

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Eu bem digo que esse gajo qualquer dia ressuscita.
Mordaquikesaileite (seguir utilizador), 2 pontos , 10:31 | Segunda feira, 2 de agosto de 2010
Aukistuxego...
 
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Obra edificante de fanatismo político
impertinente (seguir utilizador), 1 ponto , 19:36 | Segunda feira, 2 de agosto de 2010
Porque é que me causa alguma repugnância esta "homenagem recolhida...ao homem superior, extraordinário"? Por tantas, tantas razões que não acabaria de as mencionar. Desde logo a atitude espiritual de culto ao que em Portugal, sob o influxo sobretudo de Nietzche, ainda nos 1ºs decénios do séc. XX se chamava o "homem superior", o superhomem. Nunca tive esta disposição mental que instintivamente repudio. Depois, ver no ditador manhoso e hipócrita o "homem superior" ultrapassa tudo o que intectualmente poderia admitir. Compreendo que se possa ter admirado e admirar ainda este homem que teve o poder todo e sobre todos em Portugal durante dezenas de anos, mas ainda assim há que ter a perspectiva adequada e como alguém disse, com verdade, a admiração tem de ser histórica para não ser cega. Este engº era manifestamente um fanático ultra, que recatadamente, no seu foro íntimo, queria mais propaganda do que a do Secretariado da dita. Este documento deve ser preservado. É um monumento histórico do ponto a que o fanatismo político pode levar pessoas inteligentes. Interessante seria apurar porque, tendo vivido até 1960, cessou a sua "obra" em 1956. É que a partir desses anos já toda gente estava farta de "homens superiores" que prescindem do homem comum e lhe impõem a tal superioridade. Em 1958 é a trafulhice das eleições, o Homem superior assusta-se e muda as leis para não mais se submeter ao escrutínio da ralé e garantir a sua permanência no poder. Documento de um fanático.

 
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Censura muito restrita de Salazar
Robinsoncrazy (seguir utilizador), 1 ponto , 3:22 | Terça feira, 3 de agosto de 2010
"A nossa censura é muito restrita; não é uma censura de ideias, mas uma censura de factos. Quero dizer, em Portugal, se se não deixa a liberdade de escrever coisas falsas, não se toca nunca na de formular os juízos, que se queira, sobre factos verdadeiros."
Alguma coisa mudou entretanto?
O caso TVI, foi censura de factos ou de ideias?
As providências cautelares sobre o Sol são o que?
A censura do Supremo sobre as escutas ao PM são de factos, de ideias ou apenas se pretendeu evitar a mentira?
Cada tempo tem os seus tabus e alibis!
Cada regime a sua forma particular de censura e de controlo da verdade quotidiana e da história para memória futura conforme os heróis que cultiva e a vontade de quem tem força para mexer nos cordelinhos do poder!
 
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