Aqui não há bicas nem nada disso, diz o rapaz. Está vestido com um blusão e uma camisola de lã fina por cima de uma camisa. Só de olhar para ele dá-me um arrepio. Eu tenho uma camisola de lã grossa por baixo de um casacão, um cachecol e um gorro enterrado na cabeça. Aqui não há bicas mas é como se houvesse, o expresso é muito bom. Peço um duplo e aqueço as mãos no copo de papel a escaldar. Ele insiste que não é uma bica. Só o nome é que é diferente, o café é igual... não vale a pena. A teimosia portuguesa sabe-me bem. Nada me faz mais saudades de Portugal do que a Escócia. Estamos em Aberdeen e encontro o rapaz na rua. Estão uns oito graus àquela hora da manhã. Portuguesa? Estou aqui a trabalhar, ganhar dinheiro. Em Portugal estava desempregado. Petróleo do Mar do Norte? Claro, é o que faz viver esta cidade. Eu trabalho numa indústria relacionada com o petróleo, não estou nas plataformas, é duríssimo.
Deve ter chegado há pouco tempo, ainda não levou com o Inverno em cima, o Inverno que gela a água dos rios e dos lagos e cobre os abetos e pinheiros da Caledónia de branco e protege a careca das montanhas com chapéu de neve. O Inverno é de um rigor russo, com o vento que corta a pele como uma faca afiada e o céu cor de chumbo, igual às casas de granito e às espiras e torres das abadias. Estou aqui há nove meses, passei o Inverno. Habituo-me, tem de ser. Não gosto do calor, o calor não deixa fazer nada. Encolhe os ombros. Não tem mais de 20 anos. Máximo uns 25. E gostava de ter ficado em Portugal? Eu não aguento tanto frio, nem em Agosto. Portugal não dá. A geração dele não tem futuro. Diz isto sem dramas. Conta-me que existe em Aberdeen um outro português, no petróleo. Vai-se embora antes que estale o Inverno. Sente-se fora de tudo. Percebo o sentimento.
Há muitas Escócias. A do bilhete-postal, da aristocracia e do Range Rover é uma. A do trabalho e da dureza, do pub e da briga, é outra. Os escoceses estão fartos dos ingleses, e acham que o dinheiro do petróleo fica em Westminster. A geração mais nova quer a independência e quer ver-se livre da realeza, não por serem antimonárquicos e sim porque a monarquia e a Rainha cheiram ao domínio inglês. Querem sair dali. Mudar de vida, como o português de Aberdeen.
O meu amigo David, um escocês puro como a água com que se faz o single malt, diz que a Escócia ficou para trás a olhar para as fotografias da Família Real na cómoda e as cabeças de veados na parede. Demos à luz o Harry Potter e o Sean Connery, grande honra. Os senhores da terra e dos castelos, os lairds, usam-na como território de caça. Mantêm um sistema feudal em que os habitantes das casas dentro das herdades pagam uma renda e podem comprar a casa sem poderem comprar a terra. A terra está nas mãos de meia dúzia de senhorios. A Rainha é dona da maior parte. No castelo de Ballyndalloch, de Lady Clare Russell, um dos castelos com vida, a parede está coberta de fotografias da rainha-mãe com chapéus como bolos de aniversário. E Charles e Camilla, amigos. A rainha. Os príncipes. Lady Di foi banida. As fotografias estão todas dedicadas. Lady Russel tem uma manada rara de vacas Angus e cruzava com a manada da rainha-mãe. A família dela é Macpherson-Grant, herdou por ser filha única. Russell é o marido, pajem real. Dona do castelo e das terras, da destilaria de whisky e das montanhas em volta; são descendentes do general Grant que combateu na Guerra da Independência americana (e morreu com a honra de ter sido o homem mais gordo da Escócia).
O filho mais velho herdará o título, o castelo e as terras e o mais novo só herdará se o mais velho morrer. David diz que é a única maneira de eles começarem a trabalhar nas "profissões". A tradição impede a mudança. Balmoral, um castelo construído para a rainha Vitória, que mandou arrasar o antigo castelo, é aqui ao lado. A bandeira flutua no mastro como roupa a secar, a Rainha está cá. No primeiro sábado de Setembro a família real enfia-se nos Range Rover e desce sobre a aldeia de Braemar, encavalitada nas margens rochosas do rio Dee, rio de salmão e truta. Os Highland Games atraem a gentry, com o kilt e o frasco de prata cheio de whisky no bolso. David, que acha a Escócia passada, andará de saia escocesa. Lá se vai o desejo modernizador. Sinto-me muito longe de casa. Tudo tão limpo e claro. Muitas árvores, muita água, o verde das pastagens e o roxo da charneca no Verão. Um frio de rachar. Chuva cortada pela claridade do norte. No comboio de Edimburgo vi um grupo de escoceses a comer fish and chips e a beber vinho branco do gargalo. Rudeza de berros e palavrões. Que diria Sua Majestade? Penso no português de Aberdeen. E no outro, o que não quer mais um Inverno na grisalha e no gelo. É preciso muita coragem.