Durante semanas ouvimos a teoria, adoptada por muito boa gente que vai do CDS ao PS, de que um péssimo Orçamento será sempre preferível, na actual conjuntura, à crise política que se seguiria à reprovação do Orçamento.
Acontece, independentemente de concordarmos ou não com essa tese, e eu não concordo, que a opção que neste momento se nos coloca não é tão simples assim. Nós não estamos a falar apenas de um péssimo Orçamento por contraponto a Orçamento nenhum: nós estamos a falar de um péssimo Orçamento a ser executado por um Governo liderado por um péssimo e incapaz primeiro-ministro e servido por um péssimo e incapaz ministro das Finanças. Será isso preferível a uma crise política que conduza o país a eleições?
E meço bem os epítetos com que brindo Sócrates e Teixeira dos Santos. Os dados da execução orçamental deste ano, que ontem foram confirmados pelo próprio Ministro das Finanças, são apenas a última confirmação, de muitas outras que temos recebido ao longo destes últimos meses (para não falar dos avisos, sistemáticos avisos, dos tais perigosos neoliberais que se limitaram a ter razão antes de tempo) de que nem José Sócrates percebe o que quer que seja de economia e do funcionamento dos mercados nem Teixeira dos Santos parece ter qualquer ideia sobre como se governa com rigor, transparência e respeito pelas gerações futuras.
É por isso que o folhetim orçamental, com a referida teoria em pano de fundo, foi urdido por Sócrates para desviar as atenções da sua triste governação. Enquanto se falasse de Orçamento, e para ele se canalizassem as atenções e as fúrias e as oposições, a despesista e irresponsável governação socialista não aparecia como parte (ou fonte) do problema.
Mais do que isso, esse folhetim permitiu mesmo a José Sócrates tentar, e de certa forma conseguir, separar o Orçamento da sua governação, como se uma e outra coisa não viessem da mesma irresponsabilidade. Por isso mesmo, aliás, vimos Mário Soares, bem ciente da estratégia de Sócrates, dar uma ajudinha dizendo péssimas coisas do Orçamento, como que dizendo ao eleitorado que o péssimo Orçamento era uma decorrência da crise e não da incompetência socialista.
É por isso tempo de voltarmos as nossas atenções para o essencial do desafio que nos espera, e seria bom que Pedro Passos Coelho tivesse percebido isto antes de se deixar enredar num folhetim que tem beneficiado o Governo.
E o desafio que nos espera não é a escolha entre um péssimo Orçamento ou Orçamento nenhum. É a escolha entre permitir que estes irresponsáveis continuem a executar Orçamentos, sejam eles quais forem, ou travar este desvario despesista enquanto é tempo.
José Sócrates tem, há muito que tem, de sair. De caminho, deve levar consigo Teixeira dos Santos, um dos melhores actores revelados em Portugal nas últimas décadas, capaz de passar, durante anos, por técnico responsável e capaz.